Com o respaldo do Instituto de Fiscalização e Controle (IFC), de Brasília, a Ong Bauru Transparente (Batra) realizou, ontem, auditorias em seis unidades de Saúde do município.
O relatório aponta diversos problemas – muitos já conhecidos da população que depende deste tipo de atendimento. No entanto, até a existência de goteiras foi relatada por servidores de unidade do Jardim Europa.
Em dias de chuva, a água entra pelo telhado em diversas salas de atendimento, atingindo a macas e equipamentos, de acordo com os auditores.
No local, também foram constatadas pinturas descascadas no prédio, além das condições inapropriadas para o armazenamento de medicamentos e insumo. Este item, aliás, foi apontado em quase todas as unidades auditadas na sexta-feira.
Em relação às goteiras, o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, admite que a pasta já tinha conhecimento sobre o caso.
Segundo ele, a reforma do telhado está prevista para o local, mas depende de questões burocráticas. “Se uma torneira quebra em uma casa, basta chamar o encanador para trocá-la. No poder público, não é assim que funciona. Assim como no Jardim Europa, muitas unidades de saúde aguardam por reformas, algumas, inclusive, grandes, com ampliação”.
Outras situações
No Beija-Flor, por exemplo, há má circulação de ar, instalação elétrica inadequada, que já causou perda de documentos, e piso não permeabilizado. No Mary Dota, há apenas um banheiro reservado para pacientes e outro a servidores.
Já na Vila São Paulo, os banheiros não dispõem de acessibilidade e possuem mobiliário inadequado, de acordo com o relatório.
No caso da UBS do Centro, a reforma está parada desde maio de 2012 e tolhe a capacidade de atendimento. A intervenção no local é considerada urgente.
Embrião do SUS
O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) recebeu o relatório e admitiu a necessidade de reestruturação das unidades de saúde básica de Bauru.
Segundo ele, quando elas foram idealizadas, no início do Sistema Único de Saúde, dependiam apenas de uma ‘casinha de Cohab’ e de um médico para atender a população. “A lógica do serviço mudou. Hoje o paciente não confia só no que o médico diz, quer exames. A saúde, hoje, é tecnológica”.
O relatório das auditorias, segundo o chefe do Poder Executivo, vai ajudar a administração a priorizar as obras necessárias. “Quando assumimos, tivemos a necessidade de reestruturar a rede de urgência e emergência. Agora, será a vez da atenção básica”, prometeu.
Outros problemas
- Precário controle da distribuição de medicamentos
- Instalações improvisadas
- Falta de informatização
- Demanda reprimida
- Falta de enfermeira e atendente (Mary Dota)
- Balança pediátrica quebrada (Vila São Paulo)
- Um sonar quebrado (Vila São Paulo)
- Falta de segurança (Santa Edwirges)
Filas nas madrugadas
As auditorias apontaram ainda a penosa condição das pessoas que precisam de atendimento nas unidades básicas de saúde sem agendamento. Muito comentadas durante a campanha eleitoral, as filas das madrugadas acontecem em pelo menos duas das unidades acompanhadas pela Batra e pelo IFC.
De acordo com o relatório, quem não agendou consulta, precisa contar com a desistência de outros pacientes. Para isso, precisam chegar às unidades a partir das 4h da manhã - e esperam por atendimento por até seis horas.
Procurador abre procedimento para acompanhar ‘andamento’
O procurador do Ministério Público Federal, Pedro de Oliveira Machado, acompanhou auditoria em uma das unidades de Saúde. Ele destacou a dedicação dos servidores municipais e os terceirizados pela Sorri-Bauru (no caso do Programa Saúde da Família).
Machado vai abrir procedimento de acompanhamento para os problemas apontados - e vai contar com informações da Batra para isso. Uma nova visita às unidades vai acontecer no início de janeiro, de acordo com a Ong.
“Sabemos que a estrutura do poder público não permite que soluções sejam dadas na velocidade que esperamos, mas vamos acompanhar as movimentações e os esforços nesse sentido”, explica Machado.
O procurador falou também sobre a necessidade de investimentos na promoção de saúde. “Ficou bastante claro que doenças podem ser evitadas com essa ação”.
Vale lembrar que, apesar de ter prometido expandir o PSF de sete para 26 unidades, o governo Rodrigo Agostinho inaugurou apenas uma no primeiro mandato.
Caravana
O presidente do IFC, Henrique Giller, destacou que o trabalho não esbarrou em dificuldades de acesso às unidades. “Não queremos achar culpados, mas apontar os problemas e sugerir soluções. No entanto, precisamos acompanhar e verificar quais medidas são tomadas”.
O evento, que contou também com palestra e treinamento, foi inspirado na “Caravana Todos Contra a Corrupção”, de 2005.