Depois do ringue de boxe e das peças dos jogos de xadrez, mais uma compra da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) para os Jogos Abertos do Interior apresenta problema. Dessa vez, o alvo são os colhões especiais utilizados para a área de queda dos atletas que competem no salto com vara e salto em altura. Diferentemente do que foi exigido no edital e oferecido pela empresa vencedora da licitação, os materiais que chegaram ontem e serão utilizados a partir de amanhã não possuem o certificado da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF).
A empresa ganhadora da concorrência pública foi a Pista e Campo Ltda, de Curitiba. Ao todo, foram adquiridas pelo município três áreas de queda, da marca Vinex, fabricadas na Índia, pelo valor total de R$ 115.914,00. O Jornal da Cidade, no entanto, foi até o ‘Milagrão’, onde foi construída a pista de atletismo e estão montados os equipamentos para a modalidade e constatou divergências nos materiais instalados.
Os colchões que estão no local são da marca Peron, fabricados por empresa paulistana. O problema, porém, vai muito além da procedência destes materiais. O ponto principal é que, apesar de serem comercializadas como oficiais, não têm o certificado da IAAF.
Atletas da modalidade consultados pela reportagem dizem que, além da provável divergência do preço entre os produtos licitados e entregues, a durabilidade do material instalado no Milagrão é o que mais preocupa. “No momento, para as competições, eles não vão causar problemas, mas duram bem menos, ainda mais porque, no entorno da pista de atletismo, não há um local adequado para que esses materiais sejam armazenados”, relata.
No entanto, nos bastidores, há o receio de que parte dos atletas apresente restrições para competir com o equipamento entregue. Vale lembrar que a prova de salto com vara, por exemplo, contará com a participação da campeã mundial Fabiana Murer.
Sem treino
Além do desacordo entre o que foi comprado e entregue, é preciso ressaltar que os materiais foram entregues na véspera do início das competições de atletismo nos Jogos Abertos do Interior. Na tarde de ontem, as embalagens que protegiam os colhões ainda eram vistas às margens da pista no Milagrão.
O JC ouviu de alguns atletas que, se não bastasse o desrespeito aos prazos de entrega previstos pela o edital, a demora na entrega dos produtos prejudicou os atletas bauruenses, que poderiam ter treinado, previamente, nos equipamentos que serão utilizados nas competições.
Empresa e Semel alegam ‘empréstimo de socorro’
Tanto o secretário municipal de Esportes, Roger Barude, quanto a empresa vencedora da licitação confirmaram ontem que os produtos instalados no Milagrão para serem utilizados pelos próximos dias nos Jogos Abertos do Interior não atendem à especificação exigida pelo edital de licitação.
Sócio da Pista e Campo Ltda, Maciel Fatiga afirma, porém, que o produto adquirido pelo município ainda não foi, de fato, entregue. Nem sequer pagamentos foram efetivados ou notas fiscais, emitidas. Segundo ele, os colhões entregues foram fornecidos pela empresa, sem custos ao município, para impedir que as competições dos jogos fossem prejudicadas.
Fatiga explica que precisou tomar essa atitude porque os materiais importados da Índia não entraram no País. “O navio não conseguiu atracar porque os portos estavam lotados. Então quisemos amenizar a situação, arcando com o custo do produto nacional. Entramos em contato com o secretário, antes de vencer o prazo de entrega e a nossa proposta foi aceita”.
Segundo o empresário, os colchões da marca Vinex devem ser entregues a Bauru dentro das próximas semanas, ou seja, depois de findados os Jogos Abertos.
Roger Barude confirma a versão apresentada pela empresa e nega que a competição sofra prejuízos mesmo com equipamentos sem o certificado da IAAF. “A Federação Paulista de Atletismo acompanhou a montagem de tudo. Eles são muito rigorosos. Se houvesse qualquer problema, teria sido apontado”, alega.
Prazo e multa
O edital de licitação prevê que a empresa vencedora tinha 90 dias para entregar o produto após a publicação do extrato do contrato. A homologação da licitação acontece no dia 24 de julho deste ano. O sócio da Pista e Campo, Maciel Fatiga, confirma que o prazo expirou, mas critica a concorrência do poder público ‘a toque de caixa’.
“Não gostamos de participar de licitações feitas tão em cima da hora. Justamente por isso, avisamos que, quando se trata de exportações, situações como esta podem acontecer. Mas a gente também depende do sistema público nesses casos”, comenta.
Fatiga diz que, até agora, não tem conhecimento sobre a aplicação de multa ou qualquer tipo de sanção contra a sua empresa.
O secretário de Esportes, Roger Barude, foi questionado a respeito, mas se absteve de um posicionamento ao alegar que essa decisão depende das secretarias municipais de Administração e Negócios Jurídicos.
Mais problemas
O atletismo é alvo de polêmicas desde o início dos trabalhos em torno dos Jogos Abertos do Interior. A principal delas é a própria pista, construída às pressas, custando R$ 4,5 milhões. Além do preço, o mérito da obra foi bastante questionado já que Bauru não tem tradição na prática da modalidade. Para piorar, a viabilização do equipamento custou o fim de um estádio distrital.
Ontem, atletas reclamaram das péssimas condições do gramado central da pista. No entanto, o principal alvo é a falta de estrutura no local, que não conta sequer com banheiros e vestiários. Para a realização dos jogos, foram providenciados contêineres e sanitários químicos improvisados.