Nome de astro ele tem. Aos 43 anos, Erasmo Carlos Rodrigues brilhou ontem de manhã, no último dia de disputas do atletismo nos Jogos Abertos do Interior de Bauru.
Pela primeira vez na vida, o bauruense teve a oportunidade de pisar em uma pista de nível internacional, construída no antigo Estádio do Milagrão especialmente para os Jogos deste ano.
Erasmo participou como convidado da disputa dos 10 mil metros, onde os competidores dão 25 voltas na pista. “Chega cansar só de ver. Vocês se arriscam?”, questionava, em tom de brincadeira, um dos torcedores aos jornalistas presentes.
Procurando um “pedaço” de sombra para se abrigar, a imprensa não teve a mesma iniciativa de Erasmo Carlos. Ele, sim, arriscou.
Coletor de lixo da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) desde 2007, e atleta nas poucas horas vagas, Erasmo aceitou o convite de Alcides dos Santos Gonçalves, o Cabo Alcides, para simplesmente encarar os maiores nomes brasileiros na modalidade inscritos na disputa da Primeira Divisão dos Jogos.
“Convidamos o Erasmo, na verdade, para fazer um reconhecimento da pista. Ele treinou com a gente há um tempo, participa de corridas de rua e agora pretendemos resgatar este trabalho na pista”, comenta Alcides.
Além dele, também esteve na disputa Sebastião Samuel Junior, o Kanú. Ambos, como já era de se esperar, não tiveram condições de encarar as feras do atletismo.
Bem diferente
Logo na largada da prova, nos cem primeiros metros, um pelotão de atletas disparou. Erasmo e Kanú ficaram para trás. A cena presenciada por um público pequeno na quente manhã, escancarou a realidade do atletismo bauruense: estamos bem atrás de nossos concorrentes.
A cada volta completada, um dos fiscais de prova bradava o número de voltas restantes, orientando os atletas. Quando anunciou a que ainda faltavam 17 para o fim dos 10 mil metros, outro fiscal teve que auxiliar: “Bauru: 18 voltas”. Era o sinal de que o pelotão ultrapassava pela primeira vez a dupla bauruense.
Poucos metros depois, Erasmo acenou para um dos fiscais e diminuiu o ritmo das passadas até caminhar para fora da pista. Terminava a prova para o coletor, mas começava um sonho para o atleta, hoje, ainda amador.
“Aceitei o convite do Cabo Alcides para conhecer a pista e entender um pouco do que é isso aqui. Não dá para competir com ninguém, eu sabia disso. Vim com o propósito de dar algumas voltas e sentir um pouco o chão”, destaca, consciente do abismo entre sua preparação e a dos demais competidores.
Sempre correndo
Por dia, Erasmo percorre cerca de 25 km, sobe e desce do caminhão, carrega sacos pesados de lixo. Esforço grande, mas bem diferente de uma prova de 10 mil metros. “Uma coisa é você correr no dia a dia, ou até nas provas que eu disputo e que tive boas marcas neste ano, que são provas de rua. Na rua, como uma corrida de São Silvestre, por exemplo, o percurso tem subidas, descidas, você pode dosar. Mas aqui (na pista) é linha reta, é um ritmo contínuo, você tem que estar muito bem preparado”, diz.
Para o entusiasmado, porém tímido Erasmo, os passos dados para fora da pista foram os primeiros de um projeto pessoal.
“Não fiquei desapontado. Sei das minhas condições. O plano agora é me preparar para os Jogos Regionais. Quero estar lá e fazer bonito por Bauru”, projeta o bauruense.
Uma pista no quintal de casa
A pista construída no antigo Estádio do Milagrão, no Jardim Prudência, é mais do que um sonho realizado. Trata-se, na verdade, de vários sonhos que começam a ser construídos. Um deles, o de Erasmo, que ganhou um belo presente no quintal de casa – explica-se: ele mora em frente à novíssima pista de atletismo.
O “Tremendão” bauruense iniciou sua vida no atletismo há 15 anos, sob o comando de Cabo Alcides. Mas a dificuldade em conciliar treino e trabalho, somado ao inexistente aporte financeiro, foram mais fortes. “Não dava. E ainda não dá do jeito que está. Semana passada fui competir em Jaú, em uma prova de 10 km de rua, e tive que tirar dinheiro do bolso. Fui dirigindo minha moto e, mesmo cansado da viagem, consegui ficar em segundo”, comemora. “Vamos ver se agora com essa pista, posso voltar a treinar com o Cabo Alcides. Hoje (ontem) tive o primeiro contato, mas sei que serão muitos e quero me preparar bem para competir por Bauru. Quem sabe consigo patrocinadores”.
Esperançoso, Erasmo já traçava seus próximos compromissos. “Hoje (ontem) à tarde vou treinar, pois estou de folga devido ao convite que recebi para disputar os Jogos Abertos. Amanhã (hoje) já é dia de trabalhar”, destaca o coletor.
Ao ver a pista construída bem em frente a sua casa, Erasmo não esconde a emoção e até traça planos mais ousados. “Esta aqui é a próxima que vai correr nessa pista”, profetiza, apresentando Luane Luiza, de seis anos, sua filha caçula.
Sentado à beira do caminho...
Esse foi o título de uma composição de Erasmo Carlos (o cantor), lançada pela primeira vez em 1969 no LP “Erasmo Carlos e os Tremendões”.
Na época, a gravação foi um sucesso. As rádios não paravam de tocar a canção. A novela “Beto Rockfeller”, da TV Tupi, chegou a executá-la na íntegra em um capítulo.
Curiosamente, na mesma época nascia o “nosso” Erasmo Carlos. Apesar disso, o atleta ficou na dúvida se seu batismo tem relação com o famoso cantor brasileiro. “Não tem ligação, eu acho. Ele é ele, e eu sou eu. Foi coincidência pura”, diz, sem convicção aparente.
As evidências, porém, jogam contra seu discurso.
Aliás, foi assim, sentado à beira do caminho, que Erasmo, depois de deixar a prova, acompanhou o resto da disputa.
“Vou assistir as provas até o fim. Eu gosto disso, é muito bom ter uma competição destas em casa”, conclui.