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As duas mensagens de natal

Gilson Souto Maior Jr.
| Tempo de leitura: 4 min

Todos os anos a cena se repete. As pessoas estão nas ruas, coloridas pelas luzes que adornam casas, árvores e postes de iluminação. As lojas, os mercados e o comércio em geral lançam campanhas publicitárias para atrair clientes a um momento "mágico" com um belo e gorducho papai Noel acariciando as crianças e distribuindo doces. As pessoas aparecem falando de amor, paz, alegria, fraternidade e tantas outras coisas bonitas. Parece até que o mundo levou um choque de consciência.

O que a maioria das pessoas não percebe é que tudo isso não passa de um simulacro, de algo que não é real, pois crianças continuam morrendo de fome, a corrupção assola os fundamentos da nação, a imoralidade ganha contornos de legalidade, as drogas destroem famílias inteiras, semeiam a vida de nossos jovens, famílias estão se esfacelando e as pessoas acham que um peru defumado e presentes na ceia de Natal resolverá tudo. O que acontece? Por que isso existe?

Na verdade temos duas mensagens de Natal. Uma parece ser agradável, doce, gostosa de ouvir e tem muita aceitação. A outra parece ser desagradável, invoca uma humilhação tremenda e uma rendição que poucos estão dispostos a aceitar. Na mensagem que parece agradável Jesus é literalmente um mero detalhe, apenas um bebê numa manjedoura, cercado de bois, mulas, ovelhas e afins; seus pais o olham com ternura e os magos ? e somente eles ? o reverenciam, enquanto pastores de Belém observam de forma lacônica tudo acontecendo. Neste cenário, Jesus fica num canto da sala dividindo espaço com uma bela árvore de Natal e presentes que serão trocados ao final da Ceia. Na mensagem agradável, há fartura de comida e disposição de pelo menos naquelas horas compartilhar sentimentos agradáveis que ficaram em desuso durante o ano.

Na mensagem que parece desagradável Jesus faz parte do plano de Deus, um plano que é "conhecido já antes da fundação do mundo, mas manifestado no fim dos tempos em vosso favor" (1Pedro 1:20). Neste plano Jesus nasceu com um propósito muito definido: "Porque o Filho do homem veio salvar o que se havia perdido" (Mateus 18:11). Desse modo, o nascimento de Jesus era apenas um passo no projeto de redenção humana, visando trazer o pecador ao arrependimento e levá-lo à submissão a Deus por meio de Seu Filho Jesus Cristo. O Natal, portanto, teria a seguinte mensagem: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, pleno de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai" (João 1:14).

O problema é que a maioria das pessoas não quer a segunda mensagem que, embora verdadeira, invoca arrependimento, rendição e dependência de Deus. As pessoas conseguem suportar um Jesus bebezinho, delicado e sem força que fica na manjedoura sem interferir na vida de ninguém. Mas um Jesus que veio para mostrar o caminho verdadeiro, expor nossa condição pecaminosa e mostrar a graça de Deus é demais para alguns. Aceitar o Natal como a mensagem do Deus que veio manifestar-se entre nós e trazer redenção invoca a ideia de que nós, seres humanos, não somos bons, que não temos méritos, que somos dependentes da graça divina, e muitos não querem se ver assim. Preferem viver na ilusão de que são boas pessoas e que devem ter algum mérito, pelo menos nesse período do ano. O que ninguém percebe é que a mensagem aparentemente agradável tem um fim terrível. Ao negar o senhorio de Jesus Cristo e Sua mensagem as pessoas negam a Deus e passam a viver esse tempo numa falácia.

O verdadeiro sentido do Natal está na pessoa bendita de Jesus Cristo. Ele não é apenas um bebê num presépio, mas Alguém transforma pecadores dignos da ira em redimidos. Jesus é Aquele que nos faz ver o valor das pessoas não uma vez no ano, mas todos os dias, agindo em favor delas com justiça, retidão, graça, misericórdia e bondade. Natal com Jesus é vivido o ano todo e não um dia apenas. Natal com Jesus é mais que presentes, pois na verdade o maior presente nos foi dado: "Porque Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16).

O autor, Gilson Souto Maior Jr., é pastor sênior da Igreja Batista do Estoril e professor de Teologia

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