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O mundo dos raimundos

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Acabou o ano cabalístico de 2012, mas o vasto mundo continua para os raimundos, sem uma solução. Nada aconteceu de extraordinário a não ser a vitória do Corinthians. O calendário maia previra o "fim do mundo" para o dia 21 de dezembro. O sol continuou a brilhar no dia 22. Os exegetas, então, resolveram mudar a interpretação dos pré-colombianos: o fim foi apenas de uma era, de um ciclo cósmico. Uma era termina e surge outra, para que a vida continue. Está escrito nas estrelas.

Para um simples observador social e sem pretensões a astrólogo, essa "nova era" já começou faz tempo. Talvez no dia em que a sociedade (parte) passou a admitir casamento de homem com homem e de mulher com mulher. Hoje uma criança deixa de correr e brincar para apertar botões de videogame. A engenharia genética permite escolher a cor dos olhos do futuro filho. O homem, de bípede implume e(in)voluiu para um ser de quatro rodas. Ninguém mais escreve sem computador ou vive apartado do seu celular. O mundo não acabou sequer para os condenados do mensalão. As possíveis prisões ficaram para 2013 por causa do "trânsito em julgado" e dos "embargos infringentes", com todos os seus significantes e significados. A única a lamentar que "meu mundo caiu" é a Rosemary Noronha. Perdeu um bom emprego, as viagens oficiais e o passaporte diplomático que a permitiu regressar sempre de malas cheias sem prestar contas à Alfândega, de 32 périplos ao exterior no avião presidencial. Deixou de gozar da intimidade do homem mais querido do Brasil, o ex-metalúrgico Luiz Ignácio Lula da Silva. Esta deve ter sido a pior das tragédias.

De resto, nossa era já era. Em julho, depois de 50 anos de investigação os cientistas comprovaram a existência da "partícula de Deus" (bóson de Higgs). Foi daí que tudo pode ter começado. O tempo deixa de existir, como havia demonstrado a teoria da Relatividade. Nós, leigos, sentimos alguns arrepios ao tomar conhecimento dessa espécie de feitiçaria. Você também ficaria aturdido se lhe demonstrassem a possibilidade de uma partícula subatômica existir e não existir ao mesmo tempo, como garante a teoria dos "Quanta" de Planck. E Einstein a aceitou plenamente e ainda disse: "Deus não joga dados, mas domina todas as regras". A Ciência vive seus tempos de milagres, de alquimistas. E nós, no microcosmo pequeno burguês estamos preocupados em aproveitar a mudança de calendário para prometer a nós mesmos, finalmente, fazer aquele regime até entrar novamente no vestido amarelo, voltar à ginástica, arrumar a estante, pagar as dívidas. A intenção é das melhores, sem dúvida ? mas a maior parte dessas resoluções dura pouco. Ficamos só nas propostas até começar tudo de novo, no ano seguinte. Tomar resoluções de ano-novo é fácil; basta um desejo. Transformá-las em realidade exige estabelecer uma meta e correr atrás. É cansativo. Uma vez li no mural de uma empresa a frase em letras enormes: "Um objetivo sem um plano não é mais que um desejo". A conotação capitalista seria a de motivar à produtividade, mas serve também para aquele estímulo no córtex que faltava para, finalmente, escolhermos o melhor curso de inglês.

A filosofia politicamente incorreta prega que os otimistas são o tipo de pessoa que ama a humanidade, mas detesta seus semelhantes. O filósofo Pico della Mirandola, que viveu no século 15, usava o pecado como ferramenta para compreender o comportamento humano: orgulho, ganância, sexo, inveja continuam a mover o mundo. A luta de classes nada mais é do que produto da ganância e da inveja (Pondé). O maior fetiche de nossa época continua sendo a busca da felicidade, o que talvez explique a proliferação da literatura de autoajuda. O problema é que não podemos fingir que vivemos contra o mundo do mercado e do dinheiro. Todos nós temos um pouco da personagem chamada Emma Bovary, de um romance escrito por Gustave Flaubert (século 19). Vivemos insatisfeitos com o envelhecimento e a ausência de algo diferente nas nossas vidas. Acabamos nos apaixonando por pessoas erradas, gastando o que não devia e só depois descobrimos que nada disso resolve o vazio da vida cotidiana. Emma Bovary acaba se matando. Viva você. Entre a felicidade, o pecado e a autoestima somos obrigados a optar. Impossível os três juntos. A escolha para o ano que vem é só sua. Da minha parte, continuo apostando no pecado.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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