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A piada mortal

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min


Da Austrália, uma dupla de humoristas de rádio ligou para o hospital londrino onde estava internada Kate, a mulher do príncipe Williams. A mulher da dupla apresentou-se como "a Rainha", imitando o sotaque britânico. A enfermeira Jacintha Saldanha, que recebeu a chamada, sequer se deu conta da pronúncia grosseira, indigna da soberana do Império, ainda que decadente. Passou os dados sobre a gravidez da duquesa, informou que ela estava se reidratando e logo iria voltar para casa. Os australianos aprontaram "aquela" gozação no programa de rádio. Ganharam alguns pontos na audiência e conseguiram repercussões na imprensa inglesa, também louca pelo sensacional, principalmente quando o assunto é a família real.

Anteontem, Jacintha Saldanha foi encontrada morta; por suicídio, julga a polícia. Não suportou ser mundialmente exposta ao ridículo. Agora, milhares de pessoas, pela Internet clamam por justiça. Querem a punição exemplar da dupla, que já se mandou, saiu do ar e apagou as participações nas redes sociais. A "pegadinha" é um gênero popular também no Brasil. Recentemente entrou na onda "A menina fantasma no elevador", veiculada no Programa Sílvio Santos. A menina maquiada como um fantasma, cabelos desgrenhados, boneca sem roupa nos braços assustava os inocentes passageiros do elevador. O vídeo já conta com 650 mil visualizações, um dos mais vistos em novembro no YouTube. A versão com título em inglês atingiu os 100 mil "views", com são chamadas as clicadas para abrir as imagens. Domingo passado foi deixado um caixão no elevador, sem nenhum agente funerário por perto. Assim que o elevador começa a subir ouvem-se barulhos estranhos, de repente a urna se abre e o corpo sai para assustar os já apavorados passageiros. Para compensar o susto, a produção paga cachês de R$ 300,00 por cabeça-quente.

O mundo inteiro ri. As pessoas deveriam se sentir imorais, tanto quanto os produtores do programa. Fico pensando no que será dessa garotinha jogada ao funéreo estrelato, marcada para sempre como a "fantasminha do Sílvio Santos". Jamais será uma Chiquitita, como tal. Elevador é um lugar público e, qualquer interferência negativa num espaço aberto a todos, ou a quase todos, pode gerar pedidos milionários de indenização. O cachê é só o picolé para esfriar a má-fé. Para o apresentador Sílvio Santos, o que deve importar é o "espetáculo" e alguns pontos a mais no Ibope. Para a versão britânica do site Huffington Post, a lição a ser aprendida é que "nunca se deve pegar um elevador no Brasil".

O vexame a que passou a enfermeira Jacintha Saldanha, para ela foi fatal. Depreende-se pelo nome tratar-se de uma filha de imigrantes portugueses. Viver num país que não é o seu já é, por si, uma humilhação a quem teve que fugir das privações e falta de oportunidades. Jacintha não suportou que se tivessem rido da forma como ela exerceu a sua profissão. Foi solicita com Sua Majestade a Rainha Elizabeth II. Deu atenção ao príncipe Phillip, como a qualquer membro da família de uma paciente exultante com a notícia de que será mãe, pela primeira vez.

O mundo se declara surpreso de ainda haver pessoas com tantos pudores. Há tempos que me interesso pelo papel das emoções na comunicação. Tenho lido um bocado e publicado alguma coisa a respeito. O ruborizar-se, por exemplo, só existe entre os humanos, os únicos dotados de uma linguagem elaborada. Pena que estudos sérios, como a da revista "New Scientist" demonstrem que essa característica humana é cada vez mais rara. Encontra apoio num marco da teoria da "evolução". Os sinais de embaraçamento não estão mais tão presente nas relações interpessoais. É uma pena. Desaparecem os sinais que tornam um indivíduo mais confiável - como o ruborizar-se - porque dificultam que ele esconda seus pensamentos e sentimentos. Desaparece o "certificado de vergonha na cara". Existe até quem consiga ficar vermelho por querer, só para passar uma falsa impressão de melindre ou pundonor. Como uma noiva pseudorrecatada na noite de núpcias. Pode até ser uma desculpa para a dupla de humoristas australianos que levou a envergonhada enfermeira à morte: "Como iríamos adivinhar que ainda exista gente assim?"


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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