Bairros

Estação quente (e torneiras secas)

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Água falta, e água volta. Esta tem sido a rotina para milhares de famílias espalhadas por diversos bairros de Bauru. Por conta do rotineiro problema, aproximadamente 55 mil bauruenses começaram 2013 com as torneiras secas e muita dor de cabeça. Dessa vez, o abastecimento de 15 bairros foi afetado por causa do rompimento de uma adutora. A previsão era de que o fornecimento voltasse ao normal até a madrugada de ontem (5).

De acordo com o Departamento de Água e Esgoto (DAE), sucessivas interrupções de energia registradas durante a chuva que atingiu Bauru na noite do dia 1 de janeiro teriam provocado o problema.

Mas, afinal, o que é ter o problema de falta de água em pleno verão e em tempo de férias? O JC foi até alguns dos bairros mais prejudicados da cidade para ouvir moradores que contam os seus dramas e mostram o que fazem para, ao menos, amenizar os problemas que surgem quando as torneiras secam.

A Vila Dutra é um dos bairros mais afetados pelo problema do abastecimento hídrico. Por lá, entre os moradores, a reportagem encontrou Pedro Henrique Oliveira Soares, de 12 anos, no momento em que ele enchia baldes e mais baldes com a água de um caminhão-pipa na quadra 2 da alameda Campo Grande.

“Sempre que o caminhão chega sou eu quem pega a água para a minha família. Eu gosto de encher os baldes, é até divertido, mas acho muito ruim precisar pegar essa água. Bom mesmo seria sempre tê-la na torneira”, diz o garoto.

Já a mãe de Pedro, a auxiliar administrativa Rose Oliveira Soares, ressalta que os transtornos vindos com a falta de água são muitos, entretanto, ela garante que os carros-pipa sempre trazem água quando são solicitados. “Dos males, o menor”.

A reportagem procurou o DAE para falar sobre as causas da falta de água em Bauru e sobre possíveis projetos para 2013, mas até o fechamento desta edição não obteve resposta. Segundo a assessoria de imprensa do departamento, caminhões-pipa podem ser acionados pelo telefone 08007710195.

 

Mais de uma semana

Enquanto a água jorra solta por diversas vias públicas de Bauru, quem também sofre com as torneiras secas é a dona de casa Cacilda de Fátima Oliveira Pereira, que afirma já ter ficado uma semana inteira sem água na residência onde vive, na quadra 3 da rua Luiz Rosa de Lima, no Jardim TV.

Louça que se acumula sobre a pia, roupas sujas sobre os tanques e os banhos da família são prejudicados quando a água deixa de encher os canos. “Até as plantas sofrem porque fica difícil de regar”, frisa.

 

Quando a torneira seca...

Eu não entendo as matérias de jornais, rádios e televisão que falam sobre os dias de possíveis problemas no abastecimento de água nos bairros de Buaru. Aqui, na Vila Dutra, isso sempre acontece. Falta água quase todos os dias e precisamos nos virar para driblar tal rotina”, desabafa o vigilante Omir Costa, morador da alameda Campo Grande.

Para não ficar sem água, uma das medidas tomadas por Omir, que tem uma caixa d’ água em casa, é armazenar o líquido em uma espécie de reservatório no quintal, além é claro, de contar com os companheiros baldes.

Como vive com mais duas pessoas na casa, o vigilante conta que a família ainda consegue se manter, coisa que não é tão fácil para famílias mais numerosas. “Entretanto, minha mãe é cadeirante, e é difícil toda essa dinâmica de água nos baldes... E o pior é que a nossa conta praticamente dobrou de valor. É revoltante”.

Preocupado com o problema, Omir revela que sempre liga para as rádios da cidade para debater o assunto e contar as suas histórias. Segundo ele, há pessoas que afirmam não sofrerem com o problema nos bairros onde moram. “Aqui não tem dia para as torneiras pingarem. Isso quando pingam”.

 

‘Ela acaba de surpresa’

O que fazer quando você abre a torneira e vê as últimas gotas de água do dia caindo para o ralo? Acostumada com a situação, a aposentada Cecília Pereira dos Santos tem sempre um balde e uma bacia com água para lavar a louça das refeições ou enxaguar a roupa de molho.

E enxaguar a roupa que estava de molho com um balde de emergência era exatamente o que a aposentada estava fazendo quando recebeu a equipe do JC no endereço onde vive há décadas, a quadra 7 da rua Itororó, na Vila Independência.

Sempre bem humorada, dona Cecília leva a vida no improviso quando acaba a água. “A gente tem que se virar como pode. Eu estava lavando umas peças no momento em que a torneira secou. Sorte que eu já tinha reservado um pouco de água”.

A aposentada não tem caixa d’ água em casa e confessa que já ficou sem banho quando a água acabou e ela não tinha reservado o líquido em baldes. “Sempre que eu vejo o pessoal do DAE no bairro, eu corro para armazenar água porque sei que ela vai acabar. Eles vivem arrumando as coisas pelo bairro”, lembra.

 

‘O maior problema está na hora de limpar’

Água na mangueira nem mesmo para as plantas. Mas quando ela acaba, o maior problema enfrentado pela família do funcionário federal Antônio Carlos Facin está mesmo é na faxina.

“Temos caixa que reserva a água para o banho e outras necessidades, mas a torneira volta e meia fica seca e a água só volta de madrugada. Minha filha que mora perto de minha casa, por exemplo, chega do trabalho e não tem água para os afazeres domésticos. E, segundo os vizinhos, o bairro sempre enfrentou tal problema”, salienta o morador da rua Joaquim Radicopa, no Jardim Petrópolis.


Mina

Antônio Carlos, que vive há pouco tempo no Jardim Petrópolis, conta que já teve uma mina d’água no quintal de casa e a usava para praticamente tudo. “Imagine, eu tinha aquela água geladinha o dia todo. Para algumas pessoas isso até parece um sonho”, recorda-se.

 

‘Ficar sem água no verão é um pesadelo’

Quando o trabalho ocupa praticamente toda a semana, parte do sábado e do domingo é usado para os afazeres domésticos. Mas como lavar roupas e quintais sem água?

Este é um dos principais problemas para o porteiro Rodrigo da Silva Ferreira e sua família, moradores da quadra 5 da alameda Três Lagoas, na Vila Dutra. “Trabalhamos a semana toda e quando minha mulher tira o sábado para lavar as roupas, cadê a água? Aqui ela some das torneiras a cada quinze dias, e o pior é que normalmente isso acontece nos fins de semana”, afirma Rodrigo.

Segundo o porteiro, como se não bastasse o transtorno com a limpeza, a caixa d’água da residência não dura mais do que dois dias porque a família é composta por quatro pessoas.


‘De canequinha’’

“E com o verão a situação fica ainda pior. Queremos tomar mais banhos. Tenho duas filhas adolescentes que tomam banho de canequinha para economizar a água. Ficar sem ela é ruim em qualquer época do ano, mas no verão é um pesadelo”.

 

Vazamentos: tormento em 2012, temor para 2013

 Os vazamentos e suas consequências, como a abertura de buracos nas vias, por exemplo, têm sido pedras nos caminhos dos bauruenses. Preocupado com um remendo feito pelo DAE que cedeu na quadra 3 da rua Romanno Luiz Barbugiani, Vila Industrial, o aposentado Daniel Costa colocou uma placa no buraco formado com os dizeres “Feliz 2013 – São os votos do Dae”.

De acordo com o morador, tudo começou com um vazamento que foi consertado. “O buraco ficou aberto por um bom tempo até que a chuva aumentou a cavidade. Até um carro caiu na depressão. Depois de muita insistência, o pessoal veio tapar, porém, a cobertura feita é muito fina e está cedendo”, explica.

Para o aposentado, o perigo maior vem com a noite, já que as árvores presentes nas calçadas fazem sombra sobre o buraco que vira uma armadilha para carros, motos, bicicletas e até pedestres: “Por isso tive a ideia de colocar a placa”, defende.

 

Torneira seca e asfalto molhado

 Na rua Maestro Ministro Zani, Alto Paraíso, é um vazamento na quadra 3 que há dias incomoda os moradores da região. “As torneiras estão secas há dois dias (disse na última quarta-feira, 2), mas o asfalto da rua mencionada vive molhado. É algo que não dá para acreditar”, revolta-se o morador Valdemar Elias de Paula.

Outro motivo de revolta para Valdemar, é que a sua conta de água é paga em débito automático, ou seja, não há atrasos, ao contrário da água que muitas vezes falta. “Muitos presidentes saíram e chegaram ao DAE, mas o problema continua”, observa.


Três caixas

Para não passar necessidade e nervoso, Valdemar instalou três caixas d’ água em sua residência, na quadra 11 da rua Santa Maria, na Vila Industrial. De acordo com ele, se preciso for, a família arcará com os custos de um pequeno reservatório. Tudo para ter paz ao chegar em casa no fim de um longo dia de trabalho e ter água para tomar um banho, lavar a louça e até mesmo para matar a sede.

 

 

 

 

 

 

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