A Lua, figura feminina e protetora, representa o lado maternal. Mas ela pode ser ofuscada pelo sol, diurno, que faz referência ao dia a dia movimentado da criança, com uma pequena dose de irresponsabilidade. Mas, para botar ordem, há sempre aquele relógio chato, que procura organizar e disciplinar as coisas na vida da criança: a hora do lanche, a hora de escovar os dentes...
Esse enredo, acompanhado de aromas, sons, luzes, música clássica e muito encantamento, dá forma ao espetáculo “O Segredo da Tempestade”, da companhia infanto-juvenil Titius. A proposta da montagem é atingir o espectador por meio das sensações, embasado no “Teatro do Encantamento”, que valoriza a vivência da mensagem por meio da estimulação dos sentidos das crianças e resgata a importância da percepção das coisas.
A peça é o grande atrativo da companhia bauruense, que completou 30 anos este ano e agora pretende formar parcerias e conseguir um auditório para manter apresentações contínuas de sua montagem mais antiga. Em “O Segredo da Tempestade” já passaram mais de 280 pessoas e diversas gerações, que tiveram oportunidade, através da encenação, de mostrar seu trabalho e se profissionalizar na arte teatral.
Com “O Segredo da Tempestade”, a Titius já percorreu unidades do Serviço Social do Comércio (Sesc) do interior e teve temporada de mais de um ano na Capital paulista. A peça foi escrita pelo jornalista Luciano Ennes em sua adolescência, em 1981, quando ele tinha por hábito ouvir clássicos de Grieg e Rossini. O espetáculo, de acordo como diretor teatral da Titius, Marco Giafferi, já formou muita gente em várias áreas, que se destacaram na carreira artística e foram parar na mídia e em importantes companhias teatrais e projetos.
Necessidade de auditório
Para o ano que vem, a Titius retoma o espetáculo com foco social, conforme explica o psicólogo, ator e diretor teatral da Cia, Marco Giafferi, e também Débora Bastazini, Luciana Gonçalves e William Lima, estudantes de artes cênicas que compõem o elenco da peça. “O objetivo é iniciar uma temporada com crianças que serão recrutadas através do Programa Escola da Família, em escolas públicas de Bauru e região”, salienta Luciana.
O novo núcleo de formação dará oportunidade para crianças aprenderem e vivenciarem a arte teatral, explicam os estudantes. “Com este projeto nas escolas, vamos fomentar a formação de crianças para a arte e selecioná-las para um espetáculo histórico”, enfatizou Luciana.
Contudo, para iniciar uma nova temporada de “O Segredo da Tempestade”, a companhia procura formalizar parceria com alguma instituição que possa fornecer um espaço fixo para apresentações, em um calendário contínuo. “Estamos com foco neste projeto social e no recrutamento de crianças para atuar na peça, porém não temos auditório para as encenações. A ideia é que a peça possa ser apresentada para o público em datas contínuas, em um lugar de fácil acesso na cidade. Precisamos de um ‘padrinho’ sólido, que nos forneça um auditório para acomodar a plateia, que possa ficar escuro em qualquer hora do dia, pois já temos estrutura de luz e som”, detalha Marco Giafferi.
História de transformação
Em homenagem aos 30 anos da companhia Titius, vários membros e ex-integrantes se reuniram em um encontro para recordar os melhores momentos da Cia. Em entrevista ao JC, o diretor Marco Giafferi, que também é psicólogo, lembrou que o trabalho da companhia é também um importante processo terapêutico e de transformação de crianças e jovens. Além disso, é um caminho oportuno para a profissionalização no teatro.
“O processo terapêutico no teatro trabalha a consciência, a autovalorização, a mudança de figura no social. E percebi que esse processo era violentamente mais rápido ou mais saudável através do teatro, pois a terapia sempre esteve associada a algo mais clínico. E o teatro é lúdico, envolve o brincar, e através disso, nesses 30 anos, pude constatar a transformação de muitos jovens”, sublinhou Giafferi, que estudou teatro fora do Brasil, e trouxe o conceito de “Teatro de Encantamento”.
“Eu vivi na França, Dinamarca e pesquisei muito o teatro para a criança. Compreendendo a possibilidade de unir várias facções do teatro e estimular a criança em todos os sentidos é que surgiu este termo do ‘Teatro de Encantamento’. O encantamento acontece quando vemos a reação das crianças quando mudamos o cheiro durante o espetáculo, de uma cena para outra, por exemplo”, contou.
A Cigarra e a Formiga
O segundo “filho” da Titius é a montagem “A Cigarra e a Formiga”, com elenco profissional, que recorre às mãos para encenar os personagens. “A Cigarra e a Formiga”, na montagem da companhia Titius, mostra como o trabalho da Cigarra cantora, como artista, também é importante, enquanto a Formiga trabalhadora passa todo o verão estocando comida para o inverno. A estória ainda homenageia Braguinha, grande compositor brasileiro. Em abril do ano que vem, conforme adianta Giafferi, a peça integrará a programação do tradicional Festival Internacional de Teatro de Bonecos em Bauru.