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Do outro lado do mundo

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 10 min

Marcel Bighetti

A jornalista Wanessa Ferrari passou vários dias no país que mais cresce no mundo e relata o que viu e a surpreendeu nas ruas de Pequim

Você já pensou em ir para a China? Não! Essa, provavelmente, será a resposta da maioria dos leitores. As justificativas para a negativa rápida, respondida de pronto, são muitas e variadas: as mais de 24 horas dentro de um avião, as intermináveis esperas em escalas, as diferenças culturais, as barreiras de linguagem, o alto valor das passagens, entre outras tantas coisas que figuram na lista de motivos contra. Mas, esqueça tudo isso. Você não pode morrer sem conhecer a China.

O alerta foi dado por um amigo há cerca de dois anos. A princípio nem dei muita importância, afinal, com os belos países europeus ocupando os primeiros lugares na minha lista de “destinos que não posso morrer sem conhecer”, viajar para a China, definitivamente, estava fora de questão. Foi um campeonato de kung fu que me forçou a mudar de ideia.

Tudo começou com um convite vindo do país asiático para participar da competição realizada a cada dois anos em comemoração ao aniversário do Templo Shaolin, a meca do kung fu, situado na província de Henan, na cidade de Zhengzhou. A promessa era de um evento grandioso: mais de 80 países participantes, cerca de 2 mil atletas, recepção de gala, entre outras firulas. Uma oportunidade única.

A batalha por patrocínio e o treinamento intenso viabilizaram a viagem que possibilitou que eu, meu marido, também praticante do esporte, e nosso técnico embarcássemos no dia 16 de outubro rumo à China.

Antes da partida, um breve estudo possibilitou descobrir informações básicas sobre o país: com 9,5 milhões de quilômetros quadrados e mais de 1,3 bilhão de habitantes, a China é o país mais populoso do mundo. Em seu extenso território, estão localizadas obras históricas e grandiosas, como a Cidade Proibida, a Grande Muralha da China, o Templo do Céu e o já citado Templo Shaolin, além de modernas e impressionantes construções tecnológicas. Mania de grandeza define.

Mas não há Google que dê a dimensão do que espera por quem visita a China pela primeira vez. Leia nesta página um pouco sobre essa aventura, anote as dicas e comece a planejar a sua viagem. Repito: você não pode morrer sem conhecer a China.

 

Maratona aérea

Segurar a ansiedade e preparar-se para uma verdadeira maratona aérea é o primeiro desafio enfrentado por quem viaja para a China. Ao todo, cerca de 24 horas de voo separam o Brasil do maior país asiático, sem contar o tempo de escala, que varia de acordo com a companhia aérea escolhida. E é exatamente no avião que as primeiras diferenças culturais começam a aparecer.

A comida é a primeira delas. Seja no café da manhã, no almoço ou no jantar, os alimentos têm um forte sabor de pimenta. E pimenta das bravas, daquelas que provocam caretas involuntárias até mesmo nos apreciadores da ardida iguaria.

Mas não somos nós, brasileiros, os únicos a ter surpresas com diferenças. Os chineses também têm. E não fazem a menor questão de esconder isso. Curiosos, olham fixamente e a todo momento para os ‘estrangeiros’ presentes na aeronave. Imitam os pedidos feitos à aeromoça, reproduzem nossos gestos, trocam de assento entre eles para ficar ao nosso lado. Para eles também é tudo muito diferente...

 

Um país de idênticos

Pequim é uma megalópole: tem mais de 20 milhões de habitantes. Aos olhos dos ocidentais, um mar de gente, todos iguais: com olhos puxados, cabelos bem negros e lisos, porte mediano e pele clara.

As chinesas, em sua maioria, são belas. Têm a pele do rosto bem branca e sem manchas, cabelos superlisos e o corpo do tipo mignon. Sem aparentar a idade real, desfilam pelas ruas e estações do metrô bem vestidas, quase sempre de botas, meia-calça, shorts ou saia e um casaco para proteger do frio. Os homens, não. Apesar de elegantes, são mais judiados. Têm os cabelos rebeldes, a pele marcada por espinhas e os dentes amarelados pelo vício do cigarro.

Em meio a esse mar de gente igual, impossível qualquer estrangeiro, especialmente ocidental, passar despercebido.

Frente ao diferente, eles querem tocar, sentir a textura dos cabelos, conversar, trocar e-mail, tirar fotos. As crianças são ainda mais curiosas, ao ponto de seguir os estrangeiros pelas ruas da cidade.

Tanta curiosidade tem justificativa: a China é um país comunista. O contato de seus habitantes com o restante do mundo é extremamente vigiado e, na maioria das vezes, restrito a fins profissionais.

Para ter uma ideia, o tão popular Google não faz sucesso por lá. Os chineses têm seu próprio oráculo da Internet, o Bai Du (baidu.com). Facebook, então, nem pensar! O acesso à rede social é bloqueado até mesmo para estrangeiros.

Jornalistas também não são muito bem-vindos. Para conseguir entrar no país, tive de provar que participaria de um campeonato e que não viajaria com interesses profissionais.

 

Ah, os chineses!

Quem já foi à famosa rua 25 de março, no Centro de São Paulo costuma não ter uma boa impressão dos chineses. Talvez por isso, quando o assunto é China, os comentários mais frequentes são: “Lá não é muito limpo, não é mesmo?” ou “Os chineses devem ser muito mal educados”.

Bem, definitivamente, o conceito de educação dos brasileiros é bem diferente do conceito de educação dos chineses. Escarrar no chão, soltar pum em público, encarar estrangeiros e empurrar mulheres, crianças, idosos para entrar no metrô, fumar em todo e qualquer lugar, por lá, é algo usual e bastante aceito. Restaurantes, hotéis e alguns meios de transporte público, inclusive, espalham por toda parte baldes para acondicionar as cusparadas.

E olha que dizem que a situação melhorou muito desde 2008, quando o governo realizou um trabalho de conscientização porque Pequim foi sede dos Jogos Olímpicos.

Apesar disso, Pequim é uma cidade muito limpa. Diariamente, no período da noite, caminhões passam pelas ruas varrendo e lavando a sujeira acumulada durante o dia. Lixeiras também não faltam.

Comida estranha e água quente

Pensou em China, pensou nos tradicionais espetinhos exóticos. A Wang Fu Jing, em Pequim, é a rua mais famosa quando o assunto é este tipo de comércio. Nas barraquinhas, disciplinadamente expostas em uma larga calçada, tem de tudo: escorpião (preto ou amarelo, geralmente vivo, pode escolher!), cobra, calango, besouro, estrela-do-mar, cavalo-marinho, codorna...

As iguarias custam em torno de 25 yuan, aproximadamente R$ 8,00, podem ser escolhidas a dedo e são fritas na hora, em questão de segundos. Mas, como tudo na China, o preço não é problema. O que costuma faltar nessa hora é coragem.

Ver o bicho se mexendo, ainda vivo no espeto, não é nada animador. O cheiro forte e enjoativo do tempero apimentado e oleoso utilizado por eles em todos os tipos de comida também não é convidativo. Na verdade, chega a embrulhar o estômago.

Mesmo os pratos típicos menos exóticos não são fáceis de encarar. E para quem pensa que pode resolver facilmente a situação pedindo um yakissoba, esqueça. O macarrão com legumes que faz sucesso aqui no Brasil tem um gosto bem diferente por aquelas bandas.

E se a situação não é fácil quando o assunto é comida, com a bebida não é diferente. Isso porque os chineses têm o costume de tomar apenas líquidos quentes, e isso inclui água (que tem um gosto diferente da nossa) e suco. Apelar para as grandes franquias, nessa hora, é a melhor alternativa.

 

Looks exóticos

Usar máscara cirúrgica nunca foi um hábito dos brasileiros. Ela foi incorporada ao nosso look por pouco tempo, na época da epidemia de gripe H1N1, mas logo caiu em desuso. Na China é diferente. Máscaras (nem sempre cirúrgicas, muitas vezes siderúrgicas) são itens obrigatórios na composição do visual chinês. O motivo mais aparente é a poluição que acinzenta o país. Certos dias, é impossível sequer enxergar as construções que ficam por trás dos muros da Cidade Proibida, avistadas de longe nos dias mais pós-chuva.

E por falar em visual, se os adultos costumam esconder certas partes do corpo, as crianças fazem questão de mostrar. É que toda roupa infantil destinada a crianças em idade de usar fralda tem um corte na parte do bumbum. É uma forma fácil dos pequenos fazerem suas necessidades sem precisar sujar a fralda ou pedir ajuda da mamãe.

 

Às compras!

Fazer compras em seu próprio país nem sempre é tão fácil. Muitas vezes é preciso explicar para o vendedor o que você procura, pedir numerações e tamanhos diferentes, provar/testar e, muitas vezes, voltar para trocar o produto em outro dia. Na China não é diferente. Com o adicional de que todo este processo precisa ser feito em uma linguagem comum entre as partes, geralmente, o inglês.

No Mercado da Seda (Silk Market) e no Mercado das Pérolas (Pearl Market) essa missão é um pouco mais fácil, já que todos os vendedores falam e entendem pelo menos o básico do inglês e do espanhol. Mas se comunicação complicar, não se preocupe: uma boa maratona de mímicas pode ajudar na hora de escolher o produto e uma calculadora pode facilitar a negociação do preço.

Aliás, saber que todo e qualquer preço é negociável na China é muito importante. Isso porque no início da negociação (que dura em média cerca de 40 minutos), os vendedores costumam colocar preços até dez vezes maiores do que o produto realmente vale. Por isso, não se envergonhe em pechinchar. Não economize no charme:saia da loja e entre quantas vezes for preciso. Você terá a certeza de que fez um bom negócio quando o vendedor demonstrar irritação, chegando até mesmo a te dar uns tapinhas. Mesmo assim, tenha certeza: eles nunca saem no prejuízo.

Uma dica para otimizar o trabalho é só entrar em uma loja e perguntar pelo preço se você realmente estiver interessado no produto. Não vale a pena cotar preços em lojas diferentes porque a negociação costuma ir longe e você dificilmente conseguirá se livrar do vendedor sem comprar o item desejado.

Bolsas, pérolas, roupas, artigos típicos e tênis estão entre as coisas que valem a pena comprar na China. Quanto aos eletrônicos, só leve se tiver a certeza de que estão funcionando.

 

Guerra ao Japão

Brasileiro que é brasileiro não há de negar: é bastante difícil distinguir um chinês de um japonês. Especialmente por conta das características físicas, que são bastante parecidas. Mas cuidado: na China, essa ‘pequena’ confusão pode ser entendida como ofensa.

Isso porque os chineses detestam os japoneses. O ódio chega ao ponto de ser estimulado pelo comércio, pelo governo e pelos próprios chineses, que reproduzem a todo momento, em capas de celular, cartazes, e na fala dos guias, mensagens de extermínio ao Japão.

Tanta revolta é fruto da história recente, quando, em 1937, o Japão invadiu a China dando início a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Na ocasião, centenas de chineses foram mortos, decapitados e suas mulheres violentadas. A julgar pela propaganda anti-japão, o episódio não será esquecido tão facilmente.

 

Trânsito louco

Se você reclama do trânsito de Bauru ou de São Paulo, diz que os motoristas são irresponsáveis, que não sinalizam a conversão, não respeitam a faixa de pedestres entre tantas outras coisas, você precisa conhecer a China.

Pequim, por exemplo, tem como características as ruas largas, com quatro ou cinco faixas, túneis subterrâneos, pontes para a travessia de pedestres e semáforos de última tecnologia. Mas as regras de trânsito, por lá, são um pouco diferentes das existentes no Brasil. Quando o semáforo está livre para a travessia na faixa de pedestres, por exemplo, é permitido que os veículos da última faixa da direita façam a conversão e mudem de sentido, na mesma avenida. Lembrando que, para isso, é preciso que disputem espaço com pedestres e cortem a frente dos carros que aguardam o sinal verde para prosseguir.

Em Zhengzhou, motocicletas elétricas (as únicas permitidas) e bicicletas têm uma faixa de trânsito especial, separada por um canteiro das faixas de trânsito destinadas a carros, caminhões e ônibus. Mas isso é pouco para seus pilotos. Por isso, comumente, eles preferem andar nas calçadas e nas faixas de travessia destinadas aos pedestres. Parar o trânsito de uma avenida supermovimentada para fazer a conversão também é bastante comum entre os motoristas de ônibus.

Mas, por incrível que pareça, o trânsito flui muito bem e discussões por conta disso são bastante raras.

Já os metrôs são a maneira mais rápida e econômica de andar por Pequim. A passagem custa 2 yuan, cerca de R$ 0,65, e os trens passam a cada 5 minutos, no máximo. Basta saber em qual estação parar para conhecer os principais pontos turísticos de Pequim, como o Mercado da Seda, o Mercado das Pérolas, o Jardim Zoológico, o Templo do Céu, a Cidade Proibida, o Ninho do Pássaro e o Cubo d’água, entre outros.

 

 

 

 

 

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