Tribuna do Leitor

Carta aos "velhos" professores missivistas


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Aos colegas que tiveram a consideração de escrever sua carta a este colunista na "A tribuna do leitor", gostaria de agradecer a distinção e a pronta resposta às inquietações que procuro induzir. Em sua última frase se auto-referem como "velhos" professores, mas o simples fato de se indignarem, revelam seus comprometimentos com a educação e a escola em que trabalham, logo vocês têm mentalidade jovem, independentemente da idade.

Apesar de deixar claro no texto que estava me referindo ao ambiente universitário e científico, reconheço que acabei por estender o assunto a todos. Sou também indignado quanto ao salário dos professores de até R$2.000,00, uma afronta, tal como são os salários dos policiais. Se a educação é ruim, as prisões serão superlotadas e péssimas.

Meu texto teve como base a experiência de 35 anos como docente preocupado com a educação brasileira ao se envolver na formação de mestres. Ministrei por décadas, disciplinas de prática docente e didática nas quais os futuros professores recebiam treinamento e formação humanística, incluindo-se muitos estagiários e pedagogos da rede pública. Fiz muitas palestras em escolas públicas do ensino fundamental e médio com ampla discussão com professores e alunos. A troca de experiência sempre foi a marca destas atividades.

Além dos 35 anos como professor, com salas entre 50 e 100 alunos, tenho a grata experiência de ter sido sempre aluno de escola pública estadual. Aos 6 anos comecei minha jornada acadêmica em uma escola de periferia de cidade média e gradativamente fui passando por outras escolas publicas estaduais até que aos 16 anos passei no vestibular de uma universidade pública, completando-se um ciclo de 15 anos. Posso dizer, singelamente, que vivo a ambiência da escola pública há 50 anos.

Neste período presenciei muitos fatos e atos que hoje permeiam as páginas de jornais; em épocas passadas a mídia não priorizava esta cobertura, embora os fatos existissem! Esta rica experiência oferecida pela vida foi colocada na forma de livro em sua 5ªedição intitulado O "ser" professor: a arte de ensinar e aprender, no qual procura-se abordar vários aspectos da docência nos princípios emanados pela Unesco em "educar para a vida".

A tecnologia mudou a forma de ensinar e devemos nos adaptar a ela. Sem a tecnologia também se pode educar muito bem, mas nossos objetivos são os alunos, que não aceitariam esta alienação. Por isto temos que inovar e adaptar-se constantemente, mesmo que, ou principalmente, em condições adversas.

Quanto ao uso do celular ser proibido nas escolas pelo governo estadual, também está "proibido" nas penitenciárias paulistas. Parece que o governo considera coerente pagar o mesmo salário aos professores e aos policiais e tratar prisão e escola da mesma forma. A crise simultânea na educação e segurança não é por acaso, pois tudo "coincide".

Mais uma vez, muito obrigado pela consideração! Gostaria muito de visitar a escola dos missivistas e presenteá-la com alguns exemplares do livro.

Alberto Consolaro - professor titular da USP em Bauru e colunista do JC Ciências

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