Uma queixa recorrente, quando se fala em trabalho, diz respeito à dificuldade de se encontrar mão de obra qualificada para atender as exigências que o atual momento apresenta. Num recorte temporal que analise pelo menos os últimos dez anos, nunca a demanda por talentos foi tão intensa. Quanto mais se produz, menos se encontra material humano! Nos chamados setores primário e secundário já é assim, e quando passamos a falar de outros segmentos - como arte e educação - a situação chega a níveis absurdos.
E é nesse panorama que Bauru perde a professora de euritmia Marina Cangiani. Pra quem nunca ouviu falar, a euritmia existe como palavra e como conceito desde a Época Clássica, na Grécia, quando surgiu por volta do século 440, a.c., derivando-se do termo eu-rhythmós (ritmo equilibrado, belo e harmonioso). No início do século XX, sob a égide de Marie Steiner e Rudolf Steiner, este último idealizador da antroposofia e da pedagogia Waldorf, o conceito foi ampliado e, a partir de então, a euritmia nunca mais parou de crescer e de revelar sua importância.
Foi inserida no currículo das escolas Waldorf e vem promovendo consciência sobre as relações sociais e sobre a relação do indivíduo com o todo, com demanda até mesmo nas empresas, por seu reconhecido efeito benéfico nas relações de trabalho. Entre nós, bauruenses, Marina representa a mais abalizada escola de euritmistas, num universo que formou, no Brasil, pouco mais de 30 profissionais até então. Marina segue, agora, para Botucatu, onde desenvolverá seu trabalho no Espaço Micael, no bairro Demétria, num projeto social voltado para crianças. Seguirá seu companheiro, Rodrigo, que assume vaga na Escola Waldorf Aitiara, como professor. Marina continuará, embora com menor frequência, ministrando suas aulas na Escola Viver. Mas, certamente, a cidade, como um todo, perde sua única euritmista. E, novamente, ao invés de zelarmos por nossos talentos justamente quando mais precisamos, permaneceremos imersos na eterna demanda por gente de qualidade.
Daniel Pestana Mota é advogado e pai Waldorf