Articulistas

Deu bode

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O folclorista Câmara Cascudo informava sobre o poder do bode ("Coisas que o povo diz") no imaginário popular. Qualquer velha bruxa de antigamente, sabedora de orações e remédios fortes invocava o macho da cabra, por ser temido e respeitado. Dizem que é o animal preferido para incorporar o capeta.

O bode não castrado exala bodum e mantém as pessoas afastadas. Seria o cheiro do arrenegado. Explica-se por aí o fato do bode Galeguinho ter sido escolhido para guardar a sede da empresa registrada em nome do ex-assessor do deputado Henrique Alves (PMDB-RN). Nem placa tem, apesar de credenciada a gerir seis milhões de reais em obras públicas. Toda essa dinheirama foi fruto de dotações orçamentárias patrocinadas pelo parlamentar. Henrique Alves percorre o Brasil a bordo de um jatinho do ex-governador de Minas Newton Cardoso, para pedir apoio de governadores a sua candidatura à Presidência da Câmara Federal.

Inclusive obteve sucesso junto a dois governadores do PSDB, o do Paraná Beto Richa e o de Minas, Antonio Anastasia. Paulo Maluf - vai ter que devolver R$58 milhões desviados dos cofres da Prefeitura de São Paulo - declarou sutilmente não ver nada de mais nas acusações de lançadas contra o candidato à presidência da Câmara Federal: "Até entre os padres existem pedófilos..." Maluf deveria ter acrescentado a questão realmente desafiadora: "Por que não podemos ter um antiético na chefia da mesa do Parlamento, se eu também sou?" Renan Calheiros prepara-se para voltar à presidência do Senado. É aquele que pagou a pensão da amante, com quem tem uma filha, com propinas de um empreiteiro de obras públicas. Eles agem em bando.

Diante desse quadro desolador, sobrou para o Galeguinho, despejado da empresa-laranja por ter se tornado figura de projeção nacional. Sua foto saiu na primeira página da Folha.

Agora tiram o bode da sala. Na sabedoria judaica designa uma situação que desvia a atenção do problema. Galeguinho, depois da manchete, vive amarrado numa árvore da rua e come o que lhe dão os passantes. Na tradição, também judaica, o bode expiatório era um animal apartado do rebanho e deixado só na natureza, durante o Yom Kippur, traduzido por Dia da Expiação, ou do Perdão. Conta-se no Levítico, da Bíblia, que o sacerdote punha a mão na cabeça do bode e contava o pecado do povo de Israel. Bode expiatório hoje significa alguém escolhido arbitrariamente para levar a culpa de tudo. Na verdade somos uma multidão de Galeguinhos a expiar nossas culpas. Continuamos a eleger fichas sujas.

O brasileiro até gosta das coisas certas, mas cansou-se de indignar-se diante de tanta corrupção no mundinho político. O dinheiro malversado é nosso, do contribuinte. Trabalhamos cinco meses por ano só para pagar impostos ao governo, sem ter nada de retorno. É a expiação da culpa por permitirmos tanta safadeza. Na reação, somos cordeiros.

Galeguinho faz jus ao nome por ser um caprino branco, como os habitantes da Galícia, herdeiros da pele alva dos suevos, povo que dominou aquela região da Espanha durante séculos. No nordeste chamam de "galego" aquele que é "branquelo". Geralmente tem "zoio azur", ou verde, como a esposa do Lula.

O brasileiro "amarra o bode" diante dessa situação ? fica de cara amarrada. O ano de 2012 terminou com o atual presidente da Câmara Marcos Maia (PT-RS) prometendo conflito com o Supremo Tribunal Federal na polêmica da cassação dos mandatos dos mensaleiros condenados. A eleição de Henrique Alves é quase certa, apesar do Bodegate.

O fundo do poço do modus operandi da política brasileira parece estar muito abaixo da camada de basalto. A militância do PT reuniu-se em jantar para anunciar o início de vaquinha destinada a pagar as multas impostas à cúpula do partido, na sentença do STF. José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares e João Paulo Cunha não vão precisar pôr a mão no bolso.

No nordeste, por certo o prato será buchada de bode, a um custo per capita entre cem e mil reais O PT dará conta dos 1,8 milhões das multas somadas. Para quem está no governo, é uma merreca.

O PT perde a oportunidade de se refundar e expiar a culpa dos mensaleiros. O ideário ético motivador da fundação do partido está definitivamente arquivado. No máximo os companheiros concordam em retirar o bode da sala. O deputado Henrique Alves demitiu o assessor envolvido, depois de 13 anos de prestação de "bons serviços". Ministro pego com a boca na botija fica fora. É ordem do Planalto. Onde já se viu não ter competência nem para roubar. Audácia do bode.

O autor, Zarcillo Barbosa é jornalista e articulista do JC

Comentários

Comentários