Em uma cidade do interior paulista, o prefeito assumiu com fama de maluco e considerou: cemitérios ocupam muitos espaços que poderiam ser ocupados por parques, praças ou prédios púbicos para melhor servir. Nos cemitérios há possibilidade de contaminação dos lençóis de água e disseminação de doenças. Cemitérios são palcos de roubos aos túmulos para levarem metais de próteses, joias e até os próprios ossos para estudos e pesquisas clandestinas.
Os cemitérios podem representar problemas quando as famílias abandonam seus jazigos, os vasos e reentrâncias acumulam água como criadores do mosquito da dengue, etc. O prefeito maluco questiona: de quem é a responsabilidade da família ou da prefeitura? Os jazigos são propriedades privadas e seus donos devem ter responsabilidades civis. Como um bom maluco quer agilidade na resolução dos problemas.
O prefeito maluco foi visitar a igreja e perguntou: quais as inconveniências de se acabar radicalmente com os cemitérios. Nossas almas visitam os cemitérios? Quantas vezes ao ano? E quando um mesmo espírito reencarna duas a três vezes, em qual túmulo frequenta mais assiduamente?
No centro espírita perguntou: Qual o mal poderia acontecer com a alma se o corpo fosse cremado! Seria a desencarnação um processo demorado? Poderia a cremação atrapalhar este processo? Qual o tempo ideal de espera: 24 horas seria o suficiente? Sem o corpo, poderia ficar o espírito como uma alma errante pelos umbrais multiversais?
Sem respostas contrárias às suas intenções, pensou: se todos os cemitérios acabarem, os translados de corpos serão bem mais fáceis, pois transportaremos apenas cinzas em pequenas urnas e poderia até ser feito via correio, em embalagens especiais. Cremar corpos implica em eliminar zonas de medo nas cidades, um processo mais limpo para a saúde pública e sem grandes áreas nobres reservadas para jazigos. Assim se fez.
Urgente, a última do prefeito maluco: determinou que estradas de ferro e trens não circulem mais pela cidade! A empresa até concordou, mas o maluco deu apenas mais 6 meses para os trilhos serem removidos e transferidos para a periferia da cidade, tal qual fizeram com o aeroporto!
Questionaram este prazo, mas o prefeito maluco respondeu: não é iniciativa privada? As coisas não são mais ágeis e rápidas na iniciativa privada! Por que prazos; prazos apenas para coisas públicas! Se virem! Engenheiros da empresa já tinham um plano de transferir os trilhos da ferrovia para a área vizinha do aeroporto e assim conectaram-se com as empresas aéreas e rodovias vizinhas!
Pode ser maluco, mas este prefeito sabe onde mexer, não fica remediando as coisas, adiando processos e decisões. Um ano depois, na cidade não tinha nem cemitérios e nem ferrovias, apenas grandes avenidas e lindos parques. Foi incrível, mas em pouco tempo o município tinha também um porto multimodal para receber e enviar mercadorias e passageiros por avião, trens e caminhões. Que beleza! A maluquice tem suas vantagens!
E não é que o prefeito está pensando em transferir o terminal rodoviário para os mesmo lugar do aeroporto, ferroviária e terminal de cargas! Esse cara é maluco. Claro que vai dar certo!
O autor, Alberto Consolaro, é articulista e colunista de Ciências do JC