Jogos Abertos 2012

Boxe: Ela quer mais

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 5 min

Éder Azevedo

Atleta baiana encerrou um jejum de 44 anos sem medalhas no boxe

Primeira boxeadora a conquistar uma medalha para o Brasil em Olimpíadas, Adriana Araújo está em Bauru para a disputa dos Jogos Abertos do Interior, categoria até 75 kg. A baiana de 31 anos é um dos destaques da delegação de São José dos Campos, cidade que representa há quatro anos no evento esportivo do Estado de São Paulo.

Há menos de três meses, o País se emocionou e comemorou a conquista de uma brasileira até então pouco conhecida. Ao vencer a marroquina Mahjouba Oubtil pelo placar de 16 a 12 nas Olimpíadas de Londres, em agosto, Adriana passou para as semifinais da competição e, como no boxe olímpico os quatro semifinalistas ganham medalha – são um ouro, uma prata e dois bronzes –, garantiu a primeira medalha no boxe feminino, justamente na edição em que a categoria estreava na competição. Na sequência, Adriana foi derrotada pela russa Sofya Ochigava, por decisão – polêmica – dos árbitros, mas o bronze já estava garantido.

“É uma sensação indescritível. Quando subo no ringue, não penso nas coisas que estão me cercando, só no combate. Fui descobrir o que realmente significava minha conquista em Londres depois de uns três meses. Aliás, a cada dia descubro algo mais”, conta Adriana lembrando ainda que a medalha de bronze nos Jogos de Londres foi a centésima do Brasil em Olimpíadas.

Sua conquista na Inglaterra encerrou um jejum de 44 anos do boxe brasileiro. Antes, apenas Servílio de Oliveira havia conquistado uma medalha nos Jogos, em 1968, quando também ficou com o bronze.

Em quatro assaltos contra a marroquina, Adriana escreveu seu nome na história do esporte brasileiro. Mas o caminho até a glória foi árduo. “Comecei a treinar mesmo em 2000, e durante um bom tempo, praticamente treinava por conta, sem patrocínio. Trabalhava durante o dia todo e treinava à noite. Caminhava 20 km de minha casa em Salvador até a academia. Depois de quatro horas de treino, voltava caminhando os mesmos 20 km. Ia andando, mas sem olhar o caminho”, conta a baiana que, antes de subir nos ringues, desfilou pelos gramados de Salvador. “Sempre fui muito ligada ao esporte. Inclusive cheguei a jogar nas categorias de base do Vitória”.

 

Origem

Depois de garantir a vaga para Londres no Mundial, Adriana não pensou duas vezes e retornou para a Bahia. “Por defender a Seleção Brasileira, treino em Santo Amaro. Mas quando me classifiquei, passei um mês e vinte dias em Salvador, treinando com meu técnico, Luiz Dórea, que não é o mesmo da Confederação. Acredito muito nesta coisa de base, de formação e origem. A gente que vem de baixo, se vira. E tem que reconhecer isso. É por isso que não me vanglorio desta medalha. Você só conquista se buscar. Se fez, vai receber em troca”.

Adriana leva tão à sério a questão que negou o convite que a Confederação e São José lhe fizeram para se hospedar em um hotel da cidade durante os Jogos Abertos. “Não, não...Prefiro dormir com o pessoal da delegação no alojamento da cidade. Comigo não tem isso”, diz.

E para quem acha que aos 31 anos e com tantos recordes quebrados a pugilista pensa em descer do ringue, a resposta é tão rápida quanto seus golpes. “Eu acreditei, segui em frente e cheguei. Mas não parei por aqui. O caminho segue. Eu ainda quero mudar a cor desta medalha”, cita, já pensando no ouro no Rio-2016.


Espelho vencedor

São sete campeonatos Pan-Americanos de boxe feminino no currículo. De 2005 a 2012 – pulando a edição de 2006 que não disputou – Adriana foi imbatível. Não houve atleta que conseguisse derrubar a baiana arretada, hoje patrocinada pela Petrobrás e pelo Bolsa Atleta. “Às vezes as pessoas me perguntam se não tenho dó de bater forte nas oponentes. Dó? Como vou ter dó? Passei por cima de tantas dificuldades para estar ali em cima e vou ter dó? Ninguém teve dó de mim”, conta, com bom humor.

A história da atleta que superou todas as adversidades e fez a bandeira brasileira tremular em Londres, serve de exemplo para os mais novos.

Ontem, Marcos Pantaleão, treinador da Equipe Leões do Ringue de Bauru que, por não entrar em acordo com a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel), disputa os Jogos Abertos por Pirajuí, promoveu o encontro da maior pugilista brasileira de todos os tempos com as jovens promessas dos ringues. “Ainda sofremos muito com a falta de patrocínio. No Brasil, principalmente no esporte, primeiro você tem que chegar lá, mostrar seu valor para depois ser valorizado”, cita o treinador.

Tiago Idelfonso, 27 anos, é um dos principais nomes da Leões do Ringue. Nos Abertos, já tem o bronze garantido e está na semifinal, a um passo de garantir, no mínimo, a medalha de prata na categoria peso médio (até 75 kg). As palavras de Adriana não poderiam soar de outra forma a não ser como lição e exemplo ao jovem. “Já aconteceu de viajarmos para a disputa de campeonatos com dinheiro contado para a passagem e, na hora de comer, sair contando as moedas de cada um para comprar um pacote de bolachas e dividir em três”, lembra.

Exemplo para os mais jovens, Adriana sabe da responsabilidade que carrega após a conquista. “A gente hoje é visto como espelho para os mais novos. Mas eu digo sempre que tenho minha história de vida mais como uma medalha de ouro do que a própria medalha que ganhei”.


Boxe bauruense já tem quatro medalhas

O boxe bauruense já tem garantido para a cidade, no mínimo, quatro medalhas de bronze. Destas, três ainda podem se tornar ouro ou prata, e uma prata ainda pode ser ouro.

O atleta Kessketlen Bezerra (peso mosca - 51kg), já tem a prata garantida por estar na final. Por outro lado, Valdinei Rocha (meio pesado - 81kg), Pedro Rosa Jr. (peso médio – 75kg), Marcio Maciel Sales (peso pena - 56kg), estão na semifinal e já têm o bronze garantido mesmo que percam suas lutas.

A atleta Ana Claudia Fatia (peso pena – 57kg) lutou ontem, mas perdeu da atleta de São José dos Campos na semifinal e ficou com o bronze.

Hoje, nenhum atleta de Bauru sobe no ringue. A equipe comandada pelos técnicos Richard Leutz e Carlos Fiola, luta só amanhã, a partir das 17h. As competições de boxe vão até sexta-feira.

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