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Celular é ?dilema? da volta às aulas

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 7 min

Aceituno Jr.

William Bornea Jacob diz que é preciso utilizar com parcimônia a tecnologia

Utensílio indispensável e nas mãos de usuários em idade cada vez mais tenra, o celular virou um dilema para pais e educadores. Às portas do início de mais um ano letivo, tanto na de pública quanto no ensino privado (este, com aulas a partir de amanhã), a presença dos aparelhos em sala, que hoje dão acesso a tudo, “inclusive” receber e fazer chamadas, ainda representa um obstáculo para professores.

A vastidão de conteúdo, na maioria das vezes não construtivo, dos gadgets, sejam celulares, smartphones ou tablets, ainda compete com a figura solitária do educador na frente do quadro “analógico”.

Mesmo proibido no Estado de São Paulo, por força de lei, o uso de celulares ou qualquer objeto eletrônico com comunicação externa, durante as aulas, ainda é boi na linha para manter a concentração dos alunos. A maioria nega que utiliza os aparelhos. Contudo, equipamentos e aplicativos também respondem presença.

Aos professores e diretores, resta fiscalizar. Aos pais, o mesmo. Para alguns, tecnologia, ao menos no atual modelo de ensino, não contribui em quase nada para o aprendizado dentro da sala de aula.

 “Sou totalmente contra. Acho que celular ou qualquer outro aparelho eletrônico atrapalha as aulas. Não aprovo de jeito algum”, enfatiza o micro-empresário Osvaldo Gonçalves Dias, pai das estudantes Amanda, 19 anos, e Gabriela, 13.

Para ele, as dificuldades em controlar o uso do telefone celular em ambiente escolar são maiores com relação à caçula. “Minha filha mais velha está na faculdade e nos tempos de colégio não era tanta essa coisa de celular. Agora é bem diferente”, compara.

“Existe até mesmo uma ‘competição’ entre as colegas sobre os modelos mais modernos, lembra Adriana Janine Gonçalves Dias, mãe das jovens, que compartilha a opinião com o marido: celular, apenas da porta da classe para fora. “Não há necessidade. Em caso de recados urgentes, a própria secretaria da escola nos informa”, confia.

Entre adolescentes, o uso dos aparelhos é praticamente obrigatório. Plugada quase que integralmente às mídias sociais, a moçada não perde tempo em postar instantaneamente tudo o que se passa ao redor.

“Antes, o acesso era só no computador. Agora é fácil. Está na mão, para qualquer lugar que a gente vá”, comenta a estudante Júlia Buzzo da Silva, 11 anos, que, ao lado da amiga Mariana, um ano mais velha, admite: é difícil controlar o impulso de espiar o que a galera posta na rede. “Mas eu me controlo, não uso na aula”, garante.

E a febre dos celulares, tablets, smarts e afins não abrange apenas o universo adolescente. A moçada mais nova também está inserida no universo digital e, obviamente, leva seus gadgets para a escola. É assim com Gabriel Ribeiro Rodrigues.

Aos oito anos, ele é usuário do facebook e usa seu moderníssimo Galaxy para baixar MP3 de rock. Apesar da assiduidade na Internet ele garante: nada de celular na aula. “Só na hora do intervalo. Mas tem gente que usa (na aula) sim”, aponta.


Guerra ao celular

Usar ou não usar até se discute. No entanto, celular dentro da sala de aula, ao menos no Estado de São Paulo, é proibido. A Lei Estadual 12.730, promulgada em 11 de outubro de 2007, veta a utilização de celular nos estabelecimentos de ensino em todo o território paulista.

Autor do texto transformado em lei, o deputado estadual Orlando Morando (PSDB) enfatiza, em entrevista por telefone ao Jornal da Cidade, que a medida se aplica tanto para estabelecimentos de ensino públicos quanto privados. “Todas as escolas, públicas ou particulares são regidas pelas delegacias de ensino”, lembra.

Sancionada há seis anos, a lei foi redigida em época em que os celulares eram usados “somente” para efetuar e receber ligações ou, quando mundo, enviar e receber simples mensagens de textos.

Atualmente, é comum ver adolescentes nos pátios de colégios com modernos tablets ou smartphones, com grande leque de recursos e alta velocidade de conexão.

Para o deputado, entretanto, o texto não está defasado. “O sentido da lei é evitar a utilização de equipamento que desvie o foco de atenção do aluno. Além disso, há o incômodo por ruído. O principal é banir formas de comunicação externa durante a aula”, sintetiza o parlamentar.

Morando condena o uso de equipamento eletrônico com comunicação externa dentro da sala de aula, qualificado por ele como ato de “badernizar” o ambiente escolar. “É arbitrária a escola que permite. Pais que sentirem prejudicados podem nos procurar. Podemos procurar até o Ministério Público”, declara. “Peço que nos ajudem a denunciar. Vamos zelar pela qualidade do ambiente de ensino”, acentua. O site do deputado é www.orlandomorando.com.br.

 

Tecnologia é caminho irreversível

 

Formas de utilização no ensino ainda são discutidas por educadores, mas a presença dela é consensual atualmente

Que a utilização da tecnologia na palma de nossas mãos é um caminho irreversível, não se discute. Contudo, a presença de recursos online dentro da sala de aula ainda é um tabu. Como conjugar educação com a janela aberta para uma vastidão de informações, nem sempre edificantes ou confiáveis?

Este é o maior desafio para educadores e pais. De um lado, o professor e a escola tradicional. De outro, os alunos, principalmente na fase da adolescência, quando ostentar um aparelho top de linha significa muito mais do que domínio da tecnologia.

A briga por status entre os jovens motiva os mesmos a levar para a escola aparelhos que em pouco tem a ver com o conteúdo dos livros.

Presidente da Associação do Interior Paulista das Agências Digitais (Acopadi), Paulo Milreu acredita que o problema não está, apenas,  em textos de leis que não andam na velocidade da evolução tecnológica, tampouco na disciplina estudantil. Para ele, a escola precisa também se adaptar a um novo perfil de aluno.

Não há quem não tenha um celular em mãos. Apenas entre os smartphones, enumera o presidente da Acopadi, o mercado obteve um crescimento de 80% apenas no ano passado. “Temos também os tablets, com vendas 300% maiores. É uma nova ferramenta de comunicação à disposição do aluno”, relaciona.

A ferramenta é potente. Contudo, ainda não há meios de aproveitamento da tecnologia para que os recursos, de fato, otimizem o aprendizado ou,  ao menos, não comprometam o desempenho em sala de aula, acredita Milreu. “Temos o outro lado da moeda. O aluno pode passar a aula toda navegando na Internet e nada de prestar atenção”, admite.

Contudo, ele reitera a questão: aonde está o problema, na tecnologia ou métodos educacionais? “Será que, antes de pensarmos em proibir, não está na hora de mudarmos o modelo de educação?”, questiona.

“Como o professor atual pode ‘competir’ com smartphone, tablet, Internet, videogame e TV a cabo que o aluno tem em casa com mais de 500 canais?”, completa.


Tendência e disciplina

Que o uso da tecnologia é inevitável todos os educadores concordam. Contudo, é preciso parcimônia ainda, principalmente em sala de aula. “Não podemos permitir o uso aleatório, pois compromete a concentração dos alunos”, observa Simone Tereza Teixeira Tassitas, diretora de divisão do ensino fundamental da Secretaria Municipal de Educação de Bauru.

A utilização das ferramentas digitais, na visão de William Bornea Jacob, mantenedor de um colégio particular, em Bauru, é o caminho. Entretanto, ressalva, trata-se de uma transição a ser conduzida de forma gradual. “A tendência é o papel desaparecer, é um caminho sem volta”, considera. “No entanto, o uso ainda é parcial, é preciso utilizar com parcimônia”, observa. Para o educador, o uso orientado da tecnologia é necessário visto a própria falta de maturidade dos alunos na hora de navegar. A escola, salienta, segue os parâmetros da lei.

Em um estabelecimento de ensino particular, que também veta o uso do celular por alunos durante o período de aula, o alerta é feito aos alunos antes mesmo da matrícula. “Existe uma cláusula em contrato que prevê a proibição do telefone móvel em sala de aula”, decreta a diretora do estabelecimento educacional, Maria Lúcia Ranieri Previdello. Caso o aluno seja surpreendido em ligações, mensagens, tuitadas ou em animadas trocas de mensagens no Facebook, o aparelho é retido e devolvido posteriormente.

Já em outro colégio, explica a diretora Marta Cristina de Mello Soares, estabelece em manual aos alunos que os mesmos não podem utilizar, em aula, equipamentos alheios ao conteúdo desenvolvido em sala de aula. “Os aparelhos devem ser mantidos dentro da bolsa, desligados”, detalha a educadora.

Ela também concorda que a Internet tende a ser ferramenta importante no aprendizado. Contudo, recorrer à rede durante a aula é um procedimento que, ainda, deve ocorrer de forma supervisionada. “Não há como ‘escapar’ disso. No entanto, as pesquisas precisam ocorrer de maneira direcionada”, avalia.

 

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