O macho demoníaco, o covarde que ataca mulheres indefesas, o fraco que mascara a incapacidade fazendo caras e bocas de valentão, passou a enfrentar a redentora Lei Maria da Penha. O falso corajoso, que agride a companheira, inseguro e frágil, dependente e medroso, enfim, um judas mimado que ardilosamente partilha a ceia e compartilha o mesmo teto de forma gratuita e oportunista. Os modernos agressores de mulheres, geralmente são os "come e dorme", assim denominados os maridos oportunistas em décadas passadas.
A mulher, criação divina, guerreira de inúmeras batalhas, exímia em enfrentar situações difíceis, peca pelo romantismo. Sonhadora e apaixonada, acredita no galanteador que jura um grande amor até que a morte os separe. Sentindo-se princesa, se une ao asqueroso sapo travestido de príncipe. O primordial defeito das mulheres é acreditar em promessas enganosas, caminhos escolhidos pelo agressor que inicia o ataque cerceando, iludindo, e com o auxílio da astuta mente de Mefisto dá o derradeiro bote, atacando covardemente a companheira, a quem jurou amor eterno. Contudo, o crime maior não é o sangrar da carne. O pecado imperdoável é o apunhalar da alma, pois não há cirurgião plástico que elimine as cicatrizes de uma alma ferida. E a mulher em estado de tristeza, se recolhe por entre as dobras frias do desamor, assustada e pequenina, tal e qual filhote abandonado e sem forças, se aninha num canto escuro da solidão sem intenção de sair. E a forte mulher guerreira, combalida, abandona as armas e tomba, desenhando para o mundo o triste retrato da sociedade fortemente machista onde a vítima humilhada e silente se deixa imolar, enquanto o agressor imune e soberbo gargalha carregando medalhas que sustentam seus atos. Infelizmente, apesar da modernidade a barbárie reina e o Brucutu do século XXI, ainda homem das cavernas, indiferente a tudo e a todos, deambula livremente pelas avenidas certo que punição é coisa holográfica: existe, mas apenas em sentido figurado!
Há seis anos surgiu a Lei 11.340/06, denominada Maria da Penha, pedra fundamental da complicada reconstrução de valores, cravelha dourada que escancara o majestoso portal da esperança feminina e adentra na praça do Coliseu da modernidade empunhando o cetro da justiça. Porém, imperativo e relevante é que a mulher faça rugir seus direitos, resgate dignidade e autoestima, atire o medo e a covardia no poço das causas perdidas e enfrente os leões com galhardia e coragem! Pois é o silêncio da vítima que alimenta o agressor.
Valderez de Mello é advogada, pedagoga, psicopedagoga, autora dos livros: A Velha Adormecida e Quintal de Sonhos