Tribuna do Leitor

Raios de dezembro


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Esse era o mês do ano, ano do fim do mundo, segundo alguns periódicos...! Sol escaldante ainda na primavera, às vésperas de um verão que promete ser muito quente também. Quando anoitece a cidade veste sua roupagem alegre para as festas natalinas, com suas lojas e vitrines repletas de multicoloridas luzes. Nas ruas, muitas pessoas ficavam admiradas com o movimento no interior das lojas e exibiam sorrisos e sacolas em profusão. Chuvas de verão não avisam..., simplesmente chegam com algum alarido, acompanhadas de vento forte e desaba sobre a cidade um temporal de granizo, com a ferocidade e insistência dos coriscos, raios e trovões de grande intensidade. As lojas fecham suas portas e as ruas e calçadas são lavadas pelas águas da correnteza que assusta os transeuntes.

Sob a proteção de uma marquise um homem, todo encharcado, fica assobiando ou cantarolando para disfarçar o medo. Descarga elétrica provocada por raios escurece a cidade como breu. No jardim da Praça, sob coriscos e relâmpagos, centenária árvore agoniza com seus galhos despidos, revelando uma oração tristonha. Pássaros em seus ninhos protegem seus indefesos filhotes e as outras aves buscam nos telhados vizinhos um melhor abrigo. Na casa grande, uma família temerosa com o intenso barulho das chuvas sobre o telhado, reza uma prece para Santa Bárbara amainar a tormenta. Longe dali só o ladrar dos cães de rua e o homem que estava sob a marquise não era visto por mais ninguém. Os sinos da Igreja eram acionados pelo vento forte; seu bimbalhar descontrolado parecia ser o mesmo que chamava os fiéis para a missa domingueira.

Quando o som do badalar era mais forte dava a impressão de estar afugentando o vendaval para bem longe e assim, como movida por uma força estranha, uma chuva fina passou a respingar sobre as casas, lojas, ruas, árvores e flores do jardim. Lentamente as luzes artificiais foram restabelecidas iluminando novamente a cidade ainda assustada. Coriscos e trovões só eram vistos e ouvidos ao longe... e a cidade voltava a ser agitada... Uma lua branca, muito pálida escondida sobre algumas nuvens escuras parecia oferecer sua paz na terra e sua mensagem prenunciava a chegada do Natal, próximo, muito próximo...

Roque Roberto Pires de Carvalho

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