Recentemente, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico - ONS disse que o corte de abastecimento que deixou consumidores de 12 Estados sem energia "pode ter sido causado por um raio". O governo, através da presidente Dilma, questionou essa informação: "Raio cai todo dia nesse País, a toda hora. Raio não pode desligar sistema. Se desligou, é falha humana". (reportagem JC ? 28/dez/2012, página 15). Há verdades dos dois lados, embora as informações não estejam completas. Para desmistificar este tema, inicialmente é importante explicar que:
1- As subestações e Linhas de Transmissão (LTs) conduzem corrente elétrica que é gerada nas usinas e vai até o consumidor final.
2- A Rede Básica é constituída por subestações e LTs com "voltagem" superior a 138 mil Volts.
3- Estes equipamentos possuem dispositivos de proteção que ao detectarem a circulação de corrente elétrica superior à máxima permitida no seu projeto, desligam o equipamento sob condição anormal, impedindo que ele se danifique.
4- O raio (descarga elétrica) é um fenômeno natural que pode injetar grande quantidade de corrente elétrica no objeto em que ele incidir.
5- A incidência de um raio , que não seja bloqueado pelo sistema de para-raios, pode implicar no desligamento de um equipamento, através do seu dispositivo de proteção elétrica.
O que precisa ser esclarecido à população é a importância da confiabilidade da nossa Rede Básica, que está associada à configuração, bom funcionamento dos equipamentos em operação e à existência de alternativas caso algum destes grandes equipamentos falhe ou seja desligado intempestivamente. Se raios incidindo em equipamentos injetam instantaneamente grandes correntes elétricas que podem atuar sistemas de proteção, que critérios adotar para garantir a confiabilidade durante as 24 horas de cada dia?
O Sistema Elétrico Brasileiro deveria adotar, todo o tempo, como condição mínima ideal de operação a confiabilidade (n ? 1), que significa: se, por um raio, acidente ou falha humana, algum equipamento da Rede Básica se desligar ou danificar, os demais equipamentos daquele sistema ou região conseguirão absorver o impacto da readequação da distribuição da energia naquele momento, sem que haja interrupção no fornecimento de energia para o consumidor final.
O "pano de fundo" desta questão, no entanto, é que, por falta de planejamento e investimentos na ampliação e modernização do sistema, por falhas ou atrasos em manutenções ou por ocorrências, algumas vezes, não se consegue operar o sistema elétrico com confiabilidade (n -1). Nestes casos, em algumas regiões, o sistema funciona com confiabilidade reduzida em alguns momentos.
Então, afinal, raio pode ou não pode causar "apagão"? Sim, se estivermos operando o sistema elétrico abaixo da confiabilidade mínima e tivermos coincidência com incidência de raios, falhas de equipamentos ou falha humana. Não, se estivermos operando com confiabilidade (n-1) ou superior.
Alguns especialistas culpam o governo por não fazer um bom planejamento de longo prazo e não propiciar condições e incentivos para aumentar os investimentos no setor. Outros entendem que faltam investimentos das empresas concessionárias, melhor gestão dos investimentos existentes e qualificação dos seus técnicos, visando prestar serviços de melhor qualidade. Esta polêmica não é nova e vai continuar por mais algum tempo, uma vez que a recente Medida Provisória (MP 579) aprovada para redução de energia (em média 20%), terá contribuição das concessionárias de aproximadamente 14%, o que implicará em redução da margem de lucro dessas empresas que aceitaram a MP e, muito provavelmente, priorização e redução de investimentos em melhoria e modernizações de seus ativos.
Todos nós queremos pagar menos pelas contas de energia que, também, vai significar (pelo menos na teoria) produtos mais baratos. Porém, deve-se tomar o cuidado para que estas reduções de custos de energia ao consumidor sejam sustentáveis no longo prazo, de forma a evitar que nos próximos anos tenhamos energia barata porém de baixa confiabilidade, com constantes interrupções locais e regionais, que são os chamados "blackouts" ou "apagões de energia".
O autor, João Carlos Pelicer, é engenheiro