Política

Indústria gráfica faz balanço e entra na briga tributária

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

A indústria gráfica brasileira está em franca campanha em Brasília (DF) com o objetivo de emplacar proposta de integração que tenha reflexos em problemas antigos, e fundamentais para o segmento, como a desoneração tributária. Na última semana, no encontro em uma churrascaria de Bauru para o balanço do ano, os principais empresários paulistas do segmento reforçaram a ação direcionada à redução nos tributos. 

O presidente estadual da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), Levi Ceregato, abordou com exclusividade ao JC as questões que preocupam a atividade e o posicionamento diante de novas tendências, como a leitura digital.

A evolução de emprego no setor é decrescente, apesar da manutenção dos níveis de vagas do ano passado. As exportações cresceram, até novembro passado comparado com o mesmo período do ano anterior, em torno de 24% e a importação no mesmo referencial comparativo é 8% maior agora do que em 2011.

Mas o problema nesses indicadores é que o déficit da balança comercial no segmento está sendo ampliado. Isso porque o volume de exportações atingiu somente US$ 184 milhões até o mês passado, contra US$ 302 milhões de produtos trazidos de fora.

A dependência tecnológica de máquinas do exterior, o baixo valor adicionado dos produtos, o cultural efeito negativo do baixo consumo de livros por habitante no País e a retração de pouco mais de 5% em setembro deste ano, sobretudo com queda acentuada nas faturas de impressos comerciais e editoriais, formam os principais elementos a serem digeridos pelo segmento.

É sobre este cenário que o presidente estadual da Abigraf, Levi Ceregato, conversou com o JC:

Jornal da Cidade - O emprego está em evolução decrescente no setor neste ano, comparado ao ano passado, a exportação ampliou em torno de 24% e a importação 8%. Como o senhor vê esses números?

Levi Ceregato - Nós temos como principal fator a questão das importações nesse volume, sobretudo de muito material vindo da China e do mercado asiático. A folha salarial e a carga tributária na China são infinitamente menor do que a nossa. E isso reflete diretamente nos nossos resultados, apesar da exportação estar em crescente. Enquanto um operário chinês na indústria gráfica ganha 60 dólares por mês, no Brasil ele ganha de 60 a 80 dólares por dia. A diferença é enorme sobre o custo da atividade. Além disso, nosso produto acaba ficando muito mais caro em razão da carga tributária e dos direitos e custos trabalhista e previdenciário. Isso nos deixa sem preço para competir com esses mercados lá fora.


JC - Mas outros setores nacionais enfrentam o peso do Custo Brasil e o ataque asiático-chinês, como o de brinquedos e o têxtil, e não estão na mesma situação que o setor gráfico?

Ceregato - A diferença é que os setores têxtil e de brinquedos, por exemplo, conseguiram sobretaxas as importações, de um lado. Então o produto vis a vis, quando ele entra no mercado interno, ele tem uma sobretaxa para poder se equiparar aos nossos produtos. Na indústria gráfica nós ainda não conseguimos isso. Mas esperamos mudar isso pelo caminho da redução da carga tributária.


JC - O governo está sensível a essa situação. Falei de exportações, apesar do crescimento maior que a importação até outubro deste ano, o resultado da balança comercial do setor é negativo em US$ 115 milhões?

Ceregato - O governo é macro, com uma visão com vários segmentos sobre a economia. Eles estão sensíveis sim, estamos batendo à porta do governo federal quase que toda semana. Acredito que no próximo ano isso deve se equilibrar.


JC - A leitura digital vai tomar lugar do papel, com os tablets, na leitura por exemplo de livros?

Ceregato - O livro ainda é um artigo caro em razão do poder aquisitivo da população. A distribuição gratuita de livros pelo governo ameniza essa questão do ponto de vista de faturamento em um setor, o de educação. Mas o mercado digital avança e oferece facilidades em que é inexorável sua presença. Não sei o tempo, se em quatro ou cinco anos, mas isso vai invadir sobretudo a opção de leitura junto aos mais jovens. As próprias escolas, que são as formadoras na origem da cultura de comportamento entre os jovens, hoje crianças, estão adotando em escala o material de leitura e de ensino em formato digital ou com ferramentas digitais. E isso, na origem, vai mudando em escala o comportamento do formato de leitura. A população acima dos 40 anos ainda não tem essa acessibilidade cultural. Mas a moçada vai usar isso e muito.


JC - Como está a situação do projeto de lei que tramita no Congresso que trata da desoneração tributária?

Ceregato - É fundamental a redução dos tributos, como o IPI, Cofins, IR e ICMS, sobre a atividade para que possamos reverter esse quadro de competitividade. Quando você reduz tributo, reduz custo. Estamos trabalhando nesse projeto e esperamos que isso tramite no Congresso em condições de ser aprovado em breve.


JC - Qual o peso da retração do mercado dos EUA sobre as exportações no setor gráfico brasileiro?

Ceregato - Acredito que no conjunto das vendas para o exterior, a repercussão negativa da crise americana sobre o setor gráfico chega ao patamar de 10%. É um volume bastante significativo para o mercado global no setor.


JC - A queda de impressos comerciais e editorias no setor era esperada?

Ceregato - Era esperada mais não nos níveis em que aconteceram. Se pegarmos por exemplo o mercado editorial, onde o governo é o maior comprador de livros didáticos e estão imprimindo esses livros lá fora, principalmente na China, a queda é significativa. O setor perdeu R$ 1 bilhão de faturamento só com isso. Porque grupos nacionais vencem editais para fornecimento de muito volume de material didático, mas mandam imprimir lá fora.


JC - Mas o governo não dá tiro no pé, na medida em que verifica esse movimento de perda de faturamento para a China acontecer e não acelera o processo de discussão dos tributos, perdendo arrecadação?

Ceregato - Não podemos jogar toda a carga de culpa no governo. Existem tratados internacionais que o governo brasileiro tem de cumprir e não pode, unilateralmente, descumprir. Então sobretaxar o produto chinês entra nisso. Porque tem de cumprir as parcerias comerciais internacionais já firmadas e em um mercado mundial aberto. Agora, o governo promove as licitações no mercado interno e o que acontece é que as editoras de livros ganham as licitações e depois vão ao mercado cotar. Quando elas cotam, nosso preço gráfico é 50% mais caro. E ai vem a China com o custo muito mais barato de produção disso. Acho que o governo vai acertar ao ajustar isso ao colocar que todos os produtos licitados para livros didáticos sejam produzidos dentro do país. Mas isso é uma medida que tem de ser analisada sobre o âmbito do direito comercial. Se não ferir tratado é uma medida que gera emprego aqui, mantém emprego aqui e o dinheiro fica aqui e não atrai importação de material como o chinês.


JC - O baixo valor adicionado dos produtos no setor e a dependência tecnológica de fora, sobretudo dos alemães, tem influência a que nível sobre o déficit na balança comercial negativa no segmento?

Ceregato - Isso ainda é muito grande. Os alemães detêm tradição e domínio sobre o setor muito grande. Para se ter uma ideia no último ano importamos R$ 1,5 bilhão em máquinas no setor. Vale lembrar que hoje as máquinas vêm com uma tecnologia embarcada muito grande e têm uma depreciação muito acelerada, não só pelo uso mas pela obsolescência. O baixo valor adicionado no setor, sua outra questão embutida nessa, prejudica muito o setor.

 

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