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Pecadilhos inocentes

José Fernando da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Corrupção originariamente significa quebra, deterioração, apodrecimento destacando-se nesse significado que todas as ações corruptoras, em algum grau, deterioram e apodrecem as linhas de equilíbrio social gerando, quase sempre, indesejáveis e prejudiciais resultados. Num sentido amplo todas as ações que comprometem os valores sociais são ações corruptoras. Cuidam-se, sempre, de ações antisociais, apenas com variação de intensidades e de resultados e conseqüências e aquele que as pratica corrupto é. Por causa da necessidade do equilíbrio social é que a corrupção, qualquer que seja, exige permanente e eficiente controle que desestimule sua prática e reprima e puna seus personagens. Pondere-se que boa parte das ações corruptoras não gera conseqüências estritamente econômicas, mas, nem por isso, deixam de merecer controle e punição pelo desequilíbrio social que acabam gerando, até porque a falta de controle e de punição funciona como poderoso caldo de cultura que se presta e tem qualidade para germinar e fazer crescer ações semelhantes.

A corrupção estritamente econômica que sempre nos choca tem fundamento na ganância. Outras vezes a prática de corrupção tem falsas e inadequadas justificativas e pretextos. Porque o serviço público é deficiente sonega-se pagamento de tributo; porque o cidadão notório delinqüente acaba absolvido segundo o devido processo legal tem-se como incentivada sua imitação; porque as regras de trânsito carregam alguma incoerência não há mal em desrespeitá-las. Aparentemente a corrupção justificada aplaca consciências e confere segurança até que ocorra alguma reversão e se apanhe o transgressor. Nessa hora, o corrupto, mesmo com suas falsas e inadequadas justificações está danado.

Outras vezes os atos corruptores inserem-se em estúpidas condutas que não possuem justificação alguma. Têm, apenas, a marca de leviandade e o descompromisso com os valores sociais. Dentro dessa espécie não escapam nem mesmo as ações corruptoras que agridem e afrontam a ordem ética ? e as leis éticas desobedecidas brilham com especial intensidade ? porque também elas carregam carga antisocial e criam, com conseqüências variáveis, situações agressivas e desagradáveis. O papel de bala lançado ao solo ou a goma de mascar mal descartada, o avanço dos cruzamentos de trânsito sinalizados, o estacionamento em locais proibidos ou irregulares, o excesso sempre perigoso de velocidade, os telefonemas anônimos, o acesso irregular e não consentido aos computadores de outros e outras centenas de situações indicativas de atos antisociais são, todas elas, manifestações corruptivas injustificáveis e levianas que agridem o equilíbrio social e que, causem ou não transtornos ou conseqüências mais graves, significam contribuições pessoais que desequilibram a ordem social.

Não escapam disso nem mesmo os inocentes pecadilhos do dia a dia, quaisquer que sejam, porquanto carregam carga corruptiva que sempre produz conseqüências sociais ainda que elas possam variar caso a caso, uma vez que as conseqüências de telefonema anônimo reclamando serviço público de urgência que não é necessário ou de sacos de lixo que entopem bueiros ou de velhos pneus criadores de mosquitos ou da goma de mascar que se prende às solas dos calçados são diferentes e geram diferentes resultados e conseqüências. Como podem não gerar resultado algum.

Nesse universo transgressor é preciso ser cuidadoso e até obcecado no dia a dia porque num pequeno vacilo, num inocente pecadilho, aquele que venha a ser apanhado pode receber o ferrete desonroso da corrupção, produzindo marca definitiva quase sempre difícil de esconder ou disfarçar. É prudente, portanto, respeitar e preservar o equilíbrio social, resistir às grandes e pequenas tentações da vida e afastar-se, até, dos pecadilhos do dia a dia, por mais inocentes que sejam, porque isso é boa lição de vida que ajuda a ordem social equilibrada e blinda os cidadãos de eventual desonra.

O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado

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