Como qualquer outra via pública que abrigue residências, as ruas sem saída apresentam suas particularidades e suas histórias curiosas.
“Lembro-me quando a rua era de terra e a molecada jogava bola sem nenhum tipo de preocupação. Ela mais parecia um campinho de futebol”. A lembrança é da aposentada Inês Lopes Neves sobre a quadra 10 da rua Alagoas, no Jardim Marambá, onde mora desde 1985.
Sem continuidade, o lugar se mostrou uma ótima oportunidade de negócio por ser isento de trânsito e, por este motivo, ser um lugar calmo. E a aposentada que já morava no bairro não perdeu a chance de se fixar no endereço. “Meu irmão, Carlos Augusto Neves, também jogava bola com as crianças e andava muito de bicicleta por aqui em outros tempos. Eu ficava tranquila porque dificilmente um carro entrava aqui. Minha única preocupação era quando ele entrava em outras ruas ou avenidas, por causa do movimento de veículos”.
E a tranquilidade é compartilhada também pelos vizinhos. Segundo a moradora, os idosos aproveitam o trânsito quase inexistente e as calçadas vazias para as caminhadas diárias.
Outro aspecto positivo da localidade que chamou a atenção de dona Inês é a possibilidade de ficar de olho em quem por ali passar. “Por terminar logo ali, a rua acaba sendo mais segura, ao menos na minha visão. Isso porque é mais fácil identificar pessoas com atitudes suspeitas”.
Receio
Por outro lado, com a construção de um grande prédio residencial no final da rua, o receio da entrevistada é que a tranquilidade tão querida por ela seja quebrada pelo vai e vem de veículos dos futuros moradores do residencial: “Acredito que não teremos a mesma calmaria do passado e de hoje”, diz.
‘Rua do Chaves’
Queimada, bicicleta, futebol, pipas, esconde-esconde, pega-pega... Quem teve a oportunidade de aproveitar a infância na rua sabe bem sobre o prazer e a liberdade que as brincadeiras de rua oferecem às crianças.
Foi pensando nisso que, há pouco mais de dois anos, a dona de casa Bárbara Pilar escolheu a dedo a residência da família na quadra 6 da rua Rodolfina Dias Domingues, na Vila Ipiranga.
“Pensei no bem-estar de meus dois filhos, Arthur e Clara Cervantes Jayme, de 5 e 1 anos, respectivamente, quando comprei a casa. Eu brinquei muito na rua, mas naquela época as ruas não eram tão movimentadas quanto são hoje. Por isso, no meu caso, uma via sem saída é uma boa opção de moradia, já que meus filhos gostam de andar de bicicleta e de brincar na rua. Sinto-me mais tranquila aqui. Mas é claro que estou sempre por perto”, afirma Bárbara.
A dona de casa conta que às vezes a rua até parece uma festa por causa da grande quantidade de crianças que abriga. Crianças das casas vizinhas e até de outras ruas aproveitam para correr e brincar à vontade. “Nossa única preocupação é ficar de olho nos carros que entram e saem das garagens. Mas os vizinhos já estão acostumados com a garotada e têm cuidado”.
Entre amigos
Para alguns, as ruas sem saída até parecem minivilas. E esse é o caso da rua de Bárbara que, de acordo com ela, abriga mais do que casas vizinhas, abriga também muitos amigos: “Aqui todo mundo é colega, do tipo que conversa na calçada e sai para brincar com as crianças. Meu irmão até diz que aqui é a rua do Chaves”, conta com bom humor.
Quando a união faz a força
Ela já viveu em endereços mais movimentados, mas foi em uma rua sem saída que a oficial administrativo Rosilda de Camargo acredita ter encontrado sossego e segurança para criar o filho há 25 anos.
Assim como outras ruas localizadas no Jardim Rosa Branca, a Madre Clara Milani, onde vive Rosilda, é sem saída. Entretanto, diferente de muitas vias, principalmente algumas do Centro da cidade, a rua em questão é bastante ampla e arejada, o que favorece ainda mais as brincadeiras infantis e o bate-papo dos vizinhos nos finais de tarde.
“Hoje vejo as crianças brincando e lembro-me de quando meu filho andava de bicicleta, skate, futebol... Eu não tinha nenhum tipo de preocupação, a não ser com as brigas dos meninos”, conta.
União
Hoje, o fim da rua onde Rosilda vive é fechado com um muro. Mas nem sempre foi assim. A moradora explica que a via dava para um barranco e para a linha do trem, o que confundia os motoristas que ali entravam e só depois percebiam que a continuidade era um pequeno precipício.
Perigoso também era para as crianças que corriam soltas por ali em um período onde os trilhos eram mais movimentados pelas locomotivas. “Bom, para resolver o problema, os moradores decidiram se unir para construir o muro”, ressalta a entrevistada que ainda destaca que um vizinho acaba cuidando da casa do outro quando o assunto é a segurança das residências. Ficamos todos de olho na movimentação da rua toda.
Fechada para festas
Se por um lado há quem viva em uma rua sem saída, por outro há quem more na esquina de duas vias com essa característica. Esse é o caso do autônomo Joel Rodrigues da Silva, que só vê vantagens na localização de sua casa que fica entre as ruas Prefeito Alves de Lima e Fausto Tibiriçá do Amaral, na Vila Independência.
“Vivo nessa região desde criança, e tive uma infância bastante saudável. Pude brincar nas ruas com a tranquilidade oferecida por um trânsito calmo. Tive a oportunidade de jogar bola todos os dias com os meninos que saíam de outras ruas para brincar a minha”, recorda-se.
Com ares das pequenas cidades do interior, as ruas sem saída acabam se tornando ponto de encontro entre os moradores, familiares e amigos. Este é o caso d rua onde Joel mora. O lugar já foi notícia na cidade durante a última Copa do Mundo por ter abrigado a torcida canarinho que vibrou e fez a festa com os gols da Seleção.
“E é assim praticamente em todos os finais de semana. Basta ter um aniversário ou outro motivo qualquer para fecharmos a rua e a vizinhança fazer aquele bom churrasco”.
‘Há quem use o espaço como estacionamento’
Um transtorno para os moradores das ruas sem saída do Centro da cidade são os carros estacionados muitas vezes na porta de suas casas por trabalhadores do comércio e até mesmo pelos consumidores.
“Isso acontece porque não há vagas suficientes no Centro. Mas ninguém gosta de ter a frente de sua casa transformada em um estacionamento improvisado”, relata a aposentada Cleuza de Oliveira, que mora na travessa Baden Powell.
Ela e o marido, Geraldo de Oliveira, viveram no endereço por 17 anos, mudaram-se temporariamente para reformar a casa e voltaram há pouco mais de dois anos. “Por estarmos na área central, aqui temos de tudo: casas de família, repúblicas e até escritórios”, enumera.
Segurança preocupa
E é exatamente por estar próxima do comércio central que o casal acredita que a rua tenha sido muito visada por assaltantes e outros delinquentes. E para amenizar o problema, os vizinhos se uniram para clarear o local com luzes especiais.
Festas juninas
“Hoje a rua mudou de perfil, mas, há alguns anos, apenas famílias moravam aqui, o que favorecia a união e a realização de grandes festas entre vizinhos. Já participei de muitas festas juninas com direito a rua enfeitada com bandeirinhas, além de danças e comidas típicas”, recorda Cleuza.
De paralelepípedos
Estreita, ela parece esquecida no Centro de Bauru. E os paralelepípedos são mostra de que o tempo parece ter parado na travessa Liberdade, uma pequena via residencial sem saída, próxima da rua Quinze de Novembro, no Centro de Bauru. E, assim como ela, há outras que foram construídas há décadas e guardam histórias de moradores que viram a área central da cidade crescer e se transformar.
“Acho que a grande particularidade do lugar onde vivo é que eu estou no Centro de Bauru e minha rua não tem trânsito algum. Uma coisa dessa parece até inimaginável”, comenta o músico e agente de viagens Marcos Ulisses Quaggio Mendes.
A história de Marcos com a travessa Liberdade é algo que vem de família. A casa em que ele vive é da década de 1950. Foi do avô, passou para a mãe do entrevistado e hoje pertence a ele. “E quando meu avô comprou o terreno, a travessa já existia com seus paralelepípedos. E ainda hoje os vizinhos se unem para tirar a grama que cresce entre eles”.
Estacionamento
Assim com o casal Cleuza e Geraldo de Oliveira, Marcos também aponta o uso da via como estacionamento. “Como aqui não é zona azul, as pessoas aproveitam e param os carros para fazer compras ou usufruir de outros serviços. Mas a travessa é muito estreita e fica abarrotada de veículos”.
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