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Entrevista da Semana: Nelson Salmen Filho

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

De canetas esferográficas comuns, ele fez arte. O artista plástico Nelson Salmen Filho, de família tradicional de Bauru, pioneira na revenda Ford em todo o Brasil, dá vida abstrata aos seus quadros coloridos ou em preto e branco e encanta com a simplicidade do material usado e com a beleza do resultado de seus trabalhos.

Ao contrário do que acontece com boa parte dos artistas plásticos, não foi na infância que ele pintou os seus primeiros traços. “Eu já tinha passado dos 30 anos de idade quando senti a necessidade de criar. Comecei fazendo tapeçaria. Depois, comprei telas, tentei riscá-las e não consegui. Perguntei-me de onde partiria. Comprei um pequeno caderno de desenho e comecei a riscar com esferográfica. Não parei mais.” 

Presente no Memorial da América Latina, ele ganhou o título de artista plástico da Academia Latino-Americana de Arte (ALA) e faz parte também da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História (ABACH), que funciona na Casa da Fazenda do Morumbi.

Se hoje sua vida é dedica à arte, no passado o esporte ocupou os seus dias. “Eu comecei a jogar basquete aos 12 anos de idade. Dos 13 aos 18 anos, eu tive a oportunidade de jogar na Seleção Brasileira”. Leia estas e outras histórias, a seguir.


Jornal da Cidade - Quem descobriu o seu talento?

Nelson Salmen Filho - Na verdade, meu trabalho só saiu de Bauru quando o meu amigo João Afonso Coube o levou para São Paulo e fez contato com uma pessoa da Casa da Fazenda do Morumbi, que faz parte da Academia Latino-Americana de Arte (ALA) e da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História (ABACH). E lá em São Paulo eu ganhei o título de artista plástico e daí em diante fui convidado a participar da exposições deles. Foram inúmeras edições.

Nem sei dizer ao certo quantas, mas isso está acontecendo há uns oito anos. Já faz sete anos que eu estou no Memorial da América Latina e já participei de exposições em países como Chile, Uruguai, Argentina...    


JC - Como começou a sua história com a arte?

Nelson - Não descobri as canetas esferográficas logo de cara. Eu comecei a fazer tapeçaria. Eu ia às lojas, comprava os motivos prontos e fazia os trabalhos. Eu queria criar. Comprei telas, tentei riscar e não consegui. Então o chargista Alcione, que trabalhou no Jornal da Cidade, fez um desenho do Palmeiras para o meu pai e eu o cobri... Decidi tentar. Eu nunca fiz curso de desenho, nada. E me perguntei de onde eu partiria. Então comprei um caderno de desenho, desses de criança pequena, e comecei a riscar com caneta esferográfica, isso há cerca de 25 anos. E passei a comprar mais e mais cadernos. E as fases foram vindo. 


JC - Em qual fase você está agora?

Nelson - Neste momento eu estou na fase de parar de pintar para me organizar. Tenho muitos desenhos, muitos mesmo, nem sei dizer quantos. Alguns até sem assinatura. O que eu tenho fotografado são apenas umas 10 ou 15 obras no site da ALA e nada mais.  Eu preciso me organizar.     


JC - Por que desenhos abstratos?

Nelson - Eu não fiz cursos, mas eu bato o olho e sei o que fazer. Eu mantenho sempre três ou quatro desenhos por terminar e nem sei dizer de onde vem a inspiração para as pinturas. Vou fazendo... Eu já cheguei a ter um problema por causa da pintura. Eu comecei a pintar em pequenos círculos e precisei assinar uns papéis com a morte de minha mãe e não consegui. Fiquei uns três meses pintando com bolinhas e parei.


JC - E por que caneta esferográfica?

Nelson - Essa vontade surgiu quando eu trabalhava como representante comercial de material escolar. Hoje, não, mas eu já encontrei uma certa resistência em São Paulo pelo fato de trabalhar com caneta esferográfica. Há quem dê valor apenas a trabalhos feitos com tintas e papéis importados. Mas as tintas de caneta são muito boas, elas não desbotam com a luz, como acontece com muitas outras.


JC - Quando você pinta?

Nelson - Para falar a verdade, o meu horário de pintar é de madrugada. Eu praticamente troco o dia pela noite, às vezes vou dormir às 6h. Minhas noites são os desenhos e a TV e o rádio ligados.


JC - Você tem uma pintura especial?

Nelson - Uma especial, não. Mas, por exemplo, fiz uma pintura que saiu em um livro da ALA e, por isso, fui muito valorizado. Essas coisas acontecem com a arte.


JC - Você ganha dinheiro com a sua arte?

Nelson - Eu estou começando a vender bem o meu trabalho. O Fabio Porchat, pai do ator Fabinho Porchat, da TV Globo, é o responsável por vender meus trabalhos em São Paulo. E a venda dos quadros me mantém nas exposições, porque eu preciso pagar as viagens e um seguro para o transporte dos quadros. Quando um quadro já sai vendido em uma exposição, eu fico mais tranquilo porque tenho viagens garantidas.  


JC - Você tem um projeto ou uma nova ideia que pretende desenvolver?

Nelson - Minha ideia, para agora, é fotografar meus trabalhos e digitalizá-los. Quero montar um site para expor o que eu faço, algo que precisarei de ajuda, já que não entendo e não gosto de lidar com a tecnologia. Para você ter ideia, nem celular eu tenho. Quando viajo, levo o aparelho de um de meus filhos para não ficar sem comunicação. Atualmente eu participo apenas do site da ALA. 


JC - Quais foram os seus caminhos profissionais antes de se descobrir artista?

Nelson - Eu trabalhei um certo tempo como representante comercial de material esportivo e escolar, como eu disse, foi quando eu parti para o lado artístico. Antes de pintar, também fiz faculdade de educação física e quase terminei uma faculdade de fisioterapia. Mas eu também fui atleta.


JC - Fale um pouco sobre a sua vida no esporte.

Nelson - Eu comecei a jogar basquete aos 12 anos de idade. Dos 13 aos 18 anos, eu tive a oportunidade de jogar na Seleção Brasileira. Participei de campeonatos brasileiros, sul-americanos, Torneio Alberto Rosselo, também estive no Mundial de Porto Rico, em 1969. Aos 22 anos, eu rompi os ligamentos de um joelho e precisei parar.


JC - Você deve ter viajado muito pelo esporte.

Nelson - Sim. O esporte _me deu a oportunidade de estar em muitos lugares. O Interior era muito especial na minha época de colégio, na época dos Jogos Regionais. Aqui havia um desenvolvimento muito grande de atletas. As escolas tinham campeonatos colegiais na Semana da Pátria... Eu joguei pelo Luso, pratiquei judô por muito tempo, fui faixa preta, ganhei torneios de natação, futebol... E acho que é por causa do esporte que eu mantenho a minha saúde e fiz muitos amigos. O mesmo aconteceu com o serviço militar.


JC - Fale um pouco sobre a sua vida pessoal.

Nelson - Minha família vem de uma fase difícil. Sou casado e tenho dois filhos, um de 28 e outro de 25 anos. Meu pai faleceu em 1991, logo em seguida meu sogro ficou doente e pouco tempo depois a minha sogra e a minha mãe também adoeceram. Nessa época, eu parei um pouco de rodar. Eu até digo que minha esposa é cuidadora profissional, porque foram muitos anos de dedicação aos nossos pais. Enfrentamos o câncer do meu pai e o Alzheimer da minha mãe e dos meus sogros. Para você ter ideia, minha sogra e minha mãe ficaram doentes juntas. Teve um dia em que as duas estavam internadas em quartos separados e eu até discuti com os médicos para colocá-las juntas para darmos melhor assistência a elas.


JC - Você é um homem de muitos amigos?

Nelson - Sim, graças a Deus. Algumas pessoas eu guardo no coração, como a Marília Guedes, que me ajudou quando eu mais precisei.


JC - Além da arte, o que mais te atrai?

Nelson - Sou um adepto total da causa animal e minha esposa ainda mais. A gente tem nove cachorros que foram retirados das ruas.


JC - O que te motiva hoje em dia?

Nelson - Sem dúvida é a minha família: meus filhos e minha mulher. Depois que os filhos nascem, a sua vida muda completamente. Você não é mais sozinho. 

 

Perfil

Nome: Nelson Salmen Filho

Idade: 57 anos 

Local de Nascimento: Bauru

Signo: Touro

Esposa: Ivone 

Filhos: Rafael e Alexandre

Hobby: Pintura

Livro de cabeceira: Não tenho um livro especial

Filme preferido: Gosto de documentários

Estilo musical predileto: Gosto da música nacional

Time: Santos

Para quem dá nota 10: Para o meu pai, pelos bons exemplos que ele me deu

Para quem dá nota 0: Para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos no Brasil por causa do dinheiro gasto que deveria ser investido nas necessidades básicas do brasileiro, como alimentação, saúde e segurança pública

 

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