Entre métricas e rimas
Prova de que nunca é tarde para encontrar novas paixões, Antônio Valentim Rufatto descobriu a sua vocação para a poesia depois da aposentadoria, aos 60 anos de idade. Mas seus versos não ficaram apenas no papel, depois de ingressar na União Brasileira de Trovadores (UBT), ele conquistou cerca de 150 prêmios em 12 estados brasileiros e em Portugal.
“Eu tomei gosto pela coisa. Cheguei a conseguir 19 premiações em um único ano. Nas minhas andanças pelo País afora para receber as premiações, eu conheci os maiores trovadores do Brasil e, influenciado por alguns deles, eu enveredei também pelo caminho do soneto. Hoje me considero mais sonetista do que trovador, mas também faço sextilha, trovadilho...”, relata.
Filho de imigrantes italianos vindos para as lavouras da região de Jaú, Rufatto começou a trabalhar na roça aos 13 anos, mas sempre teve vontade de deixar a enxada. E foi estudando que ele encontrou caminhos mais suaves.
Ainda adolescente, ele comprou uma máquina de escrever e deu início a um curso de contabilidade por correspondência. Sem energia elétrica no sítio onde vivia, estudava à luz de lamparina depois do trabalho estafante da roça.
Aos 23 anos, para continuar os estudos e encontrar trabalho, ele veio para Bauru onde passou em um disputado concurso do Banco do Brasil. Estas e outras histórias sobre o entrevistado de hoje, que também é colaborador do JC por meio da coluna “Ao Pé da Letra” e membro da Academia Bauruense de Letras (ABL), você confere a seguir.
Jornal da Cidade - Quando o senhor escreveu o seu primeiro verso?
Antônio Valentim Rufatto - Minha aposentadoria veio em 1984, aos 54 anos. Até os 60 anos de idade, meu lazer eram as viagens, a leitura e o meu esporte predileto: o jogo de bocha. Porém, ao completar as seis décadas de vida, descobri a minha verdadeira vocação: a poesia. Fiz algumas trovas e mostrei para um trovador, o Helvécio Barros. Ele viu e me perguntou há quanto tempo eu fazia trovas. Eu disse que aquelas eram as primeiras e ele me disse que eu era um trovador em potencial e me deu os caminhos para entrar na União Brasileira de Trovadores (UBT).
JC - De onde vem a inspiração para os seus versos?
Rufatto - Ah, isso eu não sei dizer. Acho que é Deus quem manda. Afinal, depois dos 60 anos de idade é que eu descobri a minha vocação para a poesia.
JC - E esse gosto pelas rimas sempre o acompanhou?
Rufatto - Sim. Eu gosto de poesia desde a infância. Minha primeira escola foi uma escolinha de sítio perto de onde eu morava. Em datas festivas, como o 7 de Setembro ou 15 de Novembro, a professora sempre fazia festinhas e as crianças declamavam. E eu era o pequeno que mais declamava aqueles versinhos como “batatinha quando nasce...” (risos). Eu gostava muito de rimas, acho a rima uma das coisas mais belas que existe. Faço algumas palestras por aí onde costumo falar sobre a métrica e a rima. A métrica é como a música.
JC - Sei que você coleciona premiações quando o assunto são as trovas.
Rufatto - Pois é. Assim que me dei conta do prazer da poesia, ingressei na UBT e começaram a surgir as premiações em concursos de trovas, aliás, eu fui premiado já no meu primeiro concurso, em Amparo. E aí tomei gosto pela coisa. Cheguei a conseguir 19 premiações em um único ano. E em 12 anos de UBT conquistei quase 150 troféus e medalhas em 12 estados do Brasil e 14 em Portugal. Mas parei de competir em 2008 por causa das viagens que não posso fazer com frequência.
JC - Qual foi o legado que essas viagens trouxeram para o senhor?
Rufatto - Eu conheci os maiores trovadores do Brasil nas minhas andanças pelo País afora. Influenciado por alguns deles, eu enveredei pelo caminho do soneto, porque ele é muito rítmico, suave e difícil de fazer. O soneto é apelidado de “gaiola de 14 versos”. Hoje me considero mais sonetista do que trovador. Também faço sextilha, trovadilho... Isso sem falar nas festas feitas para as premiações. Tudo muito bonito e especial, com direito a jantar e sessões da UBT com missa em trovas e passeios turísticos. Já recebi prêmios em Fortaleza, Natal, Belém, Maringá, muitas vezes em São Paulo...
JC - O senhor tem obras publicadas?
Rufatto - Sim. Tenho duas edições artesanais e duas obras publicadas pela Joarte Editora. E estou preparando a quinta publicação. O meu último livro fez bastante sucesso. Eu fiz uma trova de um lado e um soneto do outro sobre o mesmo tema. Gosto de falar sobre tudo, inclusive sobre Bauru. Minha próxima publicação será batizada de “De métricas e rimas”, porque não há um só verso sem rima e métrica, é a chamada poesia clássica.
JC - O senhor também faz parte da Academia Bauruense de Letras (ABL), certo?
Rufatto - Fui indicado por um amigo acadêmico, o professor Joaquim Simões. Aceitei o convite, fui eleito e tomei posse da cadeira de número 25 em 2000, onde permaneço até hoje. Em todas as nossas reuniões eu levo um soneto novo para apresentar.
JC - Ouvi dizer algo sobre o caso do pseudônimo “Lambari”. Fale um pouco sobre o assunto.
Rufatto - Na década de 1990, convidado pelo então diretor do JC, Nilson Costa - conhecedor de minhas trovas satíricas e humorísticas -, fiz uma parceria com o saudoso trovador Helvécio Barros, que já assinava na coluna “Alta Tensão” com o pseudônimo de “Pintado”. Combinamos que eu atuaria como “Lambari” (peixe menor) por ter chegado depois. Ele logo nos deixou e eu continuei com três trovas semanais precedidas de comentário sobre assuntos do cotidiano, o que divertia os leitores. Com o tempo meus conhecidos passaram a me chamar de “Lambari” (risos).
JC - Tem outro hobby além da poesia?
Rufatto - Eu gostava muito de jogar bocha, sabe. Dediquei-me a este jogo de 1954 até 1960. Até que descobri que podia fazer poesia. Também gosto muito de ler jornais. Assino e leio três jornais diariamente.
JC - O senhor nasceu e cresceu na roça, certo?
Rufatto - Eu venho de uma família de lavradores imigrantes italianos radicados na região de Jaú desde 1904, quando meu pai veio para o Brasil. Eu nasci na zona rural de Pederneiras, mas fui registrado em Itapuí. Por isso gosto de dizer que me considero itapuiense de direito, pederneirense de fato e bauruense de coração (risos).
JC - Como foi a sua infância?
Rufatto - Tudo era difícil, mas lembro-me dos passeios a cavalo, banhos de rio, passeios no pé de bode do meu tio...
JC - Teve a oportunidade de estudar quando criança?
Rufatto - Eu frequentei apenas o curso primário que dava direito ao diploma de quarto ano, naquela época, era assim que chamavam os primeiros anos de ensino. Bom, eu comecei a trabalhar na roça aos 13 anos de idade, e como eu gostava muito de estudar e tinha vontade de abandonar o cabo da enxada, aos 16 ou 17 anos eu comecei a fazer um curso de contabilidade por correspondência. Comprei uma máquina de escrever portátil e, sem energia elétrica, estudava à luz de lamparina depois de dias estafantes dedicados ao trabalho na roça.
JC - E quando o senhor chegou a Bauru?
Rufatto - Isso aconteceu quando eu tinha 23 anos e decidi continuar os meus estudos. Vim em busca de um curso chamado madureza ginasial, fazíamos todo o ginásio em um único ano, como o supletivo de hoje. Eu estudava à noite e trabalhava em um pequeno banco particular durante o dia. Em outubro de 1954, antes mesmo de terminar o curso de madureza, eu passei em um concurso do Banco do Brasil e tomei posse no ano seguinte em Valparaíso. Eu considero esta conquista como a minha sorte grande.
JC - Por que o senhor diz isso?
Rufatto - Porque havia muitos candidatos com curso superior, como advogados, por exemplo, e o concurso era muito difícil. Mas acho que passei por medo de voltar para a roça (risos). Eu sempre levei os estudos a sério.
JC - Você sentiu a mudança da rotina do sítio para a cidade?
Rufatto - Foi uma mudança muito grande. Eu era muito mais tímido do que sou hoje, mas as mudanças para melhor são sempre mais fáceis. Quando morei em Valparaíso, por exemplo, nem asfalto havia, as condições de vida eram muito precárias mesmo. Entretanto, para quem foi criado no sítio, uma cidade de 20 mil habitantes é uma cidade grande. Lá fiquei durante 10 anos e meio.
JC - Guarda boas lembranças daquela época?
Rufatto - E como! Lá, eu conheci minha esposa em uma festinha de São João. Começamos a namorar e, em junho de 1957, nos casamos. Também foi nesta cidade que meus dois filhos nasceram. Gostava de lá a ponto de dizer que somente me mudaria se fosse para voltar a Bauru, o que aconteceu mais tarde. Aqui, trabalhei 19 anos no banco. Anos felizes e muito proveitosos. Aprendi muito e angariei muitos amigos cujos vínculos mantenho até hoje. Com o empenho dos colegas Mário e Vera, realizamos de três a quatro excursões turísticas por ano. Gosto da vida que levo.
Perfil
Nome: Antônio Valentim Rufatto
Idade: 81anos
Local de Nascimento: Itapuí/SP
Signo: Aquário
Esposa: Concheta Ferrarese Rufatto
Filhos: Clarice e Carlos Alberto
Hobby: Poesia
Filme preferido: “A Vida é Bela”
Estilo musical predileto: Sertanejo
Time: Corinthians
Para quem dá nota 10: Para Sebastião Paiva
Para quem dá nota 0: Ninguém merece tal nota
E-mail: avrufatto@gmail.com