Certa vez, não sei se foi Lulu Santos ou Guilherme Arantes que declarou sua aflição de ver chegar o dia em que nenhuma de suas canções faria sucesso. Sonhavam com tal momento, um sonho ruim que, por Deus, nunca aconteceu e nem vai acontecer. Certo está que a verve das letras e melodias que os compositores criam à época da juventude têm mais power e vibração, fato que não deixa de desfraldar o estandarte já conhecido desta época de furor e hormônios em profusão. Tal medo sempre me acompanhou também, mas como ouvinte e amante da música, que sempre está à procura do novo, do insólito e do ineditismo. Talvez por isso eu não curta muito as regravações que acontecem no atacado e no varejo. Apesar de serem muito bem tratadas, as canções são o que são pelo momento e estágio da vida nossa, que se choca com uma letra ou melodia que nos faz parar pra ouvir e pensar.
Por isso, assim como Chico Buarque - e agora Caetano o faz também - decretou o fim da canção da maneira como nós a conhecemos e aprendemos a ouvir e apreciar, penso em determinadas épocas que agora sim, tudo se acabou e nunca mais ouvirei uma pérola, porque tudo já foi criado, gravado e tocado. Mas eis que a cada período, que pode levar desde um minuto a anos, aparece um artista abençoado que me enche novamente de vontade de colocar a música dele pra tocar sem parar até decorar a letra e conseguir defendê-la no violão, senão meu, os dos meus filhos, porque não? Os moleques são bons mesmos, não são?
Essa busca angustia e desanima muitas vezes, porque aparece mais coisa pra atrapalhar do que pra ajudar. O rádio não pode tocar novidades, experimentações, nada que não seja comercial, porque se este item dominou desde relações amorosas até as vias matrimoniais, passando pelas seitas e religiões, nada mais justo que as canções que vão ao ar nos dias de hoje não sejam as de minha eleição, por privilegiarem o sucesso fácil e sem futuro. Mas isso é problema meu, eu que me vire. E o que faço? Pesquisa pura e simples.
Interessante é que nem sempre preciso "da melhor banda dos últimos tempos da última semana", como bem disseram os Titãs, para saciar minha sede de novidades. Garimpar um samba de Ataulfo Alves ou Adoniram Barbosa, que eu nunca tinha ouvido, ou apreciar uma harmonia quase que erudita de Cartola, bem como receber de um colega um link para acessar uma música que ele sabe que eu vou gostar ? bendito Youtube - me bastam: me sirvo e quero mais, mas nem sempre aparece um Zeca Baleiro e Chico Cesar, ou uma banda como Vanguart.
Ainda bem que de vez em quando surgem autores e cantores novos, com influências que podemos constatar, que vão dos Beatles a Cauby Peixoto, que me deixam com uma satisfação quase parecida com a de comer lasanha. Quando estou indo profundo do poço, sem esperança de que apareça o novo ? esta paúra nunca passa ? na descida já fico olhando pra cima à procura da luz, que sempre aparece, renovando meus sentidos, num recomeço que se assemelha à nossa própria vida.
O autor, Marcondes Serotini Filho, é cronista e colaborador de Opinião