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Sempre haverá novas manhãs

Munir Zalaf
| Tempo de leitura: 2 min

Aos 86 anos de idade, canto o valor e a beleza da vida. Entro de cabeça na minha história e lembro as pedras nos caminhos e... Nos meus rins. Removi-as. Com dores. Sem reclamar. Sempre amei a vida. Juventude difícil. Anos 40 e 50, século 20. Românticos e intrincados. Família humilde. Cravos nas crenças. Estudos? Confiei no meu jeito de ser. Sem temer desafios. Vassoura nas mãos. É preciso manter a calçada limpa, o salão e a privada asseada do bar do seu João Soares na amada cidade Piratininga. Larguei a vassoura e saí voando a caçar estrelas. A vontade de "ser alguém" e o amor pela vida me ensinou a voar. Muitas vezes caí e me caíram. A cada tombo levantava mais forte. E voava mais alto, asas mais firmes até a carregar carentes de amor. O lar! Mortes e vidas o dividiram. Lágrimas escondidas pra ninguém chorar comigo ou por mim. Sabem como é que é, né? Não tenho medo da morte. Temer a lógica? Vivi experiências da quase morte. Apenas assusta-me o seu mistério. Suas respostas.

Tentei fazer a minha parte na Terra. Plantei árvores, tenho filhos e netos, e livros publicados.

Não estou sozinho. Muitos amigos queridos ao meu lado. E o meu guia espiritual a me proteger e inspirar. Às vezes o sinto a voar nos meus cursos e nas minhas multidões.

Repararam que até aqui não falei de Deus? Oitenta e seis anos de idade não contam? É preciso falar da água? Do sal? Dos peixes e dos pães? Dos dinossauros ou do beija-flor no jardim? Creio que beija-flor é anjo disfarçado pra alegrar a saudade. Que nem borboletas. Pra enfeitar e colorir olhos tristes. É preciso o talento para discernir o bem do mal? É preciso arguir a alma e o espírito? Duvidar dos sinais? É preciso orar! Agradecer o que acontece. Tudo o que Deus concede.

Desculpem-me escrever o que penso da vida e da morte. Arriscado. Não sou nem desejo ser exemplo pra ninguém. Cada pessoa lidera a sua vida sob suas escolhas. Escrevi para dizer como é bela e quantas oportunidades nos dá! Respeitá-la enquanto estiver com a gente aqui na Terra. Todas as vidas. Sagrá-las! E, talvez, ascender um fósforo no caminho de alguém que está no escuro e não acredita "nessas coisas". Sou um idoso que ainda sonha. A levar nas asas quem não aprendeu a voar apesar de a vida ter ensinado. Espero, depois do depois, continuar os meus vôos e chegar à eternidade.

Até breve. Sim. Até. Porque sempre haverá novas manhãs...

O autor, Munir Zalaf, é membro da ABLetras

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