Adversários internos no ninho tucano, Caio Coube e o atual presidente do PSDB de Bauru, Marcelo Borges, trocaram “bicadas” na primeira reunião do partido depois das eleições, realizada na manhã de ontem. O objetivo do encontro era avaliar o pleito e traçar novas perspectivas, mas ficou claro que o foco está na disputa pela presidência da sigla, em março do ano que vem. Em jogo, certamente, entrarão eventuais erros estratégicos que culminaram na redução do espaço de poder ocupado pelos sociais-democratas na cidade.
No dia 7 de outubro, o PSDB elegeu apenas dois vereadores, Fernando Mantovani e Arildo Lima Júnior, ante as três cadeiras que possui até o final deste ano. Além disso, foi a primeira vez, nos últimos anos, que a sigla não encabeçou uma chapa na disputa majoritária, o que incomodou, principalmente, o deputado estadual Pedro Tobias. “Isso aconteceu logo quando eu estava à frente do diretório estadual”, lamentou.
Diante disso, em meio aos discursos e ponderações de militantes e lideranças tucanas, Coube, candidato a prefeito em 2004 e 2008, pediu, publicamente, que Borges, calado até então, fizesse um balanço da participação do PSDB na eleição.
Além disso, Caio questionou o porquê de Marcelo não ter aparecido na propaganda de televisão da campanha de Chiara Ranieri (DEM) ou dos candidatos a vereador do PSDB. O presidente tucano respondeu que, apesar da sugestão de Gilson Rodrigues, vice na chapa da demista, não foi convidado para isso. “Eu me coloquei à disposição, mas não iria implorar”, respondeu ao microfone.
Em entrevista ao JC, Coube lembrou, porém, que o principal articulador da candidatura de Chiara não participou sequer do maior ato de campanha, em caminhada pelo Calçadão da Batista. “Eu estava lá, mas ele não”, criticou.
Justificativas
Provocado por Caio, Borges fez sua avaliação com tom de justificativa. O tucano alegou que, desde o início, defendia apenas um candidato de oposição para enfrentar Rodrigo Agostinho (PMDB), por já ter consciência do resultado. “Seria um massacre menor”.
Ele disse que a escolha por apoiar o DEM se deu, inicialmente, pela proximidade entre as duas siglas nas esferas estadual e federal. Admitiu, porém, que buscava por um tempo maior de televisão. Até então, o PV teria um enxuto espaço, mas o recém-criado PSD, coligado com Clodoaldo Gazzetta, conquistou o direito de abocanhar parte considerável do horário eleitoral gratuito.
Borges avaliou ainda que faltou agressividade no discurso. Segundo ele, a impressão era de que os três candidatos defendiam a mesma proposta. “Na questão do esgoto, por exemplo, tenho certeza de que pelo menos 25% da população prefere a Sabesp. Precisávamos de caminhos diferentes”.
Ele ponderou também que, sem a coligação proporcional com o DEM, que ficou sem cadeiras na Câmara Municipal, o PSDB teria eleito apenas um vereador.
Questão de grana
Marcelo Borges alegou que, internamente, não houve ninguém disposto a disputar a prefeitura. No período pré-eleitoral, o coronel Elizeu Eclair demonstrou interesse, mas recuou alegando dificuldades financeiras. “Não tinha dinheiro. A Chiara, por exemplo, tem agora uma dívida de R$ 200 mil”, afirmou.
Caio Coube joga a ‘bomba’ no colo do presidente tucano. De acordo com o empresário, a viabilidade de uma campanha eleitoral não depende apenas do candidato, mas também das movimentações do dirigente partidário.
Ele afirmou que, independentemente das condições, o PSDB tinha obrigação de lançar um candidato para se opor ao que chamou de projeto ‘lulopetismo’. “O quadro político de Brasília se reflete aqui, com o agravante de o PPS ter mudado de lado em Bauru”.
Coube lembrou que em 2008, com uma estrutura enxuta, o PV conseguiu deixar seu recado e ainda conquistou 30 mil votos.
Marcelo Borges não deixou barato. Enquanto fazia a avaliação do processo eleitoral de 2012, disse que, diante da popularidade de Rodrigo Agostinho, era muito mais fácil concorrer à prefeitura em 2008, quando Tuga Angerami sofria alta rejeição.
Na ocasião, Caio Coube foi o candidato tucano e, após largar a corrida com ampla vantagem, perdeu no segundo turno.
Tobias: ‘Ação ajuda Estado na rescisão’
O deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) declarou ontem que uma ação movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) ajudaria o Estado a solucionar o impasse referente às verbas rescisórias dos 1.000 trabalhadores do Hospital de Base (HB). Este é apontado como o principal problema para garantir a transição da gestão da unidade para a Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), após o fim do contrato da Associação Hospitalar de Bauru (AHB).
“O Estado não pode pagar, por vontade própria, a dívida de uma entidade privada. No entanto, se for condenado a fazer isso pela Justiça, com certeza, pagará. O problema não é o dinheiro. A Procuradoria já avisou que assumir esse passivo configuraria improbidade administrativa”, pontuou.
Na última quarta-feira, o procurador do Trabalho Luiz Fernando Ruiz Maturana instaurou inquérito civil para investigar o Estado e a AHB após a ausência de acordo em torno das verbas rescisórias. Na ocasião, ele afirmou que uma futura ação seria movida após o dia 7 de janeiro.
Anteontem, após reunião no Ministério Público, a AHB recuou da decisão de dar o aviso prévio aos trabalhadores do Base. Os sindicatos representantes das categorias orientaram os funcionários a não o cumprirem. Isso culminaria no fechamento do hospital na semana que vem. Após o encontro, o HB ganhou uma sobrevida.
Grupo de Caio quer comandar PSDB
“Renovação é sempre desejável. Ainda mais em um quadro como este, em que o partido saiu menor do que entrou”. A frase de Caio Coube revela o desejo de que tucanos ligados a seu grupo assumam o comando do PSDB de Bauru. Ele garante que está fora do jogo, mas cita o vereador reeleito Fernando Mantovani (PSDB) e o empresário Marcelo Graziani como nomes potenciais. O grupo também formado por nomes como Ricardo Carrijo e Pilli Cardoso.
O primeiro por ter sido o único parlamentar de oposição reeleito em 2012. Já o segundo, conforme Caio, é militante há 20 anos, apaixonado por política e pelo partido. “É uma figura nova e que não tem pretensões eleitorais. Tem o perfil ideal”, defende.
Graziani discursou na reunião. Segundo ele, isso aconteceu pela primeira vez em 20 anos, o que pode soar como indício de que parte dele o desejo de comandar o partido. O tucano afirmou que o partido precisa fazer uma leitura das urnas. “Não quero deixar arranhões. Mas não podemos mais nos omitir. E foi isso o que fiz muitas vezes quando sentia que a direção do partido tomava caminhos diversos do que eu acreditava ser o melhor”, revelou.
Em seu discurso, ainda afirmou que não se conforma ao perceber que, eleição após eleição, o PSDB perde espaço na cidade “para essa coisa que está aí”.
O atual presidente, Marcelo Borges, acredita que o próximo presidente precisa ser ‘bom de voto’. Ele descartou concorrer à reeleição em março do ano que vem, quando o alto clero tucano adotou o discurso de ‘renovação’. Ontem, porém, disse que essas questões serão discutidas a partir de 2013.
No entanto, o vereador adianta que não acredita em disputa de duas chapas. “Não tem tanta gente para isso. Deve ser única, mas com algumas brigas para definir os nomes de alguns cargos”, citou.
Briga boa
O deputado e presidente estadual do PSDB, Pedro Tobias, defendeu renovação nos quadros ao avaliar as perdas e as vitórias do diretório paulista. Para o comando do partido em Bauru, ele diz que prefere que haja mais de uma chapa. “Disputa é bom. Por mim, teriam três”.
O tucano afirmou ainda que o partido precisa se aproximar mais de suas bases, da população e tornar o discurso menos intelectual. “Não adianta ficar falando só de Fatec e Rodoanel”, declarou, em referência à campanha derrotada de José Serra na capital paulista.
Segundo Tobias, falta para os tucanos maior capacidade de comunicação para levar à população a atuação da sigla. “Prefeito de Bauru não fez uma grande obra na cidade. Foi tudo o Estado”.