‘Vi a escola nascer e crescer’
“Vi você nascer e crescer” é uma frase bastante comum entre os vizinhos que se consideram um da família do outro. Quem nunca fez tal afirmação certamente já a ouviu. A pensionista Sidnéia Soares Felisberto, por exemplo, sempre diz tal frase, mas ela fala sobre a Escola Estadual Doutor Carlos Chagas. ]
Moradora da Vila São Paulo há mais de 40 anos, dona Sidnéia conta que acompanhou a construção e o desenvolvimento da escola: “Inclusive meu falecido marido trabalhou na construção do prédio. Tenho muito orgulho quando conto esta história porque meus filhos estudaram aqui, agora os netos também e, provavelmente, meus bisnetos também estudarão na Carlos Chagas”, afirma.
Para a moradora, ter uma escola como vizinha é sinônimo de melhoria na rua e no bairro, além de facilitar o acompanhamento da vida escolar dos netos. “Como conhecemos os professores e as diretoras, em caso de problema a escola vem em casa e nos avisa. A proximidade também ajuda na hora de participar dos eventos e das reuniões”, destaca.
Quem compartilha da opinião de dona Sidnéia é o ajudante geral Márcio Costa, também vizinho da Carlos Chagas. Segundo ele, que mora a uma quadra da escola, a maior vantagem proporcionada pela vizinha em questão é a segurança que os filhos têm na ida e na volta das aulas: “Penso assim porque eles andam apenas uma quadra até nossa casa”.
O barulho atrapalha
Por outro lado, viver ao lado de uma escola que abriga muitos alunos pode tirar o sossego dos ouvidos mais exigentes, já que o barulho é uma das características de praticamente todas as escolas.
“Eu gosto da ideia de ter escolas na vizinhança, mas não podemos negar o fato de que há um pessoal que fica em volta da escola fazendo barulho, muitas vezes estacionam carros na rua e ligam o som em volumes exagerados, isso sem falar que muitos ficam fumando, bebendo e servindo de maus exemplos para os estudantes.
O ideal seria que uma viatura policial ficasse sempre na rua da escola”, defende a doméstica e mãe de Márcio, Luísa dos Anjos Costa.
Escola também é lugar de lazer
Mais do que uma instituição de ensino com aulas de segunda a sexta-feira, a Escola Estadual Doutor Carlos Chagas é ponto de encontro de alunos, pais e vizinhos aos finais de semana. Isso porque ela faz parte do Programa Escola da Família, que desde 2003 aproxima sociedade e escola promovendo a integração de estudantes, crianças, jovens, adultos e idosos com um trabalho que sociabiliza, diverte e educa.
Sendo assim, as unidades escolares da rede pública de São Paulo são abertas aos sábados e domingos à comunidade local para realização de atividades voltadas ao esporte, cultura, saúde e trabalho, os quatro eixos do programa.
“Boa parte dos universitários que colocam as aulas em prática é da própria comunidade, inclusive os pais desses estudantes muitas vezes trabalham como voluntários em aulas de guirlanda de Natal, panetone, ovos de Páscoa...”, lembra Rosilene de Fátima Sola Genaro, vice-diretora e responsável pelo Programa Escola da Família na Carlos Chagas.
Ponto de encontro
Já a diretora Maria Eunice Borges de Miranda Reis, da escola Carlos Chagas, destaca, entre outras atividades, os encontros religiosos que acontecem no espaço cedido pela escola. Para ela, tais eventos são importantes para reunir estudantes e vizinhos em clima de confraternização e elevar a autoestima da comunidade.
“A escola também é o ponto de reuniões da comunidade para discutir as necessidades do bairro”, frisa.]
Escola na vizinhança, carro na garagem
Trânsito caótico, ônibus lotado e muito tempo na van escolar. Tudo isso parece um pesadelo para quem precisa levar os filhos até a escola e para os próprios estudantes, que precisam acordar cedo para sair de casa a tempo de não se atrasar para a aula. Mas esse não é o caso de quem tem a escola como vizinha.
A dona de casa Francislei Dal Medico Ribeiro vive no bairro Bela Vista desde que nasceu e optou por matricular os filhos e o sobrinho em uma escola que fica pertinho de sua residência, o Colégio São Francisco. Dessa forma, ela consegue economizar tempo, além de dinheiro com o transporte.
“Acho bom ter uma escola na vizinhança, principalmente quando se tem a intenção de matricular os filhos nela, como é o meu caso. Eles vão a pé para o colégio e não precisam acordar muito cedo. Também gosto de ver a movimentação das crianças pelo bairro, é uma sensação boa de desenvolvimento”, comenta.
Debate
Entre as atividades propostas para integrar escola, alunos e comunidade, este ano o Colégio São Francisco fez um debate com os quatro candidatos à Prefeitura de Bauru Rodrigo Agostinho (PMDB), Clodoaldo Gazzetta (PV), Chiara Ranieri (DEM) e Paulo Sérgio Martins (PSTU)).
A Feira Cultural e a Festa dos Imigrantes são outros exemplos de eventos abertos a toda a comunidade: “Inclusive os pais ajudam nos ensaios e no preparo das comidas típicas”, acrescenta a irmã Fabiana.
De mãos dadas
E se vizinhos unidos somam forças, Francislei lembra que uma escola pode somar ainda mais. Um exemplo citado pela moradora é uma reivindicação feita há alguns anos junto à prefeitura pelos moradores e o Colégio São Francisco em prol de vagas para ônibus escolares nos arredores da instituição: “E conseguimos”, enfatiza.
Já a irmã Fabiana Bergamin, diretora do Colégio São Francisco, aponta que a escola tem um papel social forte e que deve voltar o seu olhar para o bairro onde está inserida. Outro exemplo de união apontado pela irmã é a “luta” da escola e da comunidade para a colocação de lombadas ou outro tipo de sinalização que obrigue os motoristas a reduzirem a velocidade quando passarem na rua da escola. “A rua foi recapeada e os carros estão passando em alta velocidade”, preocupa-se.
Para a diretora, também é imprescindível que a escola estimule atividades que promovam a integração com a comunidade e coloque em prática o verbo ajudar. Ela cita o “Sagrado Solidário”, festa feita recentemente na rua da escola (Santo Antônio) cuja renda foi revertida para a escola que a Rede Sagrado de Educação do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ) mantém no Haiti: “A comunidade doou roupas e artesanatos para o bazar, além de ter ajudado na divulgação e no fechamento da rua”.
Vizinha conselheira
Varrer a frente da casa pela manhã e cumprimentar os vizinhos que passam pela rua faz parte da rotina de muitas donas de casa. E quem estuda ou estudou na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Santa Maria, na Vila Cardia, provavelmente conhece dona Cecília Peres Gonçalves. Vizinha de muro da escola há mais de 20 anos, diariamente ela mantém contato com funcionários e alunos da escola, mesmo que seja com um oi ou com conselhos para os pequenos que ali estudam.
“Conheço todo o pessoal da escola, converso com os funcionários como se eles morassem ali. Meu filho já estudou nessa escola e eu gosto das crianças. Inclusive, quando passam no portão fazendo bagunça ou jogando lixo no chão, eu explico para eles que isso não é certo. Dou conselhos e eles me respeitam e me escutam. Eu me sinto bem com esse movimento da rua onde eu moro”, aponta.
Festa ao lado
Movimento é o que não falta em uma escola. E quem tem uma instituição de ensino por perto também pode ter muitas festas e eventos no calendário. Segundo a diretora da Emef Santa Maria, Eliane Maria Rocha Dias, atividades diferenciadas e abertas ao público são essenciais para a integração escola/comunidade.
E na Santa Maria o ano letivo conta com ao menos quatro festas abertas para pais e vizinhança: Festa Junina, Show de Talentos, formatura do Programa de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) da Polícia Militar, e Audição de Música. Quando a equipe do JC esteve na escola para a reportagem, encontrou os alunos do 5º ano ensaiando com o professor Marcelo dos Santos Carneiro para uma audição de música realizada na última quinta-feira (8).
“No início de dezembro teremos mais uma edição do Show de Talentos, onde alunos, pais e comunidade podem participar com dança, canto, instrumentos musicais, poesias, desenhos, contação de piadas, embaixadinhas, entre outras habilidades. Inclusive os alunos pedem um litro de leite como taxa de inscrição com destino à entidades assistenciais”, conta a diretora.