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Depois de nove anos, o gêmeo caçula

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Aceituno Jr.

Os irmãos Vitória, Augusto, Vitório (o menor, ao centro) e Gustavo na casa da família no Parque Vista Alegre

“Gêmeo caçula”. As duas expressões que não combinam se tornaram perfeitamente compatíveis em Bauru por conta da ciência. “E da fé”, completa rapidamente Márcia Renata de Oliveira Carvalho, 42 anos. Ela é mãe de quadrigêmeos bem diferentes, uma vez que três crianças nasceram em 2002 e o caçula veio somente em 2011.

O caso raro dos gêmeos Vitória, Augusto, Gustavo e o caçula Vitório parece roteiro de filme de ficção científica. Márcia e seu marido, Segundo Aparecido Carvalho, hoje com 48 anos, tentaram por sete anos a gravidez. Sem sucesso, decidiram procurar uma clínica de reprodução humana.

“Eu tinha endometriose e ele baixa contagem de esperma. Então, recorremos a uma clínica em Ribeirão Preto para realizar nosso sonho”, conta a mulher, que trabalha como administradora na empresa do marido.

Em 2001, a família começou a ganhar corpo. Foram inseminados três embriões no útero de Márcia. “Depois de toda a luta, fui privilegiada. Na primeira tentativa, engravidei dos três. Então, vieram os trigêmeos, que nasceram em 19 de março de 2002”.

Contudo, durante o processo de reprodução, além dos três embriões que nasceram, foram colhidos outros três. Como é o procedimento padrão, eles ficaram congelados na empresa de reprodução.

Anos depois, veio a decisão de “completar a família”. Aliás, a decisão já estava tomada desde o começo. “Desde o dia em que eu saí do hospital, tive a certeza que um dia iria voltar e transferir para meu útero os três embriões que ficaram congelados”, conta, emocionada.

E a decisão dela foi realmente corajosa. “Eu iria fazer a inseminação dos três embriões”. No processo de descongelamento, porém, dois não resistiram. O único vitorioso foi, não por coincidência do nome, o Vitório.

“Ele só podia ter esse nome. Foi um vitorioso. É espetacular pensar que ele ficou nove anos congelado. Apesar de todos os exames, eu tinha medo. Fico olhando para ele até hoje pensando nisso”, conta Márcia Carvalho.


Presente

Os trigêmeos acompanharam todo o processo para conceber o irmão caçula Vitório. Ciúmes? “De jeito nenhum. Eles curtiram muito a ideia. Ficaram muito felizes em ter um novo irmão. Tanto que disseram que não queriam brinquedo de presente de aniversário. Disseram que queriam o irmão”.

E o mais impressionante é que ele veio. Vitório nasceu exatamente no dia 19 de março de 2011. “Ele iria nascer de parto normal alguns dias depois, mas marcamos a cesariana para o dia 19. O incrível é que tive a dor do parto no dia 19. O médico disse que era para ele nascer nesse dia mesmo”, relata a mãe.

Hoje, a sensação é de família completa. No próximo dia 19 de março, a festa vai ser grande. Enquanto Vitória, Augusto e Gustavo completarão 11 anos, o pequeno Vitório assoprará duas velinhas. Contudo, o gêmeo caçula bauruense é que foi o presente de toda a família. “Amamos demais ele. É um anjo em nossas vidas. Sempre falo que ele foi um ato de fé junto com um ato de amor”, finaliza Márcia Carvalho.


Descongelou!

Dono de uma voz estridente, Vitório é bastante agitado. Tanto que nem parece ter ficado, quando era apenas um embrião, congelado por nove anos. “Quando ele grita, os familiares ainda brincam: ‘o Vitório descongelou de vez’”, conta Márcia Carvalho.

A mãe diz que o gêmeo caçula se parece em tudo com sua irmã, a Vitória. Porém, os filhos discordam. “Os outros três dizem que ele, o ‘congeladinho’, é o mais lindo de todos eles”.


Pais não podem descartar embriões excedentes, determina legislação atual

A reprodução assistida possui uma série de regras em relação aos seus procedimentos. Uma delas trata exatamente dos embriões remanescentes. De acordo com a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), eles precisam ser criopreservados.

Assim, há somente três opções: ou o embrião é doado para pesquisas, ou para outra família, ou é feita nova inseminação na mãe, exatamente o que ocorreu no caso de Vitório. “A empresa me ligava todo ano perguntando o que eu queria fazer. Eu sempre dizia para eles esperarem mais um pouco porque eu sabia o que queria”, explica Márcia Carvalho, mãe de Vitório.

Além disso, há outras diretrizes como o limite de embriões transferidos de acordo com a idade da receptora e, em casos de complicação em qualquer parte do processo, a responsabilização da clínica que realizou a fertilização.

A reportagem tentou contato com a delegacia regional do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e com o Conselho Federal de Medicina (CFM) na tarde de ontem, entretanto, não foram localizados os responsáveis para comentar as regras de reprodução assistida.


‘Não teve um dia em que eu não rezei por ele’, declara a mãe, emocionada

É consenso que o amor de mãe é um dos maiores que existe. Márcia Carvalho e o pequeno Vitório são a prova dessa afirmação. Longe de toda a polêmica sobre um embrião ser já considerado ser vivo ou não, ela afirma: “era meu filho que estava lá”.

Ela conta que, quando saiu do hospital, teve a sensação exata de deixar seu filho no local. E, durante os nove anos em que o embrião ficou congelado, ela nutriu o mesmo sentimento. “Não teve um só dia em que eu não rezei por ele”.

Bastante religiosa, Márcia atribui toda a história a um ato de fé. Contudo, não deixa de lado a importância da ciência em toda a história. Ela, inclusive, conseguiu uma explicação para colocar dois campos tão antagônicos de mãos dadas.

“A ciência nada mais é que a sabedoria que Deus dá para as pessoas. O dom que Deus dá. O que possibilitou toda a ciência foi essa sabedoria”, conclui a mãe.

 

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