Aproxima-se o Natal do Senhor: encontro do divino com o humano. Uma grande festa como esta pede uma preparação adequada para acolher Jesus que vem, que veio e que virá novamente. Por essa razão, nesse tempo do Advento com frequência pedimos: Vem Senhor Jesus! O Príncipe da Paz quer renascer em nossas vidas, famílias e sociedade. Com ele podemos também renascer para uma vida nova. Contudo, sem amor, solidariedade concreta e comprometimento com a vida não haverá a paz tão desejada por nós. Quem ama cuida! O amor torna-se cuidado do outro e pelo outro, que no dizer de Dante, "move o sol e as outras estrelas".
Amar o próximo, sobretudo o mais necessitado e vulnerável, não é tarefa fácil. O primeiro e fundamental passo é reconhecer que o próximo é o "outro", o "diferente" de mim. É uma pessoa concreta, situada num determinado contexto sócio-cultural, com ideias, costumes, pensamentos e religiosidade que nem sempre coincidem com as nossas. A parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10,25-37), que marcou profundamente a consciência cristã, coloca em evidência a prioridade do outro e oferece uma mudança chave de perspectiva: do eu para o tu. O teólogo G. Gutierréz elaborou uma reflexão profunda e oportuna acerca deste tema. Diante da pergunta "quem é o meu próximo?" Jesus coloca outra questão: "quem foi o próximo daquele que precisava de ajuda?" Jesus desloca seu interlocutor para o mundo da vítima. "Estamos defronte a um deslocamento que vai do eu ao tu, do meu mundo ao mundo do outro. Este é o movimento que constitui o coração da parábola. Da concepção do próximo como objeto, destinatário da minha ajuda, passa-se a uma relação de reciprocidade, que vê o necessitado como sujeito da ação de proximidade". Gutiérrez alerta que o personagem central do texto não é o samaritano, mas a pessoa ferida, chamada de um homem, sem nome, sem identidade, ou seja, o outro. Mover-se para o outro lado e aproximar-se voluntária e gratuitamente do ferido, sem que ele tenha pedido e com o qual não se tem nenhum tipo de vínculo, significa entrar na estrada e no mundo do outro, em outras palavras, significa fazer-se próximo do outro.
A relação com o outro permite a descoberta de Deus e do homem, de modo novo: "Amar a Deus e, a partir Dele, também o homem, para redescobrir depois, a partir dos homens, Deus em modo novo" (Bento XVI). O amor ao próximo é conseqüência do amor a Deus e vice-versa. "Só quem ama ao próximo pode saber verdadeiramente quem é Deus. E só quem ama a Deus pode conseguir entrar incondicionalmente em relação com o outro homem sem transformá-lo em meio para a própria auto-afirmação. Assim no amor incondicionado ao próximo já está dentro o amor a Deus" (K. Rahner).
Portanto, não há amor verdadeiro e duradouro sem o deslocamento para o universo do outro e consequente comprometimento. Em tempo de "amor líquido" (para Bauman o conceito "líquido" expressa algo que não tem forma ou constância e que se dissolve com facilidade, sem vínculo) urge resgatar o sentido mais profundo desse sentimento sólido e nobre, tantas vezes esvaziado em seu conteúdo genuíno. Natal é o amor encarnado. Jesus é o rosto humano de Deus. "Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos, agora o amor já não é apenas um mandamento, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro" (Bento XVI). Sigamos amando e nos preparando para acolher o Amor que nos recria!
O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é sacerdote e colaborador do JC