No século passado, o Brasil conviveu com inflação oficial que chegou a bater 80% ao mês. Foi o final da era Sarney. Os preços subiam diariamente e as pessoas não tinham noção alguma de quanto efetivamente custavam os produtos.
No ambiente empresarial, o que se observava era o repasse dos aumentos de custos, fruto da indexação dos preços. Pouco se falava em termos de produtividade. Depois de inúmeros planos para tentar estabilizar a economia, o Plano Real foi capaz de derrubar a inflação anual brasileira para um dígito.
Tendo um ou outro ano índices de inflação com um ponto fora de curva, podemos afirmar que a inflação está sob controle. O governo pratica a política de metas inflacionárias. Projeta para os próximos 12 meses o que pode ocorrer com a inflação geral e monitora os preços ou as variáveis que influenciam a inflação como pode. A meta atual é de 4,5% ao ano, podendo no máximo chegar a 6,5%.
Fechamos o ano de 2012 com a inflação abaixo dos 6%. Acontece que o ano de 2013 se inicia com pressão nos preços e a previsão é que a inflação rodeie o limite da meta, ou seja, os 6,5% ao ano. Muitas pessoas não acreditam neste patamar de inflação. Observam em suas compras preços crescendo muito mais do que o percentual divulgado pelo governo, colocando até em dúvida se os índices oficiais não são manipulados.
Na prática, o que se tem são várias "inflações" na economia. Explico melhor. Segmentando por grupo de produtos, tanto o governo como os céticos quanto a idoneidade dos índices estão certos. Um índice de inflação leva em conta mais de 450 itens que retratam os produtos que compõem o perfil de consumo das famílias. Além deste universo de itens, também são consideradas características regionais, isto é, são incorporados ou substituídos produtos que têm forte consumo em determinada região do país.
Quando se analisa, por exemplo, um grupo de produtos como dos alimentos, a dona de casa sentirá no bolso o impacto de aumentos provocados, por exemplo, pela sazonalidade. Irá verificar que o tomate subiu 10 ou 15%, que a alface teve seu preço elevado em 7% e assim por diante. Outro exemplo: comida fora de casa. Um cardápio, como o dos restaurantes que vendem a quilo possui um "mix" em sua composição. Consideram deste as hortaliças, até o filé mignon, ou atém mesmo o bacalhau.
Quando os preços aumentam constantemente refazem seus cardápios, contudo, se a demanda continuar a mesma, quando ocorrem reduções de preços, o os preços não são rebaixados. Quem come a maioria dos dias fora de casa terá uma constatação de que a inflação neste item em particular ficou 20, 30 e as vezes 100% mais caros.
Isso é verdade, mas a inflação geral, de todos os produtos, pode apontar para índices abaixo de um por cento. É a chamada média ponderada que leva em conta a participação relativa de cada item no total.
Se no mesmo período em que os aumentos nos preços dos alimentos ocorreram, os preços dos combustíveis, do cigarro, da mensalidade escolar, do transporte, e de tantos outros itens não subirem, os aumentos nos preços dos alimentos são anulados ou têm seu impacto reduzido, devido a esta participação relativa que mencionei.
Assim, podemos reafirmar: tanto o consumidor que constata altas expressivas nos preços está certo em afirmar que a inflação nestes itens está elevada, como o governo que apura a evolução dos preços de todos os itens que são considerados na apuração da inflação oficial.
Na verdade o conceito de inflação é "aumento geral e contínuo de preços", portanto, somente pelo conceito fica fácil entender que todos os preços devem subir e de maneira contínua. Em ambiente de inflação abaixo de dois dígitos isso dificilmente ocorre.
Independentemente dos conceitos o consumidor deve redobrar a atenção na hora da compra, pesquisando sempre e substituindo os produtos com preços elevados sempre que for possível. O consumidor tem que ser soberano na relação de consumo, mesmo existindo inúmeras "inflações" na economia.
O autor, Reinaldo Cafeo é presidente da Acib, diretor regional do Corecon e articulista do JC