Uma mensagem no Facebook... "Sonhar não custa nada. Mas tem sonhos que se realizam". Horas depois, o autor do recado, um borracheiro de Itu, de nome Rafael, e sua namorada foram assassinados num semáforo da Avenida dos Bandeirantes em São Paulo. O sonho do qual Rafael se referia era o presente ganho do amor de sua vida, Sibele, que pela primeira vez desfrutavam juntos. Uma daquelas grandes motos, de mil cilindradas, objeto do desejo de muita gente, borracheiros ou não. O problema é que o sonho de uns é a cobiça de outros.
Talvez Sibele, mesmo sendo dona de imobiliária no litoral paulista, tivesse pensado muito, economizado outro tanto, tenha se privado de alguma necessidade ou renunciado a caprichos próprios para presentear com um mimo de mais R$50 mil, o homem de sua vida. É para isso que servem os sonhos... Não é? "Eu acho que ela tentou protegê-lo. Quando percebeu os disparos, Sibele deve ter abraçado Rafael para defender ele. Ela amava muito ele", descreveu a mãe de Rafael.
No Brasil, meio milhão de assassinatos aconteceram em 10 anos. Dados recentes revelam que na capital do Estado de São Paulo só no mês de outubro o número de homicídios foi de 176. Aumento de 114% comparado ao mesmo período do ano passado, com 82 pessoas assassinadas. Para se ter uma ideia, é o mesmo número de palestinos mortos em novembro deste ano, 175, com mais seis israelenses, num dos capítulos recentes de um insano conflito que dispensa comentários. A questão é que lá, até por fruto de uma cega intolerância com múltiplos vieses, os lados acreditam ter uma razão. Mas e aqui? O país de gente alegre, cordial e crente em Deus mata sem escrúpulos. Seja explicitamente no cruzamento movimentado da metrópole ou na traiçoeira tocaia do sertão. Mata por uma partida de futebol e por uma opção sexual. Queima os mendigos na sujeira das ruas e assassina famílias na pureza dos lares. Em todos os lados há culpados e vitimas, ricos e pobres; não é mais somente uma luta de classes. Onde erramos?
Recomendações prudentes como, não reaja, evite olhar para o rosto do bandido, faça o que ele pede, são importantes, necessárias, vitais! Não seja louco ou louca de fazer diferente a essa altura das coisas. Mas soa como uma triste desesperança quando repetidamente vindas de uma estrutura de Estado que, mesmo bem intencionada, mais parece garantir uma reserva de mercado para a tranquilidade da bandidagem do que proteger os cidadãos de fato. Como sair desta guerra? O dente por dente, no saldo final nos fará ainda mais perdedores e a truculência policial pode levar ao oposto, como já exaustivamente foi provado. Talvez seja melhor substituir pela inteligência. Despartidarizar o debate sobre segurança ajuda, e muito. Um tiro certeiro do bandido ou uma bala perdida da polícia não vão perguntar se você é petista ou tucano.
Promover uma mudança cultural em nossa forma de entender, controlar e prevenir a violência certamente proporcionará bons subsídios para discussões maiores e urgentes, mas que não avançam. Uma reforma significativa no falido sistema prisional brasileiro e uma afinada integração, união ou unificação das nossas polícias, estão entre elas. Por outro lado, os direitos do cidadão devem ser preservados e garantidos ao extremo, num Estado Democrático de Direito como o nosso. Mas é bom lembrar que não estamos mais numa Guerra Fria lidando com jovens rebeldes querendo melhorar o mundo, como em 1968; estamos falando de pessoas que apertam o gatilho com a mesma naturalidade que você vira a página deste jornal. Por fim, é preciso trabalhar com todas as forças a favor de uma acelerada e real inclusão educacional, econômica e social, que mesmo aos trancos e barrancos, vem ocorrendo em nosso País nos últimos tempos. Assim, poderemos punir com mais rigor, sem ferir nosso senso de justiça, aqueles que entraram no crime por opção, e não pela falta dela.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista