Cairo - A Frente de Salvação Nacional, maior grupo de oposição do Egito, pediu ontem a impugnação do referendo sobre a nova Constituição do país, encerrado anteontem, afirmando que houve fraude no pleito.
A consulta popular é um dos passos para que o polêmico texto entre em vigor e foi realizada no dia 15 e no último sábado. A votação sofreu boicote de juízes e irritou a oposição, que protesta há mais de um mês contra o presidente Mohamed Mursi.
Em entrevista, os dirigentes pediram a impugnação dos resultados por considerar que houve “fraudes, violações e irregularidades” detectadas durante a eleição. Segundo os opositores, as denúncias foram apresentadas à Procuradoria-Geral do país.
Os chefes opositores também disseram que pretendem alterar a Constituição no Legislativo “por meios democráticos” e voltaram a criticar o texto por apresentar restrições a direitos e liberdades individuais.
“O referendo não é o fim do caminho, mas só uma das batalhas sobre o futuro do Egito ou para mudar sua identidade e voltar à opressão”, disse o grupo opositor, em comunicado.
A oposição defendeu que os eleitores votassem “não” no pleito, em vez de boicotá-lo, como fizeram os juízes egípcios. O resultado da consulta deverá ser divulgado hoje, mas a Irmandade Muçulmana, grupo de Mursi, reivindica a vitória e diz que o “sim” ganhou por 64% dos votos.
Tensão
Apesar dos dois dias de votação não terem registrado confrontos graves, a eleição está marcada por uma tensão entre oposição e governo. Os adversários de Mohamed Mursi afirmam que o texto não contempla liberdades e direitos individuais e usa como base a lei islâmica, a “sharia”.
O projeto da nova Constituição foi aprovado no dia 30 de novembro pela Assembleia Constituinte, composta em sua grande maioria por islâmicos. Isso alimentou os protestos contra o presidente, que começaram a chegar ao palácio presidencial.
As manifestações começaram devido a três decretos que aumentaram os poderes do presidente, que foram suspensos há duas semanas, e desencadearam confrontos com a polícia e com militantes da Irmandade Muçulmana, em ações que deixaram pelo menos sete mortos e mais de 700 feridos.
Partido unido
Cairo - A coalizão de oposição do Egito disse ontem que está se movimentando para formar um partido político único, para desafiar os islamistas, cujas frentes mais disciplinadas têm dominado as urnas eleitorais desde a revolução do ano passado.
Membros do partido de oposição Frente de Salvação Nacional, cujas diferenças dividiram o voto não islâmico, prometeram manter a pressão sobre o presidente Mohamed Mursi, inclusive através de protestos pacíficos.
Liberais, socialistas e outras facções que se uniram sob a bandeira da Frente fizeram campanhas em vão pelo “não” em um referendo sobre uma nova Constituição que, de acordo com uma contagem extraoficial feita pelos simpatizantes islamistas de Mursi no domingo, garantiu a aprovação com cerca de 64% dos votos, com a participação de cerca de um terço dos 51 milhões de eleitores.
“A Frente está muito coesa e concorda que vai travar as batalhas em conjunto”, disse em uma entrevista coletiva, após o referendo, Mohamed Abul Ghar, líder do Partido Social Democrata Egípcio e um dos principais membros da Frente.
“Não é só isso, mas os partidos dentro da Frente tomaram medidas importantes para formar um grande partido dentro da Frente”, acrescentou ele.
Um comunicado da Frente disse que o partido aprendeu lições úteis”, durante o referendo. Mas ele terá pouco tempo para se organizar, já que a eleição parlamentar está marcada para daqui a cerca de dois meses.