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Motocicleta: uma arma letal

Archimedes A. Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Conforme noticiado pelo JC em 14.11.12, a cidade de Bauru registrou, lamentavelmente, a décima morte devido a acidentes com motocicletas no sistema viário local. No início de novembro já se atingiu o total de mortes do ano passado inteiro. Estes dados, no entanto, estão subdimensionados, pois só consideram os motociclistas mortos no local e até sua a chegada ao hospital.

Na realidade, os dados são ainda mais trágicos. De acordo com o banco de dados do Observatório de Acidentalidade Viária (OBAVI) da UFSCar, elaborado a partir de dados do Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/MS), morreram em Bauru, em 2006 (8 motociclistas), 2007 (22), 2008 (24), 2009 (30) e 2010 (25). Esse quadro é ainda mais assustador do que o publicado pela imprensa local.

Segundo análise do OBVI/UFSCar, o número de mortes de motociclistas no Brasil aumentou de forma trágica nos últimos anos. Em 1996, o número total de mortes de motociclistas no território nacional foi de 1.421; em 2010, este valor chegou a 13.452 óbitos, representando um crescimento estratosférico de quase 850%. Neste mesmo período, as mortes do trânsito, em geral, cresceram "apenas" 16%.

As mortes de motociclistas ultrapassaram as das demais categorias, representando cerca de um terço das mortes no trânsito. Em 1996, as mortes de motociclistas representavam apenas 4% do total de mortes no trânsito; em 2010 a participação desta categoria chegou a 33%, embora a frota desses veículos represente apenas 25% do total, em 2010. Estes dados são insofismáveis quanto à gravidade do fato.

Caso os motociclistas fossem excluídos dos cálculos de acidentalidade viária, encontra-se-ia que, no período de 1996 e 2010, a quantidade de mortes no trânsito seria reduzida de 34 mil para 27,5 mil, o que representaria uma redução de quase 19%, nesse período. As taxas (mortes por grupos de 100 mil habitantes) cairiam mais ainda: de 21,6 óbitos para 14,4, representando uma uma queda acentuada de 33%.

Com relação à acidentalidade de motociclistas, as taxas registradas no Brasil são alarmantes. O país é o segundo mais violento de um grupo de 67 países, com 7,1 mortos por grupo de 100 mil habitantes, perdendo apenas para o Paraguai (7,5). O Brasil, que aspira chegar ao seleto grupo de potências mundiais, no quesito segurança de trânsito, particularmente, com relação à acidentalidade com motocicletas, leva de goleada dos países desenvolvidos. Cita-se alguns exemplos: EUA (1,7 mortes por grupos de 100 mil habitantes), Espanha, Japão, Reino Unido (0,8), Alemanha (0,7), França (0,6) e Suécia (0,5).

Enfim, se na prova de economia o Brasil vai bem, pois é a sexta economia do mundo, na prova de segurança no trânsito foi reprovado, com notas semelhantes às de países pouco desenvolvidos.

A frota de motocicletas não pára de crescer e os acidentes também. A cada dia 3.780 motocicletas são emplacadas no território nacional. Em Bauru, segundo dados do OBAVI/UFSCar, de janeiro a setembro de 2012, cerca de 1.860 novas motos foram incorporadas à frota. Isto pode apontar para um recrudescimento nos dados de mortalidade de motociclistas bauruenses.

Os acidentes de trânsito são considerados pela Organização Mundial de Saúde como sério problema de saúde pública e que precisa ser enfrentado seriamente. As motocicletas, por sua vez, constituem um grave fator indutor da violência cotidiana nas cidades e rodovias brasileiras. Portanto, a questão precisa ser encarada de frente, com coragem e tenacidade, com políticas públicas e ações estratégicas adequadas à magnitude do problema. São brasileiros que perdem a vida, sendo a maioria deles com idade de jovens adultos.

O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em Engenharia de Transportes, professor, pesquisador, coordenador do Núcleo de Estudos em Trânsito, Transportes e Logística da UFSCar. Autor dos livros Segurança no Trânsito (Editora São Francisco) e Segurança Viária (Editora Suprema) e Diretor de Engenharia da Assenag-Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru. E-mail: raiajr@ufscar.br

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