Se me permitem, vamos analisar essa frase segundo a sintaxe - a qual tanto estudei neste primeiro ano de graduação e que agora posso associá-la para auxiliar na tentativa de compreensão do que Ingrid fez. Sintaxe é uma parte da língua portuguesa que estuda a função que as palavras desempenham na oração (oração é qualquer frase que possui verbo). Sendo assim, vamos nos referir a sujeito, complementos verbais, complemento nominal, adjuntos, etc. Pois bem. Se o verbo da oração é "vender" e se esse verbo é transitivo direto, isso quer dizer que será preciso um complemento para que o verbo tenha seu sentido completo de entendimento. Então, quem vende, vende alguma coisa. E essa "alguma coisa" corresponde ao complemento do verbo chamado objeto direto (direto porque não tem preposição e o porquê de não haver não vai comprometer a conclusão do nosso raciocínio nesse momento) que, na frase "vender a virgindade", é desempenhado por "a virgindade".
Transpondo nossa breve análise sintática para o que a jovem fez: vendeu alguma coisa. Alguma coisa o quê? A virgindade. Mas, esperemos e pensemos mais um pouco: a virgindade de uma mulher agora se transformou em coisa não só na análise sintática? Transformou-se em coisa e que pode ser vendida no mundo fora dos livros de gramática? Então o ser humano não é mais gente, agora é coisa? (referência ao artigo "Vida ganha", publicado na edição do jornal Segunda-feira, de 26/11) Quantas perguntas! E onde estão as respostas para um acontecimento tão negativamente inusitado que mostra tamanho abalo na ética atual? Não sei, pois também estou tentando entender "os novos rumos" que o mundo está tomando. Tristes (...)
Daqui a pouco menos, de dois meses, terei a mesma idade de Ingrid. Eu e mais quantas jovens no Brasil? Muitas. Com esse acontecimento da brasileira que vendeu a virgindade por uma boa quantia e que se tornou público por todo o globo, às vezes penso como seria se boa parte dessas meninas resolvesse imitá-la. É certo que esse caso não foi o primeiro e certamente ainda não será o último, mas se esse "tipo de venda" se tornar comum, normal e o que é mais grave, aceitável pela sociedade, então temo que estará sendo reconhecido o mais novo-velho mandamento: faze e vende o que tu queres, pois é tudo da lei - parafraseando Raul Seixas ao cantar "Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa!".
Talvez seja, aliás, nessa sociedade que a nossa esteja se transformando. Uma sociedade que ontem fora duramente reprimida e silenciada por guerras e mais guerras e que hoje quer se libertar de todo e qualquer pudor de paradigmas comportamentais, os quais possam condenar a vontade das pessoas de pensar, fazer, agir e - por que não? - vender o que quiserem, como quiserem, quando quiserem sem pensar no outro e no que todo esse comportamento "livre" causará. Mesmo que tudo isso envolva o próprio corpo e a transformação dele em mercadoria - de alto custo, é claro.
Enxergar com normalidade que uma jovem venda sua "primeira vez" diante dos holofotes de uma mídia voraz por acontecimentos esdrúxulos - os quais são garantia de ibope - é reconhecer que o processo de coisificação do ser humano está prestes a se efetivar respaldado, ainda, por novas leis éticas que dispensam quaisquer ensinamentos acerca do valor incalculável e inquadrável em padrões monetários que o corpo e a dignidade humanos possuem. Ou possuíam. Temo dizer que é muito provável que Raulzito já cantasse uma sociedade em iminência. E o saudosismo de um "tempo em que a dignidade tinha valor (não preço)", o qual já é um saudosismo também meu, apesar da minha pouca idade, será aspecto moral de quem o possuir e - por que não? ? a semente a ser preservada (e não vendida, por mais que sejam oferecidos alguns milhões de dólares ou reais) numa sociedade em que pouquíssimas coisas ou nenhuma será preservada ou poupada de ser vendida - nem a virgindade, nem a dignidade, nem a ética humanas.
Gabriela Chimbo