A nação futebolística está atordoada. De repente, embora cuidasse de fato esperado porque não há como resistir por mais de dois anos às trovoadas e tempestades futebolísticas, a poderosa Confederação Brasileira de Futebol (CBF) dissolveu a comissão técnica da seleção brasileira, inclusive seu técnico. Em clima de perplexidade, anunciou-se a investidura de Parreira como coordenador e de Felipão Scolari como técnico. A CBF é sociedade privada que tem por finalidade a organização e produção de eventos futebolísticos sem interferência governamental ou popular só restando à nação esportiva aceitar essa surpreendente realidade e aguardar o que daqui por diante irá ocorrer. A preparação dos últimos dois anos era, mesmo, brincadeirinha e chegou ao fim exibindo quase inútil perda de tempo, tudo levado ao lixo e a nova comissão técnica ou começa do zero ou revolve o lixo para aproveitar alguma coisa e resgatar alguns atletas que são unanimidades nacionais. Poucos, por sinal.
Ensinou Nelson Rodrigues, impecável dramaturgo e apaixonado cronista esportivo, que a seleção brasileira é a pátria em chuteiras. Mas pátria meio complicada e ditatorial na qual os patriotas não participam e nem influem, apenas dão palpites nas mesas de botecos ou similares e torcem, vibram, questionam e xingam. Cabe ao presidente da CBF e exclusivamente a ele, como está sendo visto, dar a palavra final e definitiva sobre tudo que deva ocorrer. Até para justificar fiascos.
A dissolução da comissão técnica da seleção brasileira pouco tem de novidade. Nos preparativos para a Copa do México (1970) ? vivíamos então o ciclo militar - o presidente Emílio Médici teria manobrado para desbancar do posto de técnico o jornalista esportivo João Saldanha em situação de pecado mortal porque comunista de carteirinha, que se recusava a convocar Dario Peito de Aço e que sustentava que Pelé por deficiência visual não deveria ser convocado. Entregou-se o comando da comissão técnica para Zagallo e ao fim de campanha tão bela quanto inesquecível conquistamos definitivamente a Taça Jules Rimet. A dissolução e troca, então, deu certo quando poderia dar errado e o pessoal da CBF acabou festejado pela clarividência. Se desse errado seriam massacrados pelo desatino .
A troca de agora ? cujo objeto oculto não é exatamente a copa mas arrumação das forças políticas para a renovação da diretoria da CBF também em 2014 - demorará até julho de 2014 para estabelecer se os atuais dirigentes, que neste momento depositam na mesa de apostas seus respeitáveis pescoços, são clarividentes ou desatinados. A copa feita aqui, lembremos de 1950, acabou num monumental fiasco que amesquinhou nossa auto-estima futebolística e nos custou oito anos de terapia até que chegássemos à conquista de 1958. Mas fiasco é sempre fiasco e o mero risco de repetição nos reforça a intranqüilidade, principalmente porque nestas nossas plagas o segundo posto e a rabeira são iguais e geram iguais e desastrosas conseqüências.
Neste estado de coisas e de rumos somos meros e atordoados espectadores, sujeitos passivos desprovidos de mínima capacidade de participação e influência nos nossos destinos futebolísticos e, até, andamos correndo o risco vexaminoso de termos um estrangeiro chefiando nossa comissão técnica. Felizmente a CBF - que não costuma dar satisfação aos torcedores e patriotas ? deve ter se sentido minimamente obrigada a ser coerente com a ordem constitucional (art. 12 § 3º, inciso I) e a exemplo do que se exige do Presidente da República assentou que os postos da comissão técnica são privativos de brasileiro nato. Mal menor que, por ora, aplaca nossa intranqüilidade e confere certo nível de tolerância enquanto aguardamos o momento em que iremos verificar se a dissolução da comissão técnica foi oportuna manifestação de clarividência ou tresloucado gesto de desatino. Como o futuro a Deus pertence que Ele vele por todos nós e pelos pescoços que estão em risco e nos permita vibrar e torcer com alegria e esperança nos embates - que queremos vitoriosos - de nossa pátria em chuteiras.
O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado