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O populismo negro

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Comentaristas da política internacional asseguram que a reeleição de Barack Obama deveu-se ao furacão que causou muitas perdas materiais e humanas na Costa Leste dos Estados Unidos. A megatormenta chegou uma semana antes dos comícios finais da campanha, no momento decisivo para o desempate entre os candidatos democrata e republicano. Os ventos fortes destelharam a candidatura de Mitt Romney. A dor de milhões de norte-americanos vítimas do furacão Sandy eclipsou o tema político do dia, que era a pífia recuperação econômica. A competência demonstrada pelo governo federal no atendimento às vítimas, reconhecida até pelos governadores republicanos de Romney, permitiu que o presidente mostrasse sua capacidade de liderança e de ação eficiente nos momentos de crise.

Confesso-me um admirador da sociedade norte-americana pelos seus ideais democráticos e patrióticos. Vou sempre que posso aos Estados Unidos e nunca me arrependo. O país em crise ainda é, disparado, a maior economia do mundo. Os visitantes nem notam as dificuldades, talvez por não sentirem na pele o drama de 23 milhões de desempregados. Os sem-empregos também têm pouco a reclamar, mantidos que são por US$ 55 bilhões em ajuda anual. O orçamento de auxílio-desemprego é só US$ 5 bilhões menor que o dos militares. Somados aos gastos com a Educação e a Saúde, tudo colabora para o déficit de um trilhão de dólares anuais, há quatro anos seguidos subsidiados pela emissão de dólares e as Letras do Tesouro. Passou do tempo de cortar fundo na carne. A reforma fiscal é inadiável e, pelo jeito, os mais pobres não vão pagar a conta desta vez. Tal qual um populista de terceiro mundo, Obama é um Lula em guerra contra as "elites". Elas é que vão sofrer com o "abismo fiscal" às avessas. Quem tem dinheiro é que vai ser mordido pelo leão, se não quiser despencar no despenhadeiro. Os pobres ficam de fora, inclusive no corte de gastos de US$ 665 bilhões, já a partir de 1º de janeiro. Foi esta a promessa do candidato. O impacto será sentido em toda a economia internacional. Inclusive no Brasil, que tem os EUA como seu segundo maior parceiro comercial. Os conservadores se organizam num movimento antitaxação chamado de "Tea Party" (Festa do Chá), lembrando a revolta de Boston contra os altos ônus alfandegários impostos pelos ingleses ao chá norte-americano. Foi este o ponto inicial da Guerra da Independência.

No entanto, a verdadeira tormenta que salvou Obama da derrota foi outra, mais forte ainda. A tempestade humana das minorias: milhões de negros, imigrantes hispânicos e asiáticos, gays, lésbicas e mulheres que não se conformaram com os discursos contra o aborto de Mitt Romney, um mórmon igrejeiro. As minorias unidas se transformaram numa onda de ativistas e militantes que varreu a candidatura do "wasp" republicano. Foi o tsunami da mudança demográfica. Os brancos, anglo-saxões e protestantes não conduzem mais a política. O establishment branco mudou de cor, o que permitiu a segunda vitória do presidente afro-americano. Na primeira vez, em 2008, Obama soube capitalizar a necessidade vital de esperança da sociedade americana. A economia havia sido drenada por guerras infinitas. A especulação financeira irresponsável e a proteção dos mais ricos na suposição de evitar o "efeito cascata" - tudo reunido - levou ao estilhaçamento do american dream. Quem sabe um negro para pôr ordem na bagunça dos caras-pálidas. Sobrou desemprego. Obama não resolveu a chaga da falta de um sistema público de saúde. Criou um mercado de serviços de saúde só para atender em último caso. Ficou devendo os cuidados fundamentais. Obama também não tratou com comiseração os imigrantes. Antes, duplicou o número de "ilegais" deportados por Bush para os seus países de origem. Obama ordenou a retirada do Iraque, mas redobrou a campanha do Afeganistão. O populismo funciona tanto lá quanto cá. "O melhor ainda está por vir", proclamou o vitorioso na noite da reeleição. O país sangra, mas a esperança na saúde eterna continua. Obama é o cara, o "good guy". Um cara comum, boa praça, alguém como você. "O-lê-olê-olê-olá-Obamá-Lulá!"

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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