Bairros

Quando o pessoal e profissional ocupam o mesmo espaço

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

O comerciante José Carlos Nogueira manteve uma loja no Centro da cidade por mais de 30 anos. Entretanto, em 2005, ele resolveu deixar o ponto e a loucura do centro comercial e montou o estabelecimento na sala de casa, no Jardim Terra Branca. E apesar da apreensão inicial, o resultado foi prosperidade nos negócios, além de mais tranquilidade no dia a dia.

Especializada em moda jovem grande, a loja da família de José Carlos começou na sala de visitas e, um ano depois, foi ampliada também para o jardim da frente: “Tomei a decisão de dividir o espaço da nossa residência com o trabalho há poucos anos, mas teria feito isso antes se soubesse o quanto é bom trabalhar em casa”, diz. 

O comerciante admite que no começo chegou a acreditar que não daria certo, mas rapidamente percebeu que as pessoas gostam do comércio de bairro principalmente por causa da facilidade de estacionamento e do ambiente familiar proporcionado por esse tipo de estabelecimento. “Acontece até de clientes almoçarem com a gente”.

Além dessa relação cliente/comerciante, José Carlos aponta que conseguiu eliminar muitas despesas fixas, como aluguel, transporte, água, luz, telefone... Ele, que trabalha ao lado da esposa e do casal de filhos Bruno e Karla, diz que muitas vezes se sente como um aposentado em atividade.


Happy hour em casa

Com criatividade, aquecedores de água viraram churrasqueiras a gás. E com um tempero caseiro especial, peças de costela, cupim e joelho de porco se transformam em deliciosos pratos que atraem pessoas de Bauru e região todas as sextas-feiras para o Bar do Bispo, ou melhor, para o quintal da casa de Eraldino Bispo de Queiroz e de Izabel da Câmara de Queiroz, no Novo Jardim Pagani.

O casal vive no atual endereço há 30 anos e há 13 resolveu construir um bar e transferir a casa para os fundos do quintal. Entre a casa e o estabelecimento ainda há um espaço que vira restaurante nas tardes e noites das sextas-feiras: “Os varal dá lugar às mesas”, brinca Izabel.

Além de não pagar aluguel, como fazia com o antigo endereço do bar, Bispo diz que é muito bom não precisar sair de casa para trabalhar, já que o bar ele mantém aberto diariamente. O custo operacional também é menor porque a família toda coloca a mão na massa em dias de grande movimento.

Para o casal, além dos bons pratos servidos, o sucesso do bar que já chegou a vender 120 quilos de costela em uma única noite está mesmo no clima familiar oferecido pelo lugar: “Temos bons preços e as pessoas nos dizem gostar do lugar também pela sensação de estar em casa”, afirma Izabel.

 

Privacidade

E como tudo na vida tem o seu lado bom e ruim, o inconveniente de morar no mesmo endereço do bar, segundo o proprietário, é que os clientes podem bater na porta a qualquer hora do dia ou da noite, mesmo com o estabelecimento fechado. “Isso prejudica a privacidade, porém, os pontos positivos de trabalhar dessa forma são bem maiores”.

 

Tem música na vizinhança

Entre violões, cavaquinhos, guitarras e teclados vive a família da empresária e professora de música Renata Aparecida Dipe da Silva Viana. Com os pais, Marlene e José Maciel, e com a sobrinha Maria Izabel Peixoto Dipe da Silva, ela toca a Escola Musical Renata, no Jardim Marambá, há 17 anos, quando a família deixou Presidente Prudente, onde também tinha escola de música.

No mesmo terreno onde está a escola vivem os pais de Renata. Já a professora mora há poucas quadras do lugar.

Meu pai cuida da parte de informática, minha mãe da recepção e da administração, enquanto eu, minha sobrinha e mais um professor damos aulas de instrumentos e técnica vocal, enumera.

Na visão da professora, um negócio aberto em casa passa mais credibilidade aos clientes, principalmente para os pais quando estes buscam uma escola para os filhos.

“Ter uma escola de música no bairro também é um bom negócio para os vizinhos que podem ir a pé para o curso. Temos, por exemplo, muitos alunos dos condomínios vizinhos como o Camélias, Monte Castelo ou Flamboyant’s que vêm caminhando juntos para a escola”, conta.

 

 

Enquanto trabalho, minha mãe me traz um café

 

Encontrar a realização profissional sem precisar se afastar dos pais é o sonho de muitos jovens. E isso é um privilégio para o dentista Marcos Vieira da Silva que tem o seu consultório montado na frente da casa dos pais, no Higienópolis, há quatro anos.

 

“Enquanto eu trabalho, minha mãe me traz um café. Também tenho a felicidade de almoçar a comida dela todos os dias, de descansar no sofá de casa e de abrir a geladeira nos intervalos das consultas”, comenta. 

 

A escolha e a compra da casa com espaço para o consultório foram pensadas pelos próprios pais de Marcos, enquanto o filho fazia especialização em periodontia em Tocantins. “Quando voltei a Bauru, eu morei com minha esposa e minhas duas filhas na casa de meus pais. Hoje não moro mais lá, mas é como se ainda morasse”.

 

Para o dentista, trabalhar em um bairro residencial foi a melhor opção por causa da tranquilidade do lugar. Outros pontos positivos em conciliar trabalho e casa estão na economia com despesas como aluguel, locomoção e refeições em restaurantes: “Também posso acompanhar de perto a rotina de minhas filhas”.

 

 

Clientela vizinha      

 

Hoje, cerca de 80% dos pacientes de Marcos são do próprio Higienópolis e dos familiares e conhecidos dessas pessoas. “No início, esse número era menor, mas o ponto foi ficando conhecido pelas pessoas que caminham por aqui e que foram indicando para vizinhos, parentes, amigos...”, finaliza. 

 

 

‘É preciso separar a vida pessoal da profissional’

 

A cabelereira Nilce Batista Garcia, mais conhecida como Nilce Coiffeur, começou varrendo cabelo em salões ainda menina e hoje tem um dos centros de beleza e estética mais conhecidos na cidade. Há 10 anos, ela divide o espaço do sobrado onde vive, no Jardim Estoril, com o trabalho e garante que é preciso separar o pessoal do profissional para que a vida caminhe nos trilhos certos. 

 

“Já tive salão em outras casas, mas de aluguel. Hoje tenho o meu próprio espaço e do jeito que eu sempre quis. Um sonho realizado. E posso dizer que vejo mais vantagens do que desvantagens em viver e trabalhar no mesmo ambiente. Não me estressar no trânsito diariamente é a principal delas”, destaca. 

 

Por outro lado, dividir o espaço físico entre a residência e o trabalho pode ter também seus incômodos. De acordo com a cabelereira, há quem acredite que o profissional está disponível 24 horas para o trabalho por “viver nele”. “O contrário também pode acontecer. Meu marido, por exemplo, outro dia entrou no salão dizendo que eu tinha visitas em casa”.

 

E para driblar tais obstáculos, Nilce diz separar bem o trabalho e a casa, e aponta que esta atitude é fundamental para que estes dois setores tenham êxito e que os negócios gerem bons frutos. “Quando estou no salão, estou no salão. Mesmo que esteja em horário sem clientes, fico no trabalho”. 

 

 

 

Aperfeiçoamento 

 

Entre os desafios vividos, Nilce ficou viúva do primeiro marido aos 32 anos e assumiu a responsabilidade de criar os dois filhos sozinha. “Levávamos uma vida bem simples mesmo. Foi quando eu disse para mim mesma que precisava trabalhar muito”.

 

Com o objetivo de ter o seu desejado espaço, Nilce conta que começou a fazer cursos em São Paulo para se aperfeiçoar e crescer profissionalmente. Foi onde descobriu cursos fora do Brasil. “Na Europa, eu vi a chapinha. As pessoas me acharam louca quando comecei a passar aquilo nos cabelos. Depois fizeram fila pela novidade”, lembra com bom humor. 

 

 

Comentários

Comentários