Tribuna do Leitor

Cabrália de ontem e de hoje


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Nesta segunda-feira, ao ler o Jornal da Cidade, tive a sensação de que a notícia estava repetida. Tratava-se de um homicídio na pequena Cabrália Paulista, cidade vizinha a Bauru. Não estava repetida. Fiquei triste ao constatar que a pacata cidade que eu conheci em 1996, ao realizar trabalhos da disciplina Comunicação Rural do curso de Jornalismo da Unesp, hoje sofre com problemas da "cidade grande". Em menos de 15 dias, Cabrália, de pouco mais de 4 mil habitantes, foi notícia no jornal duas vezes devido a mortes violentas (em 2/12/12 ? "Cabrália Paulista registra duas mortes violentas neste fim de semana" e em 9/12/12 - Um homem é morto e outro é esfaqueado em Cabrália Paulista").

Mas, quando falo em Cabrália não é nisso que penso. O que me vem à mente são os moradores curiosos por saber quem era aquele bando de jovens aportando de repente nas ruas da cidade sem muita explicação. Naquele 1996, participamos de uma feira agrícola na cidade e quase posso dizer que fomos a atração do evento, mais até que os próprios produtos. Lembro-me de andar pelas ruas da pacata cidade e ter a sensação de estar em um outro mundo, tamanha era a calmaria. Até para mim, recém-chegada a Bauru de uma cidade também pequena, era curioso ver o sossego que reinava pelas ruas e casas de Cabrália.

Logo depois vim a saber mais uma curiosidade de Cabrália Paulista: fábricas de caixões movimentavam a economia da cidade. O inusitado era motivo de risadas, de piadas, mas a verdade é que alguém tem que confeccionar as urnas para que todos possam digamos "morrer em paz". Cabrália tem essa incumbência. Alguns poderão dizer que tal fato pode "atrair" a morte para a cidade. Mas, o que está atraindo a morte para Cabrália é mesmo a droga. Nas duas reportagens publicadas pelo Jornal da Cidade, as mortes tinham relação com entorpecentes. Além disso, há outras notícias de furtos e prisões por tráfico.

Mesmo sem estatística em mãos, não é difícil notar que a vida já não é mais a mesma na pequena e acolhedora Cabrália e em outras tantas "Cabrálias" por aí. Uma pena que os problemas da "cidade grande" tenham invadido aquele lugar que há alguns anos tive o prazer de visitar. Onde pude conhecer dona Helena (se não me falha a memória, é este mesmo o nome), uma simpática senhora que mantinha uma farmácia com lindos móveis antigos e um museu de linguagem indígena. Uma cidade que nem de longe pensava em figurar nas páginas de jornal por tamanha violência.

Sheila Junqueira

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