Tribuna do Leitor

A vaga de carro que já era minha


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Num daqueles diálogos pueris que servem mais para entreter as pessoas interessadas e os largos corredores de hospital do que para obter um tratado estético que fascina os pedantes, fiquei sabendo através do meu interlocutor que a sua cidade, Cesário Lange, estava enfrentando sérios problemas de estacionamento de carro no centro da cidade. "Não passo mais raiva, só vou de moto pro centrão!"

Fiquei pensando no centro de Cesário Lange, cidade de pouco mais de 15 mil habitantes. Certamente, deve ser um centro de pequena proporção, nada mais que uma avenida central e três quadras (tanto acima quanto abaixo) de menor movimento, mas que ainda possuem estabelecimentos bastante requisitados pelos residentes na cidade. No entanto, nada além disso.

Neste momento saquei que a situação é caótica, mesmo. Se o pessoal em Cesário Lange encontra dificuldades em estacionar com o carro no centrão, da mesma desventura devem experimentar cidadãos de todas as cidades do país, nos seus centros. Tanto faz se Avaré, Botucatu, Bauru, São Paulo, Rio de Janeiro... todo mundo passa pelo mesmo problema quando tenta encostar sua caranga em alguma guia.

Mesmo que pra ir comprar papel celofane para trabalho de escola do filho ou absorvente para a mulher, ou para levar o cachorro no pet-shop, cortar o cabelo, comprar chocolate numa bomboniere. Não adianta. Ou é estacionamento particular, ou é voltas e voltas pelas mesmas quadras, relembrando daquela parte do filme/livro "O Segredo" quando diz que devemos pensar fixamente sobre aquilo que queremos, para conseguir sucesso. Pois é. A vaga está lá, vaga! Somos nós é quem não encontramos!

Olha, a situação está difícil... Muitas vezes prefiro utilizar o transporte público, principalmente quando vou ao centro da cidade. São muitas as desvantagens de se utilizar o transporte público, também: ele é ineficiente; aos finais de semana, torna-se praticamente inviável; experimente voltar para casa cansado, com diversas sacolas nas mãos, em um ônibus lotado, nas tortuosas e esburacadas ruas da periferia. Acho que já tá bom...

Se o Sol não clareasse tanto, não fosse tão esmagador, iria a pé. Mas como dizia a música do Los Hermanos, a gente sempre deixa o verão pra mais tarde... e acaba utilizando o carro pra fazer as coisas, mesmo. E passa os estresses desnecessários, e buzina para quem está gripado, fecha quem não tem culpa, xinga o pedestre que demorou dois passos para terminar a rua, e todo o mundo perde a noção das leis de trânsito e da consciência, e do amor ao próximo e da ética e dos princípios cristãos. Cada qual com as suas motivações filosóficas, religiosas e éticas. Todas deturpadas.

Num desses dias, fui com a minha mãe e minha namorada ao shopping. Geralmente deixo de racionalizar antes de ir. Planejo que o passeio será legal e sem contratempos. "Vale a pena, pra tomar um ar". Só se for condicionado!

Acontece que era um feriado no meio da semana, daqueles que ninguém viaja e que a única atividade que sobra a uma boa parcela de gente é ir ao shopping. Ficar dando voltas dentro dele. Se perder nele. Cidade não tem mais clube, mas tem mais shoppings. Não tem mais praças, mas tem mais supermercados.

Bom, a questão é que chegamos perto do shopping, e o estacionamento do mesmo estava lotado. Vagas nas ruas também preenchidas. Então, começamos o mesmo percurso de sempre, dando voltas pelas quadras até encontrar um local digno para estacionar. Estávamos cabisbaixos dentro do carro, pensando algo como: "que idéia besta tivemos, de vir ao shopping em pleno feriado!" À medida que as quadras passavam, eu ia perdendo um pouco da minha sutil paciência.

No entanto, após um momento de incomum clarividência, observei que um carro no final da outra esquina estava saindo. Rua de mão dupla. Outros carros vinham em direção contrária, mais próximos da vaga. Certamente ficariam com ela, caso eu não tivesse acelerado o carro com todos os seus cavalos para subtrair de todos aquela vaga. Naquele momento, tive a certeza de que aquela vaga era minha desde o início de tudo. Lembrei de Maktub, lembrei do Segredo, lembrei de dar seta. Não lembrei de avisar minha mãe e minha namorada, que assustaram com a arrancada. Após conseguir estacionar o carro naquela improvável vaga, todos caímos na gargalhada. Elas muito mais, pelo susto e pela minha inesperada atitude. Eu consegui estacionar, eles não.

Há a ideia do caos, da luta diária pela sobrevivência no mundo urbano, as políticas públicas, a escassez do lazer, o transporte público, a perda de identidade, o andar desinteressado pelas ruas da cidade. Aquele dia, eu só queria estacionar pra ir almoçar no shopping. Peço desculpas àqueles que perderam aquela vaga, mas ela já me pertencia. Faço um apelo, por ora: deem um jeito nas vagas de carro, a começar por Cesário Lange.

Bruno E. Sanches

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