Tribuna do Leitor

Paulo Neves é o próprio boi desgarrado da manada


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Todo janeiro é inevitável falar de Paulo Neves. Esse intrépido homem de teatro revoluciona Bauru todo começo de ano com sua Mostra de Teatro. Reúne no maior palco bauruense o que de mais ousado existe no cenário dos palcos no interior paulista. Eu não me coço quando o vejo apresentando quantidade de apresentações, dezenas de peças, centenas de atores, que sabemos dificilmente se alia com qualidade, mas nesse caso, sim, pois Paulo e sua trupe são criteriosos. Não seguem uma trilha convencional. Conseguem o quase impossível trabalhando, desde com os muito jovens aos iniciantes atores da terceira idade. Revira tudo, de cima abaixo, com tudo e todos. Miscelânea de possibilidades, dentro do limite do que é possível dentro do termo "tudo junto e misturado". Nos temas das peças encenadas um diferencial altamente positivo.

Quando escrevo de Paulo Neves enquanto homem de teatro, o faço quase de automaticamente (ou seria umbilicalmente) lembrando também de seus partners, Thiago e Talita Neves, seus filhos, discípulos e fiéis seguidores. Desse trio, ninguém escapa de ter acumulado conhecimentos e se guiado em passos outros. Paulo aprendeu tudo de sua mãe, seus filhos com ele. Uma família teatral e teatralizante, nada teatralizada. Conhecer o envolvimento de cada um com a causa é coisa para alguma antenada pessoa, dessas munidas com uma idéia e uma câmera na mão. Já vejo essa saga toda merecendo ser filmada, intrépida aventura propiciada pela ação do trio (quarteto, quando incluída a mãe e avó). Reviveram no espaço onde foi a casa de dona Celina, antiga e famosa escola de datilografia, hoje uma Escola de Teatro, ambiente lúdico, quintal com fruta no pé, palco ao ar livre e platéia em arquibancada debaixo de frondosa árvore. Ali tudo é preparado, arquitetado e depois solto, espalhado e a frutificar, como nesse momento, com os atores espalhados em peças de temas variados, múltiplas possibilidades.

Nenhum janeiro é monótono em Bauru durante o desenrolar dessa Mostra. Paulo movimenta a cidade, mundos e fundos, faz de tudo e mais um pouco, tudo para não colocar a mão no bolso mais do que um endividamento dentro de suas possibilidades. Perde a calma, temperatura interna se eleva, decibéis de brabeza sendo expelidas. Quando o reverencio, primeiro pelo seu lado de homem do teatro, o faço também porque o conheço em outras atividades (não tanto como gostaria). Quem gosta de História como eu sabe que o que move realmente esse mundo são os ensinamentos passados pelos professores. Quem consegue captar algo durante sua juventude, movido pela ação de algum professor, fica com aquilo dentro de si pro resto da vida.

Professores de História quando movidos por essa possibilidade de transformar as pessoas em seres mais palatáveis promovem maravilhas e instigam seus semelhantes a serem mais pensantes, questionadores, entendendo e não se conformando com os que buscam nos engambelar. Paulo tem isso embutido dentro de si, consegue passar isso para seus alunos e os que passaram pelas suas mãos nunca mais serão os mesmos. Essa junção de diretor teatral e professor de História possibilita uma combustão única, rica e explosiva. Quando juntadas essas duas divinais especialidades, com alguém de caráter transformador, o estrago é inevitável. Um estrago maravilhoso, a provocar rombos de grande proporção, miolos expostos, mentes abertas e postas para funcionar. Quem convive e recebe ensinamentos de pessoas assim nunca mais vai conseguir seguir pacificamente e de cabeça baixa como numa manada, vai é querer se perder, ser o elemento a propor caminhos outros. Boi desgarrado seguindo caminhos opostos aos do que pensam e agem como se alternativas não existissem. Ele não prepara pessoas para serem inseridas no mercado, mas a prepara para a vida, com sensibilidade e conhecimento de causa. Elemento mais do que perigoso, pernicioso, diria. Não sei nem como ainda continua solto.

Henrique Perazzi de Aquino - jornalista e professor de História - www.mafuadohpa.blogspot.com

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