Política

342 kg de carne da merenda estragam e vão parar no lixo

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

Renata Marconi

Diretora Soraya de Goes atribui fato a uma “sequência de falhas” ocorrida na escola José Guedes de Azevedo

Desperdício: 342 quilos de carne da merenda escolar foram descartados no aterro sanitário de Bauru no dia 30 de janeiro. Os produtos, adquiridos pela Secretaria Municipal de Educação, estavam armazenados em dois freezers da escola estadual José Aparecido Guedes de Azevedo. Ambos estavam ligados na mesma tomada, mas, por motivos desconhecidos, pararam de funcionar durante o recesso escolar.

Isso só foi constatado na última quarta-feira, quando a vice-diretora da unidade abriu a cozinha e se deparou com a grande quantidade de carne de diversos tipos e cortes já estragada. O prejuízo foi de R$ 2.540,20, de acordo com os valores da licitação pelos quais os produtos foram adquiridos (Veja no quadro abaixo).

É possível que os freezers tenham queimado com uma das tempestades durante o recesso escolar. A possibilidade de isso acontecer já havia sido alertada pela Secretaria Municipal de Educação em documento enviado às merendeiras em novembro do ano passado.

A partir do problema, a orientação do Departamento de Alimentação Escolar do município foi de que os freezers fossem higienizados e os produtos deteriorados, devidamente embalados e descartados.

De acordo com a diretora do setor, Soraya de Goes, “uma sequência de falhas” ocasionou o descarte da carne. O primeiro ponto é que elas não deveriam estar na escola, principalmente em tamanha quantidade, durante as férias escolares.

Na unidade de ensino Guedes de Azevedo, atuam três merendeiras cedidas pelo município. Elas eram as responsáveis por terem devolvido a carne que não foi consumida pelos alunos da escola para o departamento responsável até o início do recesso. “Deveria ter ficado um estoque para abastecer a merenda por um período máximo de cinco dias, o que seriam cerca de 160 quilos e não 340. Seria o ideal para garantir o abastecimento da primeira semana”, explica Soraya.

Segundo a diretora, o departamento tem cinco freezers disponíveis para o armazenamento de produtos devolvidos pelas 206 escolas que recebem merenda.


E o Estado?

Soraya de Goes aponta ainda que o fato poderia ter sido evitado caso a cozinha da escola estadual tivesse sido monitorada durante as férias. “Algum funcionário, delegado pela direção, deveria conferir se os freezers estavam funcionando. Não conseguimos saber nem desde quando a carne está estragada”, pontua.

Segundo a diretora do Departamento de Alimentação Escolar, isso acontece, inclusive aos finais de semana, nas unidades do município e evita transtornos desse tipo. “Hoje mesmo [ontem], uma escola ligou para avisar que o freezer estourou durante a madrugada. Fomos até lá, com um veículo refrigerado, e trouxemos a carne”, pontua.

Acionada pela reportagem, a Secretaria do Estado de Educação informou não haver o que comentar sobre o caso, pois a merenda de suas unidades de ensino é descentralizada. No entanto, reforçou que, ontem, no retorno às aulas, as refeições foram servidas normalmente aos alunos da José Aparecido Guedes de Azevedo.


Divergência

Soraya Goes, porém, rebate que, de acordo com a resolução 38 do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o Estado é responsável pela estrutura física da cozinha de suas unidades, mesmo que as merendas sejam servidas a partir de convênios, como ocorre junto ao município de Bauru.

A Secretaria Municipal de Educação vai relatar os acontecimentos à Diretoria Regional de Ensino, vinculada ao Estado.


Convênio

A partir de repasse de recursos por aluno pelo Estado ao município, a Secretaria Municipal de Educação compra e entrega a merenda a 51 unidades estaduais de ensino, em Bauru.

No ano passado, foram repassados, anualmente, R$ 50,00 por cada um dos 26.297 alunos matriculados no ensino fundamental regular (inclusive para os de unidades municipais), 13.179 no ensino médio e 5.033 da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Para 329 estudantes do ensino fundamental integral, o repasse anual foi de R$ 720,00 per capita. O montante chega a R$ 2.462.330,00

Diretora do Departamento de Alimentação Escolar, Soraya de Goes afirma que, muitas vezes, o município precisa subsidiar o valor da merenda oferecida aos estudantes de unidades estaduais, como ocorre também no convênio junto ao Estado sobre o transporte escolar.

A merenda escolar também é subsidiada por repasses do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).


Sindicância vai apurar o caso

A secretária municipal de Educação Vera Casério informou que, na próxima segunda-feira, uma sindicância vai apurar o descarte dos 342 quilos de carne estragados. “Vamos receber o relatório pela manhã e o processo já será instaurado. Já conversei sobre isso com o prefeito [Rodrigo Agostinho]”.

A pasta admite que a responsabilidade sobre a devolução dos produtos recai sobre as três merendeiras cedidas pelo município à escola José Aparecido Guedes de Azevedo.

Além de não devolverem, as servidoras não entregaram ao Departamento de Alimentação Escolar o ‘mapa da merenda’.

Trata-se de um relatório feito por cada escola que indica todos os alimentos requisitados no mês, o que foi consumido e o que sobrou. A partir disso, são viabilizados o controle, planejamento e prestação de contas da merenda.

“Isso é entregue, normalmente, no começo de cada mês referente ao mês anterior. Elas não entregaram e saíram de férias, o que impossibilitou a cobrança pelos supervisores”, justifica Soraya de Goes, diretora do setor.

Ela admite, porém, que 10% das unidades escolares, incluindo as do município, não cumprem regularmente com o procedimento.


Carne estragada

79 kg de isca de carne bovina: R$ 632,00

132 kg de carne bovina moída: R$ 1.001,88

25 kg de carne bovina em cubos: R$ 200,00

66 kg de salsicha: R$ 469,92

40 kg de sassami (tiras de frango): R$ 236,40

Total: R$ 2.540,20

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