Bairros

Jovens usam ?nova droga? em Bauru

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Malavolta Jr.

Frascos do solvente: jovens misturam substância antiaderente com fragrâncias e inalam o produto

Um solvente com a capacidade de evitar a aderência de pingos de solda em peças. É este produto bastante nocivo ao organismo (leia mais abaixo) que alguns jovens bauruenses têm utilizado para garantir momentos alucinógenos. Em três apreensões no fim de semana, foram localizados mais de 90 frascos. Apesar de a Polícia Civil aguardar laudos para definir se é ou não um entorpecente, o uso do solvente já é bastante preocupante.

As apreensões foram realizadas pela Polícia Militar (PM). A primeira ocorreu no início da madrugada de sexta-feira. Na frente de uma casa noturna na Vila Cardia, foram localizados 28 frascos do antirrespingo de solda. Nas proximidades, um jovem de 22 anos foi preso com cocaína.

O produto é um solvente usado na indústria mecânica e composto por polidimetilsiloxano. Os frascos estavam misturados com fragrâncias que, de acordo com os policiais, seriam inalados pelos jovens.

A droga pode ser encontrada em 'sabores' como melancia e menta

As outras duas apreensões ocorreram na avenida José Vicente Aiello, no sábado, no Parque das Nações. A PM montou uma operação de fiscalização nas proximidades de uma festa rave e localizou, por volta das 16h, um homem de 29 anos com 43 tubos do solvente.

Horas mais tarde, na mesma localidade, dois jovens, de 18 e 19 anos, foram flagrados com outros 20 frascos do mesmo produto. Além do solvente já misturado, havia dois tubos maiores com o antirrespingo de solda puro.

Os três casos seguem pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise). Segundo o titular da unidade especializada, Ricardo Dias, o solvente foi encontrado misturado em várias fragrâncias. “O modo de utilização é semelhante ao lança-perfume: por inalação. Eles pegam o produto e misturam com ‘sabores’ como melancia e menta”, explica.

De acordo com o delegado Ricardo Dias essas foram as primeiras apreensões da 'nova droga'

O delegado ainda afirma que, desde que está em Bauru, nunca teve contato com uma apreensão desse produto. “Já ouvíamos sobre isso há algum tempo, porém, eu nunca tive contato com uma apreensão desta aqui na cidade”.

Em um dos casos, os jovens confessaram aos policiais que realmente eram usuários da “nova droga”. Com exceção do homem que foi encontrado com cocaína, todos os envolvidos foram ouvidos e liberados.


Laudos

Apesar dos depoimentos dos jovens, Ricardo Dias ainda é cuidadoso sobre a questão. “Precisamos esperar o laudo e confirmar o princípio ativo da substância. Depois, verificar se, na lista de entorpecentes, este produto se encaixa como droga”.

Frascos com a droga já pronta para o consumo e tubos com antirrespingo puro

O laudo deve ficar pronto dentro de 30 dias. Somente se o princípio ativo estiver na lista do que é considerado entorpecente, é que os casos podem ser inseridos na legislação antidroga e tomadas as providências criminais. É o que ocorre com o lança-perfume, por exemplo.

Contudo, mesmo no aguardo dos resultados periciais, o delegado Ricardo Dias afirma que a questão já é bastante preocupante. Ele, inclusive, teme que se torne “moda” entre os jovens. “Preocupa muito. Em pesquisas, verifiquei que os efeitos do uso desse solvente são bastante nefastos ao organismo”, finaliza o titular da Dise.


‘Solvente pode matar’, diz Cardia

A busca constante por uma “felicidade química”. Para o doutor em toxicologia regulatória pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) Edson Cardia, é o que leva os jovens a inalarem produtos como o antirrespingo de solda. Mas o custo pode ser grande. “Este solvente pode matar”, afirma.

Arquivo/Renata Marconi

Doutor em toxicologia, Edson Cardia acredita que jovens buscam cada dia mais “felicidade química”

Segundo Cardia, além de vários outros prejuízos ao organismo, o uso contínuo do antirrespingo de solda pode ser fatal por asfixia. “É uma droga que possui efeito alucinógeno e depressivo. É o que chamamos de droga alternativa”.

O toxicologista explica que o princípio ativo do produto é conhecido pelos jovens. “Eles descobrem que existe o ‘metil’ na fórmula dos produtos e passam a usá-los como droga”.

Ele, entretanto, afirma que a maior dificuldade será realmente encaixar o produto na lei antidrogas. “A saída é dar o mesmo tratamento que tem a cola de sapateiro. Assim, a venda fica restrita ao profissional e a quem tiver mais de 18 anos”, conclui Edson Cardia.


Entorpecente já circulava aqui

Apesar de a polícia apontar que foi a primeira apreensão de antirrespingo de solda usada com fins alucinógenos em Bauru, o produto parece estar presente há algum tempo na cidade. Um jovem, que não quis se identificar, disse que tem conhecimento do fato há, pelo menos, um ano.

“Já faz bastante tempo que sei que as pessoas usam esse produto nas festas. Não é algo novo. Tenho, pelo menos, uns cinco amigos que já usaram”, conta o jovem, que frequenta várias festas em Bauru.

De acordo com ele, os amigos relatam a sensação de alucinação semelhante à proporcionada pelo lança-perfume. Os danos, contudo, também são parecidos. “Já vi pessoas passando mal quando usam esses tipos de solvente. Mas não posso afirmar que era esse antirrespingo de solda”.


Na região

Em artigos na internet, a polícia já alerta para o uso do antirrespingo de solda no Brasil há algum tempo. Na região, o solvente já havia sido apreendido no final do ano passado. Segundo o site Repórter na Rua, a PM de Ourinhos (120 quilômetros de Bauru) localizou um adolescente de 15 anos com o produto.

De acordo com o site, na noite do dia 29 de dezembro do ano passado, o jovem vendia uma inalada do solvente por R$ 5,00. Ele, que também estava com bebidas alcóolicas, foi apreendido e liberado após a presença dos pais.

 

Comentários

Comentários