No último dia 9, uma entrevista do Excelentíssimo senhor Secretário da Segurança Pública de São Paulo, doutor Fernando Grella Vieira, publicada pela Agência Estado, nos fez refletir. Na opinião do secretário, "os policiais civis e militares paulistas" não ganham mal. "Não ganham mal, mas precisamos melhorar e todas as reivindicações que eu receber serão levadas ao governo", prometeu Fernando Grella, completando que "salário é importante".
Muito inteligente sua declaração. Ao generalizar o termo "policiais civis", o senhor deixa escapar, de maior e mais acurada análise, a situação vivida pelos delegados de Polícia do Estado de São Paulo, que ocupam a 25ª colocação no ranking salarial entre os 27 entes federados. Ainda, não se sente obrigado a justificar os motivos pelos quais, embora "não ganhando mal", 23 dos 135 delegados de Polícia nomeados em dezembro do ano passado, ou seja, há menos de um mês, não tomaram posse. Também se desonera de explicar a crescente e desenfreada debandada de colegas que migram para outras carreiras jurídicas ou para outros Estados, tais como os 25 dos 200 aprovados no concurso em agosto de 2012 fizeram antes mesmo de se apresentarem aos seus postos de trabalho.
As desistências e as migrações destes Delegados contribuem para a notória desestruturação da classe que chefia toda Polícia Civil e se esquivar destas questões não é tão difícil. Difícil é explicar para o contribuinte que cada um dos participantes deste processo custa cerca de R$ 100 mil para os cofres públicos (leia-se, "nosso bolso"). Os futuros delegados frequentam a Academia de Polícia de São Paulo, recebem treinamento, salário e, após séria e intensa investigação psicossocial que lhe confere certificação de idoneidade, se tornam aptos e preparados para cumprirem seus deveres. E assim, prontos, são entregues a outro Estado ou partem para outra carreira.
É importante deixar consignado, por fim, que a presente manifestação trata de mera contextualização do tema, baseado no cenário político que envolve a carreira que orgulhosamente represento. Assim, é preciso observar com atenção e cautela as palavras lançadas, especialmente em momentos de crise. As dores das perdas e do descaso, e a insensibilidade no trato humano se misturam sem medida certa às tentativas de se justificar o injustificável.
Marilda Pansonato Pinheiro - Presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo