Desafio. Essa é a palavra que resume o quadro da saúde pública quando o assunto é tratamento e recuperação de dependentes químicos. O avanço das drogas aliado às discussões sobre a internação compulsória - quando os drogaditos são levados a tratamento contra a sua vontade - no Estado coloca em xeque a capacidade do atendimento já oferecido pelos municípios. Em Bauru, 52 usuários que se apresentaram voluntariamente para realizar o tratamento nos últimos meses ainda aguardam em lista de espera por uma vaga de internação nas duas únicas casas de recuperação conveniadas com a prefeitura.
O quadro se agrava ainda mais quando o assunto é tratamento para adolescentes e mulheres.
Das 50 vagas disponibilizadas nas comunidades terapêuticas, todas são para dependentes químicos do sexo masculino maiores de 18 anos.
A prefeitura assinou convênio com a Comunidade Bom Pastor, após chamamento público, para o atendimento de mulheres adultas dependentes químicas, no final do ano passado. O convênio entrará em vigência nos próximos dias.
Atualmente, a internação de adolescentes usuários de drogas na cidade funciona de modo emergencial, ou seja, diante dos mandados judiciais que chegam para o município. Para atender esses casos, a prefeitura possui parcerias com entidades em Votorantim (252 km de Bauru) e Araçatuba (198 km de Bauru).
Segundo a Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) e a Secretaria Municipal de Saúde, não há um número exato de drogaditos na cidade, mas conforme o JC apurou, a estimativa é que haja cerca de 2 mil pessoas dependentes químicas em Bauru.
Vagas
Em Bauru, conforme explica Monti, a regulação das vagas tanto para internações em hospitais - que ocorre nos casos mais graves - quanto para tratamento em comunidades terapêuticas é feita pelo Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD). Na própria unidade, são oferecidos três leitos para pacientes permanecerem em observação das 7h às 18h.
Além do Caps AD, usuários também recebem atendimento de apoio no Pronto-Socorro Central (PSC). Todos os casos de internação, entretanto, passam por avaliações médicas no centro de apoio sendo, posteriormente, encaminhados às casas de recuperação ou hospitais.
O Hospital Manuel de Abreu é o único em Bauru conveniado com a prefeitura e possui sete vagas para internação. Até a última quarta-feira, 4 homens e 2 mulheres aguardavam por vagas em lista de espera no local.
Outro hospital que atende usuários, porém, quando diagnosticados com surtos psiquiátricos, é o Thereza Perlatti, em Jaú (47 km de Bauru), onde a regulação das vagas, ocupadas de forma voluntária ou involuntária pelo paciente, é de responsabilidade do Departamento Regional de Saúde (DRS-6). Até quarta-feira, nenhum paciente aguardava na lista de espera, segundo o Caps AD.
Apesar da defasagem demonstrada pelos números, o secretário municipal de Saúde, em análise preliminar sobre o assunto, fecha a questão: “Não temos problemas com vagas para internação. Dependendo do período, as vagas chegam a sobrar. Se houvesse esse problema, já teríamos demandado”, afirma.
De fato, sobras e faltas de vagas em comunidades terapêuticas ocorrem em períodos distintos.
Em julho de 2012, no Esquadrão da Vida, 20 vagas eram ocupadas pelo município, enquanto que, em agosto do mesmo ano, na Comunidade Bom Pastor, a prefeitura contratou 40 vagas ofertadas pela instituição.
Quanto à lista de espera atual, 52 pessoas aguardam pelo atendimento nessas duas unidades conveniadas com o município. Conforme a Secretaria Municipal de Saúde, o tempo de espera costuma ser de 30 dias. O tempo de tratamento nessas comunidades varia de um a seis meses.
Cidade ganha casa de recuperação
Mais uma comunidade terapêutica para dependentes químicos será inaugurada em Bauru no próximo mês. A casa de recuperação Aliança com Deus é vinculada a uma entidade cristã e está situada na zona rural de Bauru, nas imediações do bairro Pousada da Esperança II.
Das 25 vagas oferecidas pela entidade particular, três serão vagas sociais, ou seja, sem custo para os pacientes. A entidade ainda estuda a possibilidade de convênios futuros com o município.
O local abrigará dependentes químicos maiores de 18 anos, do sexo masculino e casos não considerados graves, ou seja, em que o paciente não possua comprometimento neurológico ou psiquiátrico.
De acordo com a coordenadora e vice-presidente da entidade, Margareth Machado Pereira, 49 anos, e o coordenador técnico Reider Noronha Pereira, 45 anos, a entidade terá cerca de 15 voluntários, entre eles uma enfermeira, uma assistente social e uma psicóloga.
As internações terão período de sete a nove meses e os usuários terão atividades das 7h às 22h, que incluem a laborterapia (trabalho), ginástica, aulas de informática, atividades de lazer e preparação espiritual.
“Nós assumimos esse compromisso pela fé, pela experiência que temos e, principalmente, pela vontade de ajudar o próximo”, diz Margareth.
A unidade, que fica na estrada CRT212B, no bairro São Luiz, será inaugurada no dia 3 de fevereiro. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 9749-0692, (14) 3021-3803, (14) 9668-9446 ou pelo site www.abad.com.br.
Sem internação compulsória
Questionado sobre as internações compulsórias, o secretário Fernando Monti descarta que a medida seja implantada nos moldes de como o serviço ocorre na Capital.
“Estudos médicos comprovam que deve haver a vontade da pessoa em se tratar para que haja sucesso. As internações compulsórias em Bauru já ocorrem quando a Justiça, a pedido das famílias, decide assim”, frisa Monti. “A saúde é impotente para solucionar um problema que é social. Só em casos extremos, quando a pessoa está fora de suas condições físicas e psíquicas, ocorrerá esse tipo de internação”, reforça o secretário.
A mesma opinião é compartilhada pela secretária municipal do Bem Estar Social, Darlene Tendolo. “A lei funciona como um respaldo para casos extremos. O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) é acionado para socorrer usuários de drogas que não têm condições de se manifestar. Não encaminhamos ninguém para lugar algum contra a vontade”, enfatiza Darlene.
As buscas realizadas pela Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) funcionam todas as noites no município e recolhem aproximadamente de três a quatro pessoas usuárias de drogas ou em situação de rua que aceitem abrigos.
Os casos são enviados para as casas de passagem, entre elas, o albergue noturno do Centro Espírita Amor e Caridade.