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Greve evidencia crise no Sindtran

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

O princípio de greve deflagrado por um grupo de motoristas na última sexta-feira, em Bauru, surpreendeu até mesmo o comando do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo (Sindtran) e expôs, mais uma vez, a cisão vivida pela entidade. A diretoria, na ocasião, afirmou que a ação tinha cunho meramente político, o que o grupo de dissidentes - liderado pelo atual vice-presidente sindical - nega.

O vice Valter Dutra Pereira afirma que as divergências em relação ao presidente José Rodrigues da Silva tiveram início logo no segundo ano de sua gestão, ainda em 2008. Ambos continuam filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT), mas, hoje, lideram grupos que se opõem. Existe ainda uma terceira corrente, que não está no comando, vinculada ao Conlutas.

Conforme o JC apurou, a relação entre os dois primeiros núcleos começou a “azedar” quando a presidência passou a ser acusada por parte dos dirigentes de beneficiar-se financeiramente do sindicato e estabelecer conchavo com as empresas de ônibus, como forma de desarticular qualquer mobilização dos motoristas. Mas a ruptura somente se tornou pública e declarada no início do ano passado, quando a atual diretoria acusou o grupo de Dutra de furtar cerca de R$ 19 mil da entidade.

“Foi quando ocupamos o sindicato por três dias para cobrar a realização de uma assembleia. Queríamos discutir alguns assuntos que estavam pendentes e o presidente não nos dava explicação. Quando saímos de lá, eles nos acusaram de ter furtado o dinheiro”, relembra o vice.

Segundo Dutra, a manifestação ocorreu porque a presidência havia remanejado alguns cargos de forma arbitrária, sem que houvesse a aprovação de todos os dirigentes. Mais do que isso, conforme apurado pelo JC, a dissidência afirma que a equipe de Silva teria forçado a concessionária do transporte coletivo a demitir membros radicais da oposição.

 

“Racha”

Nélio Souza Santos, assessor da diretoria do sindicato, oferece explicação diferente. De acordo com ele, o grupo dissidente exigia remuneração pelo trabalho prestado à entidade e revoltou-se porque a reivindicação foi negada. “Por ser uma instituição sem fins lucrativos, o Sindtran é isento de imposto de renda e, por isso, ninguém pode receber salário. Mas eles entendiam que deveriam ganhar dinheiro com o sindicato. Foi isso que gerou todo o problema”, argumenta.

Exercendo cada vez mais pressão, o grupo de Dutra exigia a demissão do assessor Nélio Souza Santos e advogados contratados pela entidade. Desta feita, a assembleia negada pela diretoria foi realizada sem a presença do presidente, que foi destituído do cargo, assim como seu tesoureiro.

A sede do Sindtran foi ocupada por três dias, mas Silva obteve liminar na Justiça que lhe garantiu a retomada do comando da entidade. A CUT chegou a ameaçar intervenção caso os ânimos não se apaziguassem.

“Ocorreu um processo grave e o racha interno realmente existe. Mas não houve fraude (furto), o que houve foi a ocupação pacífica da sede do sindicato. A CUT não tomou posição, mas acompanhou tudo de perto”, comenta o coordenador da Central em Bauru, Francisco Wagner Monteiro.

Depois disso, a presidência instaurou um processo contra os integrantes que ocuparam a sede da entidade. Mas Dutra alega que a presidência jamais apresentou o balancete comprovando o desaparecimento dos valores.

A ação, agora, está em sua fase de instrução, ou seja, de oitiva de vítimas, réus e testemunhas. “O juiz chegou a tentar um acordo, mas, para mim, não há acordo. A acusação que eles fizeram é muito grave. Eles vão ter que provar o que disseram”, destaca Dutra.

 

Dissidência e paralisação

Em relação à greve-relâmpago que perdurou durante a manhã da última sexta-feira, Nélio Souza Santos, assessor da diretoria do Sindtran, diz que não há outra explicação, que não a motivação política, para a mobilização. De acordo com ele, o acordo assinado na semana passada contemplava todas as reivindicações da categoria e o conteúdo era o mesmo do termo firmado provisoriamente, há um mês, no Tribunal Regional do Trabalho (TRT).

“A assinatura do termo no TRT, em Campinas, foi comemorada por este mesmo grupo, que fez, inclusive, carretara. Eles participaram de todas as negociações e não tinham motivos para bloquear a saída dos ônibus na sexta-feira. A meu ver, foi uma tentativa de demonstrar força, o que é lamentável”, frisa Nélio.

Dutra rejeita a acusação e diz que uma parte dos motoristas decidiu cruzar os braços porque o acordo ainda não havia sido protocolado na Justiça. “A gente queria uma garantia legal. A diretoria atual nunca esteve presente e, por isso, não sabe quais são as necessidades do trabalhador. Se estivesse próxima, não teria sido pega de surpresa. Saberia que os motoristas estavam insatisfeitos e dispostos a não voltar ao trabalho”, comenta.

Para o coordenador da CUT em Bauru, Francisco Wagner Monteiro, a deflagração de ambas as paralisações - por quatro dias, no início de outubro e por algumas horas no último dia 9 - nada tiveram a ver com os conflitos internos vividos pelo Sindtran.

“O que é de conhecimento da CUT é que os motoristas entraram em greve porque estavam estressados, cansados das mudanças feitas de última hora em acordos anteriores. Eles eram pegos de surpresa quando estes acordos eram implementados, o que os levou a trabalhar mais de 12 horas seguidas, inclusive. E não queriam que isso ocorresse mais”, frisa.

 

 

Eleições em 2013

 

Em março do ano que vem serão realizadas as eleições para o novo comando do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo (Sindtran) de Bauru. O atual vice, Valter Dutra Pereira, lançará chapa própria. Além dele e do presidente José Rodrigues da Silva, devem concorrer ao comando da entidade outros três candidatos.

 

Mas, conforme adianta o coordenador da CUT em Bauru, Francisco Wagner Monteiro, a Central deve realizar convenção para tentar conciliar um acordo. “A intenção é unir os dois grupos que, afinal de contas, continuam filiados à CUT. Nosso papel é intervir e tentar resolver os problemas e construir a unidade entre eles”, frisa. (TM)

 

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