“Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos”. A “máxima” ditada no filme “Clube da Luta”, pelo personagem Tyler Durden, vivenciado por Brad Pitt em Clube da Luta, filme em que, estressado com a rotina de trabalho para de enxergar sentido na vida (leia adiante), cabe como uma luva para nossos dias.
Muito trabalho, pouca realização, máximo consumo. Nossa vontade ou necessidade são incompatíveis com os rendimentos. Na equação em que falta salário e sobra mês, o resultado é a frustração. Para compensar o saldo, trabalhamos mais, abraçamos mais compromissos do que nossas pernas alcançam, nos estressamos e, com isso, queremos comprar ainda mais.
Há saída para esse círculo vicioso? Produzir e, ao mesmo tempo, tirar o pé do acelerador rumo à tão sonhada qualidade de vida, parece ser cada vez mais difícil. Tomar uma medida drástica, para muitos, tende a ser a saída. Contudo, o sofrimento da dúvida antes da decisão, desde por diminuir o ritmo ou até mesmo trocar de trabalho, também gera estresse.
Descobrir o que se quer, de verdade, antes de seguir qualquer outro caminho, é uma das chaves para “essa tal felicidade” profissional, observa o psicólogo cognitivo Arnaldo Vicente. “Ser feliz profissionalmente é atender a um plano que brotou no seu interior, com o objetivo se você se permitir evoluir”, diferencia.
Para o terapeuta, que atua no Centro de Terapia Cognitiva (CTC), em Bauru, esse crescimento, muito mais do que financeiro ou hierárquico, antes de tudo, é interior. “Essa evolução ocorre, sempre que possível, para colaborar com seu bem estar, com a solicitação e aceitação de ajuda dos outros. É saber que não somos parte de um projeto de duas mãos, mas de muitas”, avalia.
Dar voz aos valores éticos, espirituais e familiares, para ele, são fundamentais nesse processo de autoconhecimento anterior ao processo de se optar por algum caminho diferente daquele que não é satisfatório. Nessa análise, especifica, estão nossas reais necessidades de consumo.
“Perceba sua necessidade, descubra a importância dela no presente. Ela faz parte de sua vontade ou do que você realmente precisa”, questiona o psicólogo. “Pergunte-se: ‘o que vai acontecer de melhor na sua vida se você consegui-la e de pior, caso o contrário”, acrescenta Vicente. “Vai querê-la apenas por um momento ou para sempre?”, diferencia.
Outros questionamentos, como a certeza de que há total comprometimento para dar o melhor de si, a ciência de que não dependemos somente de nossos esforços e que haverá, eventualmente, desinteresse da parte de outras pessoas, também devem ser feitos, acentua. “Pergunte-se, também, se há entusiasmo para ganhar e sem medo de não alcançar”, reforça.
Caso a resposta seja sim, orienta o terapeuta, é sinal verde para seguir adiante. “Neste caso não é consumo, é investimento”, distingue.
Aplicação em qualidade de vida. Algo bem diferente da busca insana da maioria, que, justamente para maquiar todos os estresses do cotidiano, consome o prazer imediato, muitas vezes excessivo e até nocivo, alerta Arnaldo.
O perigo mora, justamente, quando se obtém condições para satisfazer, de forma sazonal, os danos causados pela rotina massacrante. A maquiagem sobre a realidade, muitas vezes, salienta o terapeuta, é pior do que o “mundo real” que nos cerca. “Doenças sexualmente transmitidas, cirroses e outros males não fulminantes, mas determinantes para prejudicar a qualidade de vida. Estouros na conta bancária, acidentes de trânsito, delitos sociais”, ilustra.
Contrapontos
A busca por status, observa Vicente, é outra vertente dessa demanda de preencher um vazio. Ela, assim como a inerente facilidade do consumo, também aumenta nossa carga de trabalho, já grande pelas reais necessidades, mas foi criada, acredita Vicente, pelas próprias carências.
“A facilidade do consumo não foi criada antes de nossas necessidades. Ela veio porque desenvolvemos uma carência muito grande, um acúmulo de necessidades as quais não temos poder direto sobre elas”, salienta. “A mídia e a publicidade perceberam que o homem não tinha dinheiro, mas que possuía desejos, aos quais davam muita importância e, às vezes, até a vida para consegui-las”, relaciona.
Contudo, como conviver com essa realidade. Remédios, terapia e trabalho para consumirmos de forma desenfreada? “É descobrir que não existem medicamentos ou bens de consumo, estéticos ou de sucesso que duram para sempre”, defende. “É preciso desenvolver uma clareza e ter objetivos, cujos ganhos nos servirão por toda a vida”, norteia.
Mas até mesmo o terapeuta admite, desapegar não é nada fácil. “Há na nossa cultura um catastrofismo imediato, onde acreditamos que se não tivermos nossas necessidades atendidas rapidamente, sucumbiremos”, conceitua.
“Então, vende-se a alma ao diabo, ao agiota, à megaloja. Mente-se para si e protege esta mentira até da própria razão”, observa. “Autoestima não envolve o poder, envolve a compreensão de si e o respeito pelo outro e pelo planeta”, define.
Empurrãozinho
Mesmo quando estamos no auge da insatisfação, mudar nunca é fácil. No caso de uma advogada de 54 anos, que pediu para ter a idade preservada, a mudança foi imposta. Integrante do departamento jurídico de uma empresa de Bauru durante 18 anos, ela foi surpreendida por uma “reformulação” no quadro de pessoal.
“Foi um choque. Demissão nunca é fácil, a gente sente uma rejeição enorme”, testemunha a advogada. Apesar do baque, por outro lado, a dispensa, passado o tempo necessário para a aceitação, foi benéfica. “Era uma grande pressão. O pessoal olha no relógio na hora que você entra, mas nunca quando sai. Além da alta demanda, com pouca gente, ainda havia trabalho no final de semana”, recorda ela, dois anos longe do antigo trabalho e agora com escritório próprio. “Na verdade me fizeram um favor”, considera.