São Paulo - Um grupo de policiais trabalha contra o relógio. São os homens da inteligência policial. Eles têm 23 dias para prender um bando de assaltantes do Primeiro do Comando da Capital (PCC) de qualquer jeito. Essa é a única forma de impedir que mais dois policiais militares sejam assassinados na Grande São Paulo. A morte desses policiais foi decidida pela cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), que deu a ordem há uma semana.
“É pra matar dois (PMs) do 15.º Batalhão.” A guerra não declarada entre PCC e policiais militares criou essa situação dramática, a dos policiais que acompanham em tempo real as interceptações telefônicas dos diálogos de integrantes do crime organizado. “Começa a cair as conversas deles (dos bandidos) preparando o ataque. Você não tem ideia da aflição que é ouvir eles se preparando para matar um PM. E o tamanho do esforço que a gente faz para impedir”, disse um delegado de um dos setores de inteligência da polícia.
A primeira coisa que esses homens tentam fazer é identificar e avisar o policial marcado para morrer. É esse drama que está em andamento em São Paulo.
Na segunda-feira, uma mensagem vinda de Presidente Venceslau - cidade onde está presa a cúpula da facção - foi interceptada pela inteligência policial. O delegado-geral, Luiz Maurício Blazek, informou ao secretário da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, que o plano era matar dois PMs de um batalhão da Grande São Paulo.
A ação seria uma vingança da facção por causa da morte de dois de seus integrantes em uma das mais violentas perseguições do ano.
Trata-se do assalto a uma agência do Banco do Brasil na zona norte de São Paulo. O crime ocorreu em outubro. O bando com cerca de dez bandidos disparou tiros de fuzil em direção a um carro da PM, acertando 15 deles em uma viatura do 9.º Batalhão. Seguido por outras viaturas do 9.º e do 15.º Batalhões, parte do grupo foi interceptada por PMs - eles atiraram em um ônibus na tentativa de provocar ferimentos em passageiros, criar confusão e garantir a fuga.
Dois deles foram mortos e três fuzis, apreendidos. Eles tinham mais de 400 cartuchos, coletes à prova de bala e uma dúzia de carregadores.
Grella e Blazeck repassaram a informação ao comandante-geral da PM, coronel Benedito Roberto Meira, que teve de tomar uma decisão difícil: avisar a tropa ameaçada pelo PCC. Enquanto isso, continua correndo o prazo de 30 dias - sete já se foram - para que os PMs sejam mortos. E o desafio dos homens da inteligência fica a cada instante mais agudo.
Desespero
Toca o telefone. São 15h16 de 13 de outubro deste ano. Integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) começam a pôr em prática um plano para executar o policial militar Flavio Adriano do Carmo, de 45 anos.
Um investigador da Polícia Civil acompanhou tudo a 25 km dali, por uma escuta telefônica, desesperado para saber contra quem e onde seria cometido o crime. A data, ele já sabia.
“Aí, nós vamos ficar na bala ali, que é hoje”, disse o criminoso identificado como Chaveiro para o comparsa Cacha. Foi dada a ordem de execução de um dos 95 PMs vítimas da onda de violência nos últimos meses no Estado de São Paulo.
Interceptações telefônicas feitas com autorização judicial pela 5.ª Delegacia do Patrimônio (roubo a banco) mostram tudo o que os policiais civis ouviram no dia da morte de Carmo, sem conseguir evitá-la.