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Bauru atende mais usuários de crack do que de álcool, aponta levantamento

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Um trabalhador perdeu tudo depois de experimentar crack pela primeira vez, aos 40 anos. Uma criança de 12 anos foi flagrada duas vezes com pedras da droga em menos de dez dias. Não importa a idade ou a condição social, o crack continua a fazer suas vítimas, permanecendo como um dos mais desafiadores problemas de saúde pública da contemporaneidade.

Estes são apenas dois personagens inseridos em uma realidade preocupante vivida por Bauru. O município já atende mais usuários de crack do que de álcool em sua rede de assistência, conforme aponta o estudo “A situação do crack e outras drogas nos municípios paulistas”, divulgado ontem pela Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Depois do crack e do álcool, os casos de dependência mais frequentes são, pela ordem, por maconha e cocaína. Ao todo, 299 cidades foram consultadas no levantamento. Destas, 58 (ou 19,4%) informaram que os casos de dependência de crack já superaram os atendimentos por conta do abuso de álcool. Além de Bauru, estão na mesma condição, na região, os municípios de Bariri, Dois Córregos, Iacanga e Promissão.

E os investimentos para tentar combater a praga, embora insuficientes, não têm sido poucos, conforme revela a pesquisa. Para se ter uma ideia, Bauru está entre as dez cidades paulistas que mais gastaram para firmar convênios com instituições de atendimento a dependentes químicos.

Em 2011, foram desembolsados mais de meio milhão de reais somente para esta finalidade (leia mais abaixo). Mas, conforme reconhece o prefeito Rodrigo Agostinho, o resultado ainda está longe de ser o esperado. “A resolutividade tem sido baixa. Estamos internando muita gente, mas, depois da alta, elas acabam voltando ao vício”, lamenta.


Reincidência

De fato, a reincidência, segundo o estudo, chega a 80% nos municípios com mais de 100 mil habitantes, como é o caso de Bauru. Se a grande maioria acaba procurando tratamento mais de uma vez – às vezes, dezenas de vezes – é porque ainda existem falhas que precisam ser corrigidas para promover a plena reabilitação do dependente.

O grande problema é que o crack, além de ser mais barato, tem feito muito mais devastador em relação a outras drogas. E, por ser relativamente novo, ainda permanece como um “nó” a ser desatado pelas autoridades.

Edmundo Muniz Chaves, diretor e fundador do Esquadrão da Vida, uma das instituições que internam e reabilitam dependentes químicos em Bauru, também analisa que a luta contra o crack ainda está sendo perdida pela sociedade. “O que falta é haver uma integração efetiva entre todos os órgãos que trabalham com a dependência química, incluindo secretarias de Bem-Estar Social e de Saúde, junto com as entidades”, frisa.

Embora este trabalho conjunto já exista, para Chaves, ele não ocorre de maneira efetiva. “Ainda temos muito que melhorar. Este serviço, inclusive, tem de se integrar à Educação, com prevenção nas escolas, mais opções de lazer e capacitação para o mercado de trabalho”, pondera.

Mas, para o prefeito, o que faltam são políticas de Estado para combater a entrada da droga no país. “Não adianta tratar apenas o usuário, se a origem do problema não é combatida”, frisa.

Rede pública oferece tratamento e internação

O poder público em todas as esferas - municipal, estadual e federal - ainda tenta encontrar um modelo eficaz de combate ao comércio, consumo e para tratamento de dependentes da droga.

Há cerca de dois anos, a Prefeitura de Bauru transferiu este serviço da Secretaria de Bem-Estar Social para a Saúde, como forma de melhorar a avaliação clínica dos pacientes e, assim, reduzir o número de internações.

Em Bauru, uma das esperanças da administração municipal reside nas duas casas de passagens que foram inauguradas neste ano. As unidades funcionam como abrigo para que seja prestado o primeiro atendimento - principalmente para moradores de rua e usuários sem família - antes da internação em comunidade terapêutica.

Uma delas é administrada pelo Esquadrão da Vida e destinada a homens e a outra, pela Comunidade Bom Pastor, para abrigar mulheres. Cada casa tem capacidade para receber até 20 pessoas, sempre acima dos 18 anos.

“Para prestar este serviço, equipes saem nas ruas à noite para abordar moradores de rua. Eles ficam na casa de passagem e são encaminhados ao Creas Pop (Centro de Referência Especializado em Situação de Rua), que ganhará, em breve, uma sede mais ampla”, observa o prefeito Rodrigo Agostinho.

Em caso de necessidade, o centro indica a internação ou tratamento dentro da rede municipal. Sendo morador de rua ou não, o dependente é atendido no Centro de Referência em Assistência Social (Cras) e é acompanhado pelo Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD) ou pelo Ambulatório Municipal de Saúde Mental.

Dependendo do caso, a equipe médica pode recomendar a internação, oferecidas atualmente também pelo Esquadrão da Vida e pela Comunidade Bom Pastor. Quando faltam vagas, o município envia os dependentes para comunidades terapêuticas de outras cidades, com quem mantém convênio.


Depois do crack, restaram a vida e a fé

Ao contrário da maioria dos dependentes químicos, que se envergonha de sua fraqueza, Reinaldo Geraldo, 56 anos, não teme mostrar o rosto e contar sua história. Depois de 22 anos trabalhando como controlador e programador de produção de uma empresa de eletrodomésticos de Bauru, ele se viciou em crack. Já tinha 40 anos.

Reinaldo também era dependente de cigarro, que experimentou aos 8 anos de idade, e de álcool, que começou a consumir aos 17 anos. Já havia experimentado maconha e cocaína, mas nada lhe foi tão devastador quanto o crack.

“Faltei 50 dias no trabalho e fui demitido por justa causa”, relembra. Foi usuário durante nove anos e, durante este período, vendeu sua parte na sociedade de uma padaria e conta que “fumou” em poucos meses os R$ 15 mil que recebeu.

Só não perdeu família porque era solteiro e sem filhos. A ajuda só veio quando encontrou o Esquadrão da Vida, onde ficou internado por sete meses, até abril de 2007. “Amanhã, já serão seis anos e três meses livre do vício. Sem nenhuma recaída”, faz questão de ressaltar.

Quando recebeu alta, já recuperado, Reinaldo trabalhou por mais dois anos como voluntário do Esquadrão. Em 2009, passou a atuar como evangelizador na Comunicação e Missão Cristã, onde mora e recebe ajuda de custo. “Financeiramente, eu perdi tudo. Mas me sinto vencedor, porque hoje tenho um trabalho, minha vida e minha fé”, comemora.


A droga na infância

Não apenas adultos e adolescentes, mas crianças se tornam vítimas cada vez mais frequentes do crack. Conforme o JC divulgou na edição de ontem, um menino de apenas 12 anos foi flagrado com drogas pela segunda vez em menos de dez dias.

Na última quarta-feira, o garoto foi detido na região do Fortunato Rocha Lima com 66 porções de maconha, 23 pedras de crack e R$ 112,00 em dinheiro. Ele confessou que vendia entorpecentes no local e alegou que ganharia R$ 20,00 a cada turno de 5 horas.

No dia 2 de dezembro, quando foi pego com 18 pedras de crack no mesmo bairro, o menino liberado pela polícia. Depois da reincidência, ele seria encaminhado ao  Núcleo de Apoio Integrado (NAI), onde aguardaria transferência para a Fundação Casa.


Entre as 10 mais

De acordo com o estudo “A situação do crack e outras drogas nos municípios paulistas”, Bauru está entre as dez cidades que mais investiram em convênios com instituições de atendimento a dependentes químicos. Em 2011, o município gastou R$ 543 mil para esta finalidade, apenas R$ 56 mil a menos que o valor investido pela prefeitura da Capital.

A primeira cidade da lista, São Carlos, desembolsou R$ 1,7 milhão, mesmo tendo porte menor que Bauru. A “cidade sem limites” figura na sétima posição do ranking, atrás apenas, além de São Carlos, de Jundiaí, Marília, Paulínia, Barretos e São Paulo. Em 8º, 9º e 10º lugares, aparecem, respectivamente, Vinhedo, Araçatuba e Campinas.


O estudo

O estudo “A situação do crack e outras drogas nos municípios paulistas” foi elaborado pelo segundo ano consecutivo pela Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Os dados apresentados são referentes ao ano de 2011. No decorrer do ano de 2012, gestores públicos de 299 municípios, onde se concentram 74% da população do estado (32 milhões de pessoas), responderam, por meio eletrônico, um questionário com treze perguntas enviado pela Frente Parlamentar no início do ano.

Uma das conclusões da pesquisa é o fato de municípios com população entre 50 mil e 100 mil habitantes sofrerem mais com o avanço do crack. Neles, foi registrada média de 3,39 atendimentos por grupo de mil pessoas. Já nas cidades com mais de 100 mil habitantes, como é o caso de Bauru, este índice cai para 1,42.

Outro dado do levantamento refere-se à idade média dos atendidos no ano passado. Em cidades com mais de 100 mil habitantes, 40% possuíam entre 21 e 30 anos e 8% tinham até 13 anos de idade. 

 

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