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Entrevista da Semana: Francisco César Tiengo (Fiu-Fiu)

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

 

Ele nasceu em 1964, em Bauru e, quando criança, adorava comer a exótica mistura de feijão com macarrão, preparada por sua mãe. O que não poderia imaginar é que, décadas depois, a batata frita  -  outra iguaria irresistível para qualquer idade - seria o seu ganha-pão. 

 

Hoje, aos 48 anos, Francisco Cesar Tiengo  -  casado, pai de três filhas e de uma enteada - virou espécie de referência da tentadora fritura em Bauru.

 

Popular, também ficou conhecido lá pelos lados do Vitória Régia, onde mantém seu trailler há 25 anos, como Tio Fiu-Fiu - por causa do hábito de assoviar quando respondia a algum cumprimento de pessoa cujo nome não se lembrava  -  ou que não conhecia mesmo. 

 

Numa semana daquelas boas para fritar (e faturar), Chico utiliza cerca de 2 toneladas de batata para dar conta de toda a ávida demanda em ambiente ao ar livre. Ele também teve pesqueiro, mas isso é outra história. Confira abaixo mais sobre as idas e vindas deste carismático batalhador.

 

 

 

Jornal da Cidade - Você ficou conhecido em toda a cidade por conta de suas batatas. Quando e como ganhou essa fama?

Francisco César Tiengo (Fiu-Fiu)  -  Tudo começou há 25 anos. Eu e minha família passávamos por um momento de dificuldade financeira. Para levantar algum dinheiro, eu ia todos os finais de semana para o Parque Vitória Régia vender pipas. Fui eu quem começou com a bagunça que toma conta de lá atualmente (risos). Certo dia, reparei em um senhor que vendia batatas. Ele tinha muitos clientes. Interessado, me aproximei dele e comecei a fazer algumas perguntas. Saí de lá decidido a entrar neste ramo.

 

JC  -  E vender pipas era a sua única fonte de renda?

Fiu-Fiu  -  Não. Durante o dia eu trabalhava como caixa em um banco. O problema é que, na época, eu era viciado em jogo de baralho. Mesmo com três filhas pequenas para criar, eu gastava o pouco que ganhava no banco em apostas. Foi um momento bastante difícil. 

 

JC  -  Mas como superou essa fase?

Fiu-Fiu  -  Com muito esforço e vontade. Desenvolvi o vício sem perceber: no fim do expediente no banco, costumava frequentar um bar, onde passei a participar de apostas. Com o tempo, fui ficando cada vez mais viciado. Fazia dois anos que eu estava nesta situação quando caí na real e percebi que precisava mudar. Foi então que decidi ocupar ao máximo meu tempo vago e comecei vendendo pipas no Parque Vitória Régia. E, como disse, foi em um dia desses que encontrei o tal senhor vendendo batatas.

 

JC  -  E como colocou em prática seus planos de entrar para o ramo?

Fiu-Fiu  -  Primeiro, pedi para alguns amigos que trabalhavam em uma fábrica de baterias para me ajudar a montar um cortador de batatas manual. Depois, com muito sacrifício, comprei um fogão, do tipo pastelaria, para fritar as batatas. Coloquei tudo em cima de um Opala velho que tinha e fui para o Parque Vitória Régia. Era um domingo de setembro, lá pelas 16h.

 

JC  -  E como foi seu primeiro dia de ‘batateiro’?

Fiu-Fiu  -  Foi um fiasco (risos). Fiquei horas sentado em um único banquinho de madeira sem que aparecesse um único cliente. 

Eu esperava tanto por meu primeiro cliente que lembro o nome dele até hoje: é o Tiago, filho da Silvana e do Luiz. Lembro-me que fritei as batatas do jeito que achava que era certo, afinal, eu nunca tinha feito aquilo antes.

 

JC  -  Demorou muito até conquistar sua clientela?

Fiu-Fiu  -  Muito. Mais ou menos uns dois anos. Na época, eu tinha muitos concorrentes. Um deles era um senhor que vendia batatas na Praça da Paz. Quando ele estava cheio de serviço por lá, me indicava para os clientes. Aos poucos fui melhorando meus equipamentos e técnicas, fazendo cursos e pegando prática. Tudo isso colaborou para o aumento do movimento.

 

JC  -  Foi aí que nasceu o Fiu-Fiu?

Fiu-Fiu  -  Foi sim. As pessoas passavam e me cumprimentavam. Como nem sempre conseguia responder ou ver quem era, apenas assoviava. Aos poucos, isso se tornou minha marca pessoal e, logo, um apelido.

 

JC  -  E agora, você continua assoviando ou gravou um CD para cumprir esta função?

Fiu-Fiu  -  (Risos) Continuo assoviando. Tem muita gente que pensa que é gravação, mas não é não. Sou eu mesmo. Quem é visto é lembrado e quem é escutado também. E aproveito para esclarecer uma dúvida que muita gente tem: não, eu não assovio o tempo todo. É só lá no trailler mesmo (risos).

 

JC  -  E atualmente, a quantas andam as batatas?

Fiu-Fiu  -  Muito bem, obrigado. Atualmente trabalho de quarta-feira a domingo, das 19h às 23h, faço encomendas para empresas, casamentos e festas no geral. Tem dado muito certo. Além das minhas duas filhas e da minha enteada, mais três rapazes trabalham para mim. Nas semanas de maior movimento, chego a vender duas toneladas de batatas.

 

JC  -  Nestes anos todos de trabalho, teve algum fato que marcou você?

Fiu-Fiu  -  Foram muitos. Mas um deles, em especial, colaborou muito para o meu sucesso. Fazia seis anos que eu vendia batatas e trabalhava apenas com o tipo palha. Então, o João, um cliente semanal, chegou certo dia e me disse que queria batatas palito. Eu dei as batatas nas mãos dele e disse “então, corta que eu frito”. Ele me devolveu e disse que se eu não fizesse a batata palito ele não voltava mais. Para não perder o cliente, dei um jeito. Depois, pensando nisso, fiz um cortador de batatas palito e passei a vendê-las também. Foi um sucesso.

 

JC  -  E na infância, a batata era sua comida predileta?

Fiu-Fiu  -  Não. Eu gostava muito de batatas. Na verdade, ainda gosto muito. Mas, quando criança, gostava do feijão com macarrão que minha mãe fazia. Era mesmo sensacional.

 

JC  -  Falando em infância, ela influenciou seu futuro?

Fiu-Fiu  -  Sim, muito. Desde criança já enveredava para o ramo do comércio. Minha família sempre foi muito pobre, sem acesso à cultura e à informação. Eu tinha 8 anos quando, para levantar algum dinheiro, comecei a vender na feira e na escola mexerica cheirosa, manga e mamão. 

 

JC  -  Além disso, o que você mais gostava de fazer nessa época?

Fiu-Fiu - Sempre fui apaixonado por peixes. Quando criança, quando não estava trabalhando ou estudando, estava jogando bola ou pescando nos rios da cidade. Era uma delícia!

 

JC  -  Você chegou a ter um pesqueiro, não é?

Fiu-Fiu  -  Tive sim. Como eu gostava muito de peixes, em 1987, montei um lago para uso próprio. Nos momentos de folga ia para lá e ficava pescando. Em 1992 decidi transformar o local em um pesqueiro e montei, ao lado do lago, um salão que servia como restaurante. O pesqueiro Fiu-Fiu funcionou durante 9 anos e, depois, decidi desativá-lo e manter só o salão, que alugo para festas.

 

JC  -  E por que você encerrou as tarefas do pesqueiro, já que gostava tanto da atividade?

Fiu-Fiu  -  Estava dando muito trabalho e pouco lucro. Não tive outra alternativa. Melhor foi ficar só com o salão e as batatas.

 

JC  -  E quais são seus planos para o futuro? Pretende abrir uma franquia das Batatas Fiu-Fiu?

Fiu-Fiu  -  Queria, sim, abrir uma franquia. Já apareceu muita gente interessada, mas, na hora de fechar negócio, sempre acabam achando caro e desistindo. Sob o meu comando, não tenho intenção de abrir mais uma unidade, ter outro trailler em um ponto diferente da cidade. Acho que seriam necessárias três pessoas para fazer o que faço. Sendo assim, vou tocar o negócio até que puder. 

 

JC  -  Mas você está preparando um sucessor, ou melhor, uma sucessora?

Fiu-Fiu  -  Então, minhas filhas trabalham comigo desde que são crianças. Mas, sinceramente, não penso nisso. A Stephania, mais velha, se formou em administração. A Francine, do meio, se formou em engenharia de produção, mas atualmente vive nos Estados Unidos, com o marido. Já a mais nova se forma este ano, também em engenharia de produção. Não sei se elas seguirão seus caminhos ou se darão sequência no meu trabalho. Criei minhas filhas para o mundo e o futuro a Deus pertence.

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