Considerado pela própria Secretaria Municipal de Obras como um dos bairros com estrutura mais precária em Bauru, a região baixa do Parque Jaraguá, zona noroeste da cidade, mesmo após uma semana da última forte chuva, não esconde em uma de suas principais avenidas as marcas dos estragos causados pelas enxurradas.
Esgoto correndo ao ar livre, erosões, buracos e muita terra que sobrou do rio de lama que invadiu casas e lojas ainda preocupam os moradores. Em uma das residências, uma mulher chegou a montar uma barricada para fugir da lama e do esgoto.
Mais do que a falta de infraestrutura do bairro, o esgoto que corre pelas erosões da quadra 4 da rua Benedito Leite de Brito é um problema que vem tirando o sono e até mesmo o apetite da dona de casa Vanessa Lopes dos Santos, 18 anos.
Com a filha de 11 meses no colo, ela mostra o “contorcionismo” que enfrenta todos os dias para conseguir entrar e sair de casa sem pisar nos entulhos da rua de terra ou no esgoto oriundo de uma tubulação do Departamento de Água e Esgoto (DAE) que rompeu com a chuva do último final de semana.
“É impossível passar com o carrinho de bebê aqui. O cheiro do esgoto fica insuportável com o calor, tira todo nosso apetite. Isso desde domingo, depois da chuva. Não temos pra onde correr, então ficamos esperando a boa vontade do DAE consertar”, lamenta a moradora, frisando a quantidade de crianças que brincam por lá.
“Teve um menininho que caiu nesse esgoto outro dia, é uma situação absurda”, completa Vanessa. O perigo, inclusive, foi constatado pela reportagem, que flagrou o momento em que duas crianças brincavam às margens do esgoto ontem pela manhã.
A rua onde o esgoto pode ser visto corta as primeiras quadras da avenida Gabriel Rabello de Andrade, que acumula da quadra 1 até a 8 a insatisfação de comerciantes e moradores.
Barricada
O incômodo causado pelos problemas da lama e esgoto que assolam a região do bairro virou até mesmo cenário de guerra. Com uma barricada montada na porta de casa utilizando a terra que já invadiu sua residência em outras ocasiões, a dona de casa Dalva da Cruz Soares, 60 anos, espera proteger seu imóvel contra as chuvas.
“Já acostumei com a lama e o esgoto que desce com essa chuvarada e invade tudo. Tenho cinco crianças em casa e não dá para bobear mais”, conta a mulher mostrando a trincheira feita para desviar a enxurrada e evitar uma nova invasão de lama e esgoto em sua casa.
Na lama
Na mesma avenida, porém, por volta da quadra 7, a falta de galerias pluviais e estrutura resultou no alagamento e invasão da lama em três lojas.
“Nessa rua não temos uma única boca de lobo. A chuva de sexta-feira e domingo encheu tudo de lama aqui. Ficamos dois dias inteiros com o salão fechado limpando o estrago”, conta o funcionário público e proprietário de um salão de beleza Israel Pereira Martins, 29 anos, mostrando a marca da lama de quase meio metro nas paredes.
Prejuízo também para a proprietária da loja de brinquedos ao lado. “Alguns brinquedos estavam no chão e as caixas ficaram encharcadas. Quem vai querer comprar um produto novo com a caixa estragada?”, questiona a comerciante Jaudineide Santos, 35 anos, mostrando os produtos.
Segundo os comerciantes, entretanto, em três anos, essa seria a primeira vez que a chuva causou o alagamento das lojas. A uma quadra acima, uma equipe da Secretaria de Obras trabalhava, ontem, para consertar e repor cerca de 60 metros de guias e parte asfalto que ficaram destruídos com as últimas chuvas.
Um caminhão da prefeitura também efetuou a retirada de parte da terra que desceu de todo o bairro e se acumulou na avenida Pinheiro Machado.
DAE: Poço de Visita obstruído
Em nota, o DAE afirma que esteve na rua Benedito Leite de Brito, anteontem, para desobstruir um Poço de Visita (PV) que estava entupido. A equipe de manutenção, entretanto, voltará no endereço citado para verificar se voltou o vazamento.
Sobre a rua Jeso Contijo de Moraes, quadra 2, a assessoria de imprensa da autarquia alega que não há registro de reclamações no Serviço de Atendimento ao Público (STAP). Entretanto, o endereço já foi registrado e a Divisão Técnica iria ao local, ainda ontem, para verificar o que havia ocorrido.
Já quanto à avenida Gabriel Rabello de Andrade, quadra 7, o DAE informa que no dia 8 de janeiro, às 17h15, foi registrado um vazamento na rede de água. No mesmo dia, às 18h50, os devidos reparos foram realizados. Na mesma avenida, porém na quadra 8, foi registrado um PV sem tampa e o mesmo seria reposto ontem.
Defesa Civil cita desvio pluvial
No dia dos estragos provocados pelas chuvas no Jaraguá, a Defesa Civil do município esteve no local avaliando os prejuízos e orientando a população quanto aos riscos. Segundo o coordenador da Defesa, Álvaro de Brito, a situação ocorre há 20 anos no local.
“É preciso um desvio urgente para que a água pluvial da parte alta do bairro não continue afetando a parte baixa. Contudo, por mais investimentos que a prefeitura faça é preciso também que alguns moradores daquela região aumentem, gradativamente e com instruções técnicas, o nível de suas casas. Afinal, ali é o caminho natural de um rio”, explica Brito, enfatizando a presença do rio Água da Lagoa nas imediações do bairro.
De acordo com o IPMet, o acumulado das chuvas registradas até a última quinta-feira somava 62 milímetros. Em janeiro de 2012 choveu o equivalente a 262,1 milímetros. O dia com a maior precipitação acumulada desde o início de 2013 foi no último sábado, quando choveu 26,4 milímetros.
‘Situação é monitorada há 4 anos’, diz secretário
Questionado sobre a situação que acomete o Parque Jaraguá, assim como outros bairros da cidade com a chegada do período chuvoso, o secretário de Obras do município, Eliseu Areco Neto, mostrou conhecer o problema.
“Monitoramos a situação há quatro anos nesse bairro e sabemos que a região do Jaraguá e do Santa Edwirges é um ponto crítico e necessita de sistema de drenagem e pavimentação. Licitamos o serviço em 2011 e a previsão é de que até 2016 o problema seja minimizado em até 80%”, afirma Areco. O secretário, entretanto, não informou qual o critério utilizado para a escolha das ruas que serão ou não pavimentadas nessa próxima etapa.